terça-feira, 15 de junho de 2010

não cuspas para o ar

que te cai em cima.

É uma expressão detestável pelo nojo que evoca. Tive um amigo que a usava com alguma frequência, pela sintonia que tínhamos em questões de escola, é a que hoje se me impõe.

Um telefonema vindo do nada a meio da manhã. Uma voz feminina educada, apresentando-se, perguntando primeiro se o momento era bom para falarmos, "sim, esteja à vontade" dizendo que está a reunir uma equipa para, no não-diremos-o-nome trabalhar o ensino artístico no ensino regular. O meu nome e contacto tinham-lhe sido sugeridos pelo prof. tal e tal como referência na área da dança na escola.

Ali, naquele breve instante, inchei quase levitando. Ela foi avançando, explicando um pouco mais em que consistia o projecto até eu conseguir intervir, dizendo que estava agora envolvida num outro projecto, que tinha um compromisso e que não poderia aceitar, não valendo sequer a pena a conversa que sugeria. Acrescentei que percebia a razão da referência pois o professor tinha assistido a um dos espectáculos e ficara bem impressionado mas que ainda assim, eu duvidava que as minhas qualificações fossem as adequadas.

Ficou assim a conversa, eu não vacilei sequer mas sei que o teria feito se as circunstâncias fossem outras. Não obstante tudo o que disse e penso sobre os serviços do não-diremos-o-nome teria explorado um pouco mais o desafio, teria ido ter com ela para termos a tal conversa. Resisto a tudo menos a uma tentação dizia Oscar Wilde, creio, acho que sou um pouco assim.

A primeira mudança de escola voluntária foi a última, todas as outras foram impostas. De facto, nos primeiros 13 anos de professora, estive em 12 escolas e porque numa, no D. Dinis, pude concorrer à recondução, figura que então havia. A colocação era um desânimo pois nunca conseguíamos aprofundar o trabalho do ano anterior. Dar aulas era sempre, e na verdadeira acepção, um constante recomeço.

Estabilizei 9 anos em Paço de Arcos mas apenas nos dois primeiros senti haver um progresso, e falo da educação física. Nos seguintes, fazendo uma retrospectiva, tratou-se mais de conter os danos. Não havia a massa crítica ou seria eu que estava em notória contra-maré. Quando tudo o resto na escola parecia encaminhar-se no mesmo sentido, senti que era eu que estava mal, não me revia na cultura de escola e que precisava de começar de novo.

"para que llegue es conveniente crear novas circunstancias"

Dei com esta frase num camarim do Teatro Camões quando já estava na escola secundária de Camões. Um aval, digamos, fizeste bem. Tive sorte, reconheço-o.

No momento actual, não fosse o projecto da gestão, teria vacilado pois é um desafio. Podia correr mal, não havia quaisquer garantias tal como eu não as tive, quando em 2005 preenchi um boletim com 5 códigos de escolas a 20 km da minha casa onde não conhecia ninguém. Se a equipa artística corresse mal, pois bem, haveria que seguir em frente. Em frente seguiria também se corresse bem, em ambas as possibilidades de regresso à escola, eu gosto mesmo é das trincheiras. Teria vacilado ainda porque o (meu) ciclo completou-se este ano, porque as minhas inquietações mais prementes agora são outras, porque a ap dança para mim terminou aqui. Continuará na escola com a prof. Helena, como saberão os alunos de 11º ano que já se inscreveram, um renascer para uma outra fase. Andava a pensar quando abordaria o assunto, está feito.

Com este convite ocorre-me - o que nós brilhamos à conta dos alunos.