terça-feira, 22 de junho de 2010

controlo

O que nós não podemos controlar é o que nos mete mais medo. Falo por mim. O terror que sempre sentia, quando noite dentro me dirigia às urgências pediátricas com uma criança ardendo em febre no banco de trás. O terror inominável que algo sucedesse, uma convulsão uma perda de consciência à qual eu não soubesse dar resposta. Estacionar, pegar-lhe ao colo, aguardar ao guichet, é a minha vez, depois a triagem, aguardar numa ansiedade galopante, brincar com ela como se nada fosse, o médico, raio-x, o médico de novo, despe, aguarda o efeito do ben-u-ron, banho, espera, tira a febre, ainda não, aguarda, brinca um pouco mais, tira de novo, já baixou, vamos lá então. Infecção pulmonar? Uff, que alívio, tem nome a doença, como se trata?

Há uns anos o meu irmão Filipe planeou e realizou uma semana de kayak na Antárctida. (tem aquela ideia peregrina que para cada local há um meio de transporte ideal, sendo a filosofia como parece ser óbvio, não percorrer o maior número e quilómetros possíveis num dia e sim, o integrar-se como se dele fizesse parte, no meio ambiente)
Na fase de preparação entrevistaram-no e à família. Fizeram uma pergunta rápida a cada um de nós; respondi e senti-me depois muito tola, que do que tinha mais medo era de um ataque de um bicho. Tinha em mente as focas-leopardo (o Filipe faz sempre uns estudos exaustivos e tinha as estatísticas na ponta da língua) que são o animal mais mortífero daquelas paragens, bem pior que as pobres orcas com tão má reputação e tão pouco proveito.

Por melhor planeada que estivesse, por mais planos B e C, se uma só foca-leopardo se interessasse por ele com um pouco mais de vigor, não teria uma hipótese. Virava-se e naquela água a rondar o ponto de congelação teria menos de meia dúzia de minutos para remoer. Ninguém poderia guardar rancor à foca, afinal tal como na anedota do escorpião, estaria apenas a cumprir com a sua natureza.

A ver, desligar o som, a banda sonora é execrável e/ou totalmente desajustada.


Controlo.
A ilusão de conseguirmos algum para que possamos fazer o bem induz-nos a opções na nossa vida. Falo por mim que sofro horrores com a falta dele. (a impotência de num engarrafamento estar dentro de uma lata e de não poder sair dela, abandonando-o logo ali, é o melhor dos argumentos para mim, da opção pelo transporte público. Desse, pode sair-se a (quase) qualquer momento)

Não passa de uma ilusão. A falta de apoio, a resistência passiva - e até activa - que senti nas três primeiras edições deste projecto iam desmoralizando, desgastando. Falta de fibra, é verdade, não afirmei já aqui que a dificuldade estimula? Adiante, a verdade é que assumi que ganhando um pouco mais de controlo, o percurso sairia facilitado. Se isso sucedeu numa faceta, as desvantagens na outra vertente não compensaram. Derivei por aqui e na verdade não era nada disso que tinha em mente.

Na verdade, o que me enerva sobremaneira é a total falta de controlo que temos nas nossas escolas. Esta absurdidade dos mega-mega-agrupamentos idealizados para poupar nos recursos humanos do "remador" (vide conhecida anedota dos remadores vs treinadores/opinadores) ao invés de dispensar os idealizadores, eles mesmos, que se entretêm na modorra dos gabinetes a inventar reforma sobre reforma, questionário atrás de questionário, idiotice sucedendo-se a idiotice é de tal maneira gritante que pasmo com a nossa complacência. Ficamo-nos todos, estoirados que estamos de lutas menores ( comparando com esta) incapazes de mais que uma ténue reacção.

Amanhã temos o arraial, é verdade.
Pois nem esse me apetece.