domingo, 9 de maio de 2010

prólogo(s)

Ainda do Antígona (de António Pedro) e

[e um outro parentese - acho graça à forma como digo isto, eu que ouvi pela primeira vez esta sequência A Antígona de António Pedro há seis meses, na boca do prof. João Paulo Gaspar quando este me contava qual a sua ideia para a escolha da peça a encenar este ano. Disse-lhe que não conhecia essa ou a outra, o nome sim, claro; ele, generoso, nesse mesmo dia me enviou o pdf. Que cá ficou até à véspera quando, apressada, fui fazer o tpc. Em boa hora, percebi melhor a peça por ter lido, percebi melhor o texto por ter visto e esta pescadinha de rabo na boca pode continuar ao infinito]

a propósito de prólogos:

"
O 1º velho
Então que temos estado aqui a fazer neste palco?

O encenador
Tempo. Um prólogo nunca é outra coisa: o dispêndio de tempo necessário à preparação do espectador para aceitar uma sequência de acontecimentos dramáticos com a lógica especial, particular, do teatro, em cujo clima se faz entrar.(...)"

Esta pequena parte fez-me lembrar uma saudável discussão com a Débora, faz algum tempo. A Débora argumentava comigo que a peça de entrada do Dança, Camões! tinha sido uma seca, porque assim e porque assado. Eu respondia-lhe haver pessoas que tinham gostado, que tinham gabado a sua qualidade estética, a serenidade, a postura das intérpretes, a ordem no aparente caos, etc e tal mas que, se nada destes argumentos a convencesse, poderia ver a peça enquanto introdução. Visava preparar o espectador para algo que lá vinha, numa onda na outra ponta do espectro e que, caso esta peça não existisse, não atingiria a sua plenitude expressiva.

Não a convenci, a Débora não era convencível com facilidade. O primeiro andamento dessa peça era este:



As rotinas, a banalidade, a repetição imutável, aborrecida dos mesmos gestos, dia após dia. Mas é um erro tomar a vida como certa. De repente, vindo do nada, o corte, a cisão. Ah, a alegria inopinada, desvairada. O prazer de estar vivo, o prazer de estar aqui.
E depois o seu reverso – a interrogação – quem somos? Estamos de facto aqui? As sombras do que somos, do que sonhámos, do que seremos.
O caos. O princípio e o fim.


Este era o texto que deveria ter sido lido em blackout; nunca o foi, mesmo no último espectáculo. Foi a única falha deste cariz e foi pena, precipitação da régie, pusemos a música cedo demais não dando oportunidade à Anabela para ler o texto. Ajudaria bastante o espectador. A este andamento apenas se referem as duas primeiras frases pois "de repente, vindo do nada (...)" eram, como é óbvio, os três rapazes.

E depois o seu reverso (...) dizia respeito ao terceiro andamento, as sombras atrás do ciclorama. O caos era evidentemente o quarto e último andamento, caótico, confuso, movimentado, perigoso. Tinha uma ordem, ou melhor uns "princípios de conduta" que funcionaram uns dias melhor, outros pior.

Enfim, foi um gozo muito grande a criação desta peça, nas suas quatro partes. Foi um trabalho colectivo de grande grupo, toda a turma de facto, sempre mais difícil. Esta, a primeira, bem reconhecível, foi um aperfeiçoamento daquele exercício que continuamos fazendo.