domingo, 30 de maio de 2010

a educação do

sentido crítico.

Até há quatro anos não a senti como uma prioridade na minha acção junto dos alunos. Na educação física o problema mais premente em situações de jogo - parte importante como todos sabemos, da aula - é a leitura do jogo. Há uma pergunta recorrente nas aulas e nos testes escritos: num jogo de basquetebol, o que deve o jogador fazer à recepção da bola? A resposta é: 1. virar para o cesto, protegendo a bola; 2. ler o jogo; 3. lançar, passar ou driblar de acordo com a sua leitura da situação.

Há variantes na formulação: a modalidade pode ser outra, a resposta pode ser mais completa mas o essencial é isto, e é com isto que os massacro. Faço muitas vezes a analogia com a vida real, e agora lembro-me de uma turma que tive já nesta escola, constituída só por meninas e com um naipe alargado "com ausência de vocação" para os desportos colectivos. Tentava motivá-las com o argumento ao jeito da sinopse de ontem "a generation with such an overload of information", isto é, a vida real tem tendência a ser mais confusa e agressiva que um jogo de basquetebol. Somos bombardeados com mais informação que aquela que conseguimos processar e, não obstante, somos forçados a dar resposta.
(um parêntese, este ano, para mim, tem sido uma bela ilustração desta situação)

E por isso, dentro do caos, temos de estar treinados para nos virarmos para o objectivo (no basquetebol é o cesto) e sem perdermos controlo da situação (protegemos a bola), fazemos uma leitura tão rápida quanto possível e tomamos uma decisão.

Aquela turma de meninas conseguiu aplicar este princípio e, mesmo sem grande técnica, habilidade ou capacidade física, produziu belos, movimentados e alegres jogos de basquetebol.

Na área de projecto de dança, a leitura do jogo, requisito essencial para um jogo de qualidade, foi substituída pelo sentido crítico. Sem este relativamente apurado, não é possível produzir uma peça de dança com o mínimo de qualidade. É aliás um assunto frequente nas conversas entre alguns professores de Ap ali na escola: o sentido crítico a par dos referenciais que são necessária e legitimamente diferentes nos diversos alunos.

Logo na primeira edição, uma aluna a Ana Santinho sintetizou muito bem o que se pretendeu - Creio que esta disciplina nos educou não só o gosto pela dança mas também o tornou exigente e crítico (...) Ao longo destes meses de trabalho os alunos foram-se educando no sentido de serem mais exigentes consigo mesmos e com os colegas, trabalhando tanto a autonomia como o trabalho de equipa, a pesquisa de informações (...).



Esta peça, por exemplo, não teria sido possível sem este percurso.