criminosa.
Ontem, a convite de uns amigos, estive no Douro, participando na
meia maratona do douro vinhateiro. Apregoava o site que era "a mais bela corrida do mundo" e esta seria a melhor edição de sempre. O histórico não é muito extenso, a concorrência não era feroz, para trás apenas 4 provas. Nada de muito difícil portanto.
Começaram logo mal - partida para as 11 horas, no final do mês do Maio na região de Portugal que tinha a fama de "nove meses de inverno, 3 de inferno"; agora, com o aquecimento irá pelos seis/seis. Nesta época, com o sol a nascer pouco depois das seis da manhã, quem se lembra de dar a partida para uma corrida, num vale, quase cinco horas depois?
O trajecto, lindo, lindo, e simpático também sem subidas nem descidas de monta, com dificuldade se poderia candidatar a uma "mais bela" já que tem ida e volta. Quanto a mim, uma mais bela seja do que for, não deve repetir caminho.
Mas este seria um mero detalhe. A grande questão aqui foi um mau planeamento dos abastecimentos, ao que se juntou o conformismo. Não se preocuparam sequer em emendar a mão enquanto podiam, não tentaram dar resposta.
Sob o sol inclemente da partida, vi logo o caso mal parado (dou-me muito mal com o calor); parti devagarinho, muito mais que é habitual, numa gestão do esforço que me levasse à chegada. Foi avisado, bendita experiência, pois só tive direito a água no primeiro abastecimento. Em todos os outros, que não eram muitos já não havia água pois fiquei logo no pelotão de trás. Aos 5 km ainda havia umas bebidas alaranjadas e azuis, preferi apanhar uma garrafa do chão e depois......mais nada nem sequer na meta. A organização esgotou as existências. E o que mais enervou, foi que foram tendo informação disso e não conseguiram providenciar umas paletes que fosse. Em vinte minutos teriam conseguido enviar um carro a um supermercado, enchiam-no das ditas e iam pagar depois. Fomos vendo as pessoas a caírem, "burros!", dirão "porque não paravam simplesmente?". Porque ninguém vai para uma prova destas para desistir. O objectivo primeiro (e último) é sempre cruzar a meta. Para a grande maioria, o tempo é secundário.
Valeu-nos a prontidão, a simpatia, a solidariedade popular. Um senhor aos 6 km, com a sua mangueira a fazer de aspersor esteve ali dando-nos banho, quais elefantes encalorados. Os bombeiros da Folgosa tinham também um auto-tanque a fazer o mesmo serviço (já estava previsto) e depois, foi a safa de muitos de nós, aos 17 km, um senhor com outra mangueira, esta ligada a uma mina fresquíssima, ao lado da estrada a fazer de fonte. Parávamos, ordenados em bicha, íamos andando de boca aberta e ele enchia-nos o depósito. Caricato, maravilhoso.
Dois quilómetros depois já desidratados de novo (34°, sem vento, humidade relativa perto dos 30%, parece) um grupo de gente expedita, tinha agarrado em tudo o que era garrafas do chão (teria existido ali em tempos um posto de abastecimento), enchia-as em jarros que traziam de suas casas e estendiam-nas. Uma imagem fabulosa, uma senhora velhota, abraçando nos braços um molho grande de garrafas que apanhara do chão, trotando em direcção aos jarros! Impressionante, a capacidade de reacção que tiveram aquelas pessoas ali. Não se limitaram a comentar em desgosto, passaram à acção. Boa gente.
E se não tivessem sido elas, estou convicta que as baixas teriam sido superiores.
Quando chegava à Régua, falava nos altifalantes o director da corrida. Pedia desculpa e assumia ali a responsabilidade da falha. Tudo muito bonito mas se alguém se tem passado mesmo, e podia ser sucedido, não havia remorsos que lhe valessem. A temperatura estava alta fazia uma semana, o número de inscritos estava nos 10 mil (na véspera, quando fomos levantar o dorsal ainda se aceitavam inscrições), a hora e o local não eram negociáveis. Não sei que contas fez ele (às garrafas de água), há-de haver tabelas; mais que tudo, aflige-me, ter tido várias horas para resolver a situação e não o ter feito.
Não teve projecto, não teve área de projecto, não teve nunca que planear uma actividade do princípio ao fim, pensar em todos os azares possíveis, preparar um plano B ou c, não levou nunca na cabeça. Aqui nem era uma questão de azar, não se tratou de um ciclone ou de uma catástrofe natural, tudo era previsível.
Acham-me uma chata, a maior parte das vezes. Em vista destes acontecimentos, fico sempre a pensar que não o sou em suficiente.
Adenda

A prova de domingo tinha um aliciante muito forte: é que o percurso era, em parte, o mesmo que percorremos o ano passado. Iniciáramos no Pinhão no dia anterior, aqui passávamos em frente à Régua, à meta, na manhã do segundo dia da nossa expedição. Tem sempre outra graça passar no mesmo sítio vendo a paisagem de uma diferente perspectiva. Viajando lento.