Hoje, ao almoço, dizia-me um amigo, rindo-se, que os franceses estudam o sistema de ensino dinamarquês, os ingleses estudam os suecos, os suecos por sua vez investigam os coreanos que analisam os tailandeses e assim sucessivamente (os países não seriam estes o que pouco importa, voltamos à galinha do vizinho que é mais gorda que a nossa). Nós, neste momento temos os finlandeses em alta.
Esta busca é positiva, direi, denota uma insatisfação permanente, uma recusa na acomodação. Lembro-me do encantamento da Christy, uma canadiana que num ano de intercâmbio cultural viveu com uma família portuguesa e frequentou o 11º B em Paço de Arcos, com o nossa organização por turma "one big family, going together everywhere". O sistema canadiano é semelhante ao americano, os alunos inscrevem-se nas disciplinas que pensam serem importantes para a sua formação e o seu currículo e fazem um ensino secundário à sua medida. É a tal questão de não haver chumbos - um bom ponto a favor mas tem este inconveniente na dificuldade na socialização dos alunos mais tímidos pela falta de oportunidades em criarem laços. Terá outros pontos positivos e outros negativos, estes foram os apontados por ela. E bom, vê-se nos filmes.
Reconheci-me na piada, de facto, estou sempre a olhar por cima da vedação, namorando a gorducha alheia.
Acaso feliz, sempre ele, venho de volta para a escola, noto uma figura familiar atravessando uma rua. Fixo com intensidade "tem graça, tão parecido com o Vata", torço o pescoço para trás um pouco na dúvida. Dou nas vistas, olha-me, sorri para mim "Setora!". Era o Vata, aluno há 12 anos em Paço de Arcos. Um querido, outro! "estamos iguais, setora!", injusta "tu não, estás de óculos, quase não te reconhecia".
é o do meio, o de boné
Uma turma de 11º ano de mecânicos e electrotécnicos (junção de dois cursos tecnológicos), só rapazes como seria de esperar (no ano seguinte apareceu uma rapariga, tinha umas disciplinas penduradas) com uma postura invulgar. Enérgicos, alegres, aceitavam todos os desafios. Todos tinham bicicleta e fizemos algumas aulas fora da escola (as aulas eram então de 130 minutos). Combinávamos, eu entregava um papelito no conselho directivo, e ala que se faz tarde. Fomos até ao Estoril, fomos até ao Guincho e aí fazíamos beisebol ou o jogo do disco "à americana".
Por incrível que pareça, fizemos até duas aulas de dança contemporânea! um tratado, aquela turma. No ano seguinte fomos até S. Martinho do Porto fazer actividades náuticas, caminhar, cozinhar, jogar snooker nos cafés da marginal. Um acampamento e pêras, a parte mais trabalhosa foi, sem dúvida, as caminhadas. Aqueles rapazes não compreenderam o conceito "mas caminhar para quê?, qual é a graça, setora de andar aí pelo meio dos montes?". O Vata era o mais inconformado, de tal maneira que, depois do banho, na praia dos Salgados "o caminho é para cima?" e à resposta afirmativa, desatou a correr e só parou no cimo do monte. Não sei quantos quilómetros nem qual é o declive, mas é muito duro. Só mesmo o Vata com a sua resistência fora-de-série, foi o recordista destacado do Cooper, na década em que lá estive.
Formas. Foi um breve momento naquela escola, ou em qualquer outra, presumo, em que um ruidoso grupo de rapazes podia sair da escola, em alegre caravana de bicicletas para ter uma aula na praia, regressar para o Português duas horas depois sem que ninguém se incomodasse com perigos " e se?" ou por outra, sem que os riscos fossem paralisantes.
De algum modo, um clima que me sinto de novo a viver embora em moldes algo diferentes.
Uma galinha rechunchuda a minha/nossa, hoje, ao constatar o que se pode fazer em liberdade.