Uma das conferências que mais gostei neste longo ano (ele nem foi longo, pelo contrário, por um lado parece que começou ontem, por outro setembro parece ter acontecido há décadas atrás, tal a sucessão mal-digerida de acontecimentos, ensinamentos, tudo ainda que não termine em ntos) foi
com o conferencista Jorge Ramos do Ó.
Não tomei notas e tenho pena, o professor foi fascinante até pelos termos que empregou. O psiquismo, por exemplo, termo que me evoca o charlatanismo mas que ali nenhuma relação tinha. Ficou-me a questão da escola conservadora, da escola reprodutora da normalidade. A importância de se conhecer a escola que foi para que se perceba a que é e se imagine a que poderá vir a ser.
A vocação instrução - veicular conteúdos, transmitir o saber, a vocação educação relacionada com a moral e o ser. A escola repetidora e a dificuldade de acomodar o pensar diferente.
Já passou muito tempo, deveria talvez ter reflectido sobre isto logo após. Aliás, foi um sentimento unânime de fatia grande da assistência - isto hoje não chega, agora estamos curiosos, estamos alertas, queremos debater, não se vá embora. Mas a escola normativa não se compadeceu e tivemos mesmo de sair. Em obediência à inexorável marcha do tempo, perdoe-se o cliché que ademais aqui é forçado, tratava-se tão só do gongo seguinte para uma outra aula.
É que ontem, enquanto procurava a foto da equipa de volei que sabia existir, dei também com esta. Seria uma boa ilustração para o espírito desportivo e creio que a estava a guardar para esse fim. O Jonas fez parte da turma do 10 i, a minha dt à recepção ao Camões. Foi uma trabalheira durante todo o ano (para ambos) e, de facto, a coisa não acabou bem. Se bem repararem, os seus dedos esticados somam um número - 6.
Foram os valores que o Jonas teve em EF no final do ano lectivo. Mas o que é espantoso, e por isso também esta foto hoje, é que se ele guardou ressentimento, logo o sublimou. Teve de repetir o 10º ano e, por conseguinte, de se afastar daquela turma fabulosa. Nunca cortámos relações, bem pelo contrário, mantivemos uma estima cordial à prova de quaisquer apreciações formais, espartilhadas.
Era um aluno especial, com uma organização muito própria e uma cultura (unanimemente reconhecida por todos os professores) bem acima da média. Isso não obstou a que a instituição não esmorecesse na sua sanha regularizadora. Falo por mim e o meu seis. Deu-me cabo da cabeça todo o ano, alego. Não fez, resistiu, baldou-se, recusou-se e sei lá que mais. Encostou-me à parede, em suma.
Trabalho é trabalho, cognac é cognac, o Jonas soube separar. Um aluno especial, repito. Aqui, dois anos passados, no arraial de final de ano. Não bebemos copos nenhuns (nesse ano não houve bebidas algumas, excepto uma garrafita de champanhe que o André, previdente e porque a ocasião o exigia - o final do secundário, contrabandeou para dentro do bar e foi depois partilhada pelo bando), estávamos em plena posse do nosso controlo.
Uma turma fora de série, um conjunto raro de alunos, numa escola que resiste com galhardia ao pendor normativo.