domingo, 30 de maio de 2010

sometimes we win

sometimes we loose.

Isto a propósito de New Works #2, apresentado ontem no Alkantara Festival.
Argumentei com "são a melhor escola de dança da Europa" para aliciar a minha filha a vir comigo já que ela é tão renitente quanto eu perante a inovação imposta. Isto é, esta digressão apresenta os trabalhos finais de curso dos alunos da P.a.r.t.s, a escola belga formada por uma famosa coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker.

Teve imensa graça que mais tarde, na tarefa complicada de comprar os bilhetes, estive 45 minutos à conversa com duas simpáticas voluntárias (a propósito, e para quem goste, é uma oportunidade única de participar neste movimento alternativo e em simultâneo ver, sem custos, o que for possível pós-ou-a-par-do-trabalho). Falávamos sobre o espectáculo e uma delas comentou "a melhor escola de dança da Europa". Pois.

Ontem perdemos.
A minha filha menos, tomou a sábia decisão de vir embora ao intervalo, passadas que estavam duas peças. Eu, heróica, fiquei "foram tão más, segundo a lei das probabilidades" (que nem sei qual é, mas fica sempre bem num argumento)"que a segunda parte só pode ser melhor".

Não foi. Lembrava-me de um comentário de uma aluna do ano passado ao espectáculo deste ano, dizendo que "têm pouca dança" e explicou que não se referia às transições mas às peças em si; tinham muito "enchimento" e pouca coreografia. Bom, se ontem, estar ali não tem sido tão doloroso ainda teria brincado com o pensamento "nós estamos é muito à frente"; de facto, se é discutível ter havido ou não dança (no geral, eu acho que não), parece mais consensual que o que se passou ali não foi bonito, não foi belo, não nos dispôs bem. Também não nos dispôs mal, isto é, não nos inquietou, alertou, nada.

"Eles são forçados a inovar" dizia-me a minha filha. Talvez tenha sido sempre assim, talvez eles estejam a desbravar caminho e no futuro, este tipo de espectáculos seja compreendido e bem recebido. Tenho dúvidas porque se a Sagração da Primavera deu origem a motins na hora da sua estreia, ontem a reacção foi mais para a frieza, para a passividade. Palmas é certo, as pessoas batem sempre mas a respiração, aquela sensação que perpassa numa sala quando a emoção é colectiva, não estava lá.

A segunda peça "I have to get ready to get ready" foi a que gostei mais, um pouco também pela sinopse "My generation is defined throught the constant demand to become a better individual, throught the pressure to produce better and stronger personality. A generation with such an overload of information, that it becomes passive. Who are these individuals, and more importantly, what kind of relationship are they entering?". Era dançada por dois rapazes e uma rapariga, sempre muito juntos no mesmo espaço no palco, numa contravenção clara dos princípios da composição, enfim dos clássicos princípios da composição. Percorriam-no todo mas sempre engalfinhados uns nos outros, lembrando por um lado, uma ninhada de cachorros, por outro e nem sei porquê - talvez pela angústia do seu estado permanente de alerta, de quem foge e de quem se esconde, de quem tem medo - o livro "A estrada" de Cormac Mccarthy.

Na tal conversa com as voluntárias, tínhamos trocado opiniões sobre os espectáculos que víramos na véspera. Elas tinham assistido a parte do New works #1, ou seja, ao primeiro lote de alunos. Disse uma, quase desculpando-se "eu não estou muito dentro da dança contemporânea, aquilo foi muito estranho, eu não percebi" e tal e tal. Eu falei-lhes nos rapazes de Niterói, dizendo mais ou menos o que disse aqui. Elas estavam com imensa pena de não terem oportunidade de os ver. Durante a sessão mudei de opinião - os rapazes foram magníficos!