
Antígona e Creonte na sessão da tarde. A cadeira do poder, iluminada, vazia no centro.
Há imagens que nos ficam (para sempre, pois claro, pelo menos até ao sempre que antecede a irrecuperável degenerescência cerebral); a de hoje, e a propósito de ter assistido às duas sessões de Antígona - e mais houvesse - a de sentir ainda o peso da minha filha mais pequenina no colo, no dia do seu primeiro teatro. Era a terceira, eu estava atenta, a probabilidade de assistirmos a um momento mágico era boa. Assim foi.
A bela adormecida foi a primeira peça da miúda. Como mais pequena tinha o privilégio do colo, até porque, o declive do Maria Matos não é estrondoso e de outro modo ser-lhe-ia impossível ver o palco. Esteve todo o tempo e a peça ainda era grande, chegada para a frente, num encantamento sério, mudo, concentrado, nunca tirando os olhos do palco. A peça terminou, todos bateram palmas, muitas palmas e ela não afrouxou, não se chegou para trás, não se levantou. Explicou-nos (tinha 3 anos, falava muito bem) que esperava a repetição, queria ver outra vez.
Foi uma risota comovida, percebemos que ela pensava que seria como os filmes das cassetes. Esperaríamos apenas pelo rebobinar e aí está! nova apresentação.
E já que estou numa maré nostálgica, a lembrança da primeira vez da mais velha. Tinha dois anos ou quase; fomos ao TIL ali no Calvário, uma fusão entre garagem e armazém. A peça foi das melhores possíveis, O soldadinho de chumbo numa produção fantástica em que o peixe, o barco e sei lá que mais, deslizavam por cima das nossas cabeças puxados por cabos de aço, roldanas num aparato fabuloso. Creio aliás nunca mais ter assistido a alguma produção tão engenhosa, imaginativa e com tão escassos recursos. A segunda filha por exemplo já teve a sua estreia numa peça ainda do TIL mas em casa de ricos, o dito Maria Matos e não teve metade da piada. Agora no Calvário, a peça corria em redor de nós, tinha palco mas muito acontecia fora dele. Bom, e a história é deliciosa. A Sofia maravilhada olhava tudo sem o mínimo medo, espanto puro perante aquele fantástico mundo.
E é um fantástico mundo. Hoje com o aliciante das várias equipas a desafiarem-nos (implicitamente) para vermos as diferentes récitas. Será que a outra Antígona é melhor que esta? E o encenador? E a irmã? Na verdade, nem é uma questão de ser melhor, sim de ser diferente, de nos dar algo de novo por ser outra visão. E isso aconteceu. Por exemplo, alguns actores têm uma boa dicção e percebemos melhor o texto (um bom exemplo, o encenador Miguel), outros têm uma melhor expressão corporal e arrastam-nos com eles para o seu mundo.
De modo que lá estive, e - repito - mais houvesse. Que belo trabalho! De todos.
Adenda - e outra coisa. foi tão engraçado subir as escadas do auditório, encaminhando-nos para a saída e ouvir as discussões dos alunos. E isto e aquilo, e o soldado e e e ... e eu meter-me na conversa e todos discutirmos em conjunto. Maravilha.