era de chocolate, disse um dos jovens no nosso auditório no decorrer da festa da Escola Móvel, demos todos uma gargalhadita. Foi um espectáculo simples, todos eles entravam com esta frase e um desenho relacionado no bibe de papel grosso. A continuação era diferente, especial para cada um deles. Estavam agrupados por séries - houve a dos planetas, houve a das plantas, a dos peixes (entrou um cardume de sardinhas muito juntinhos, foi outra gargalhada), dos animais e outras que tais. Só não falavam os que faziam coisas - os malabaristas e umas meninas que dançavam.
O chocolate fez-nos rir por ser pueril, uma lufada fresca em contexto elaborado.
Uma opção que desconhecia, esta de se poder frequentar a escola através de um computador. O público alvo são os miúdos que viajam de terra em terra - feirantes, circo - e ainda as mães adolescentes que têm de abandonar a escola. Recebem um computador (?, não entendi bem esta parte, se é oferecido ou cedido; a vodafone paga as comunicações, isso percebi) e têm as lições através dele; recorrem à plataforma moodle (aquela coisa agressiva, difícil de perceber mas que passada a primeira barreira, dizem, é muito útil e funcional ainda que continue a ser horrorosa) e vão tirando dúvidas online com os professores. Estes estão todos fechados numa sala - tipo ficção científica - e vão, pelo que percebi alternando entre os diversos alunos. Aliás, foi curioso que depois de dizerem "se eu fosse uma árvores, criava raízes nas dunas da praia" a seguir apresentavam-se, alguns com nomes reconhecíveis como Cardinali, e a respectiva turma 7ºA1. Bizarro, ter uma turma virtual mas terá com certeza um propósito.
Depois, todos os períodos reúnem-se numa escola (alojam-se em camaratas militares) onde fazem actividades e têm algumas aulas presenciais. Uma frase gira de uma miúda "se eu fosse a directora da escola móvel fazia mais semanas presenciais".
Não é só desgraças, o nosso sistema de ensino. Dar a possibilidade de estudar a jovens que de outro modo com grande dificuldade (mesmo assim não há-de ser fácil) o conseguiriam e abrir-lhes as portas para prosseguirem para mais altos voos é fantástico. Basta que um o deseje e o consiga para ser uma estatística favorável; há-de ser um programa caro.
E depois, acredito também que o que se aprende no processo será também útil para os alunos do ensino normal. Eles assumiram-se ali como diferentes e com que orgulho o afirmaram.
(fiz os primeiros três anos numa escola um pouco diferente. Numa das matérias praticava-se o ensino programado, isto é, cada um de nós ia ao seu ritmo. Havia um armário com livros de exercícios e nós íamos fazendo. Quando acabávamos um livro, mostrávamos ao professor e se estivesse tudo bem íamos buscar o seguinte. Parte da aula era oral e era comum mas o resto era por nossa conta; lembro-me de aquilo ser muito estimulante)
Neste espectáculo de encerramento foi pena não terem contratado um animador em condições. Foi desenxabido, foi o possível com os conhecimentos existentes, imagino. Mas com tantos animadores profissionais que em duas horas conseguem pôr um grupo de duros de ouvido a tocar em orquestra com garrafas de plástico com grãos de arroz o que não fariam com uma semana de trabalho com um grupo talentoso como são estes miúdos.
Numa busca agora mesmo, o jornal do projecto.