terça-feira, 8 de junho de 2010

matrizes

Há cerca de um mês recebo um telefonema de uma colega de educação física de uma escola onde estive no início da carreira. Foi uma sorte, um feliz acaso do destino na lotaria das colocações. Era o terceiro ano que dava aulas e os dois primeiros tinham tido a sua dose razoável de frustração. Miúdos impecáveis em qualquer delas, os miúdos são-no sempre, mas grupos (é o mais importante, repito, educar é um trabalho de equipa) tristes, passivos, acomodados, sem ponta de chama. Com excepções individuais, claro, mas sem capacidade ou vontade de "dar a volta".

Em 85 fiquei portanto colocada no D. Dinis em Chelas. Sorte das sortes, num ano de ouro em que leccionava um lote de professores excepcionais. Falo da educação física, atenção. Fiquei lá dois anos e essa vivência foi marcante. Aprendi imenso com todos eles, foi o meu "estágio" avant la lettre, (viria a fazê-lo alguns anos depois, reforma e contra-reforma, aqui tive azar e fiz um estágio de secretaria - todos os sábados enfiada num anfiteatro a aprender .....nada e a produzir uns trabalhitos teóricos sem valor algum). Se foi bom em termos profissionais e de aprendizagem, foi melhor ainda em relações humanas. Ainda hoje nos encontramos, e sempre como se o último encontro tivesse sido ontem.

Recuperando, telefona-me a Margarida convidando-me para o jantar-surpresa dos 60 anos do Rogério, seu marido e companheiro de "luta". Há dois anos tinha sido o contrário, telefonara-me o Rogério para o jantar dos 60 anos da Margarida. Um improvável casal feliz, discutiam como loucos nas reuniões de grupo e ainda assim separavam bem as águas. Lá fui, feliz e contente.

Findo o jantar, tempo dos discursos. Abre o prof. Hermínio Barreto justificando-se que não lhe parecia bem gozar do jantar sem a paga em troca "dumas palavras", enrola-se nos óculos quando puxa do papel das notas, na sequência improvisa "é uma dificuldade, a dificuldade não atrapalha", parece-me bem, a dificuldade estimula. E fala. Um belo discurso rememorando o passado comum, etc. Escuto-o comovida, o prof. Hermínio é uma lenda na modalidade, foi um expoente na faculdade. Nunca fui sua aluna, não podemos ter sorte em tudo, mas fui algumas vezes assistir às suas aulas.

Espantava-me sobretudo a sua compassividade. Não beligerante, nunca se excitava, jamais se zangou (em público pelo menos) com quem quer que fosse. Paciência a toda a prova, explicava sempre tudo com enorme paciência.

Mais tarde, em Paço de Arcos, acompanhei uma equipa de basquetebol no torneio inter-escolas. Um dos jogadores era o neto do prof. Hermínio. Era tal qual. Em pleno jogo com outra escola, tropeçava e ainda antes do apito, entregava a bola à outra equipa acusando a violação da regra dos passos. Pisava a linha e entregava a bola, dava um toque no adversário e levantava o braço acusando a falta. "Oh Gui, espera que o árbitro apite..." Retorquía "Setora, mas eu fiz passos!" E eu calava-me. Pois se ele tinha razão, afinal não apregoamos nós esse mesmo comportamento?

São pessoas excepcionais, não há muitos como eles. Corre-lhes no sangue como soe dizer-se.

Hoje, na maratona de voleibol, palco de tantas escaramuças, questiúnculas, pequenos conflitos, só pensava "que bom, fazermos estas actividades. Damos afinal oportunidade a estes alunos de se confrontarem com a dificuldade, com a derrota, com a desilusão, com a putativa injustiça da vida e de, irem encontrando dentro deles, mais e melhores respostas.