segunda-feira, 21 de junho de 2010

currículo oculto

Comecei hoje mais uma acção de formação na área da dança. Conteúdos algo repetidos - danças tradicionais portuguesas e europeias - mas com o meu domínio periclitante, funcionará sobretudo como consolidação tanto dá até que fura.

Depois, a professora principal tem características que muito admiro e não me canso de observar: uma paixão genuína e incansável pelo que faz e pelas danças tradicionais em particular, um profissionalismo - por exemplo no cumprimento escrupuloso do horário (hoje, adiei a saída da escola até à última, embalei avenida abaixo, rua do ouro fora, precipitei-me estação adentro de bicicleta pela mão, apenas para constatar que me enganei na gare (nem olhei o quadro, o pára-em-todas costuma ser na linha 2 ou 3, estava na 4) e perdi o comboio, cheguei atrasada cinco minutos, já tinham começado - e na descontracção com que admite e emenda o erro. A acção começou como é habitual com uma sessão de apresentação, o inevitável power-point. Um erro de ortografia latejava no écran: previlegiar, céus, coitada, que chatice. Ninguém disse nada, é um erro pronto.

A prática começou logo de seguida com a outra professora. Ainda estávamos no aquecimento já a Margarida escrevia no quadro branco, em letras garrafais privilegiar em vez previlegiar, esta com um erro em frente. Fantástico, não é, de todo, comum, esta prontidão na correcção, esta humildade em professora doutora.

A sessão valeu a pena tal como irá valer o resto do curso. Que diferença para o que frequentámos (quase todos de EF ali da escola) em Outubro, nível introdutório de danças sociais (a ideia era mais uma vez consolidar, sabia à partida que os conteúdos eram repetidos), uma quase total perda de tempo. A aula começava tarde, os intervalos esticavam-se com impudor, os alunos - nós - suplicávamos para que a professora desse matéria, nos pusesse a dançar, nos ensinasse. Ela, que tanto sabia daquilo, é mesmo sabedora, por qualquer motivo que não descortinámos, escusou-se até ao fim. Um desespero.

Hoje, não foi nada disso, foi sempre a dar.

Depois, o regresso, numa digna noite de solstício, quente e sem vento, pelo paredão enluarado. Um privilégio.