domingo, 30 de maio de 2010

indícios

Os professores primários, no meio da sua labuta diária, devem ter - tal como nós, afinal - momentos muito divertidos. O olhar de uma criança sempre fresco, vê a situação de um outro ângulo.

Um dia, enquanto fazia horas esperando pelas mais velhas, entretinha a mais pequena com os desenhos e as histórias dos cadernos da Vera. Demos com esta, a minha primeira reacção foi rir até às lágrimas - o chapéu como personagem principal, o lobo secundaríssimo, além de ser difícil destrinçar o que está escrito, tantos são os erros - depois, fiquei com a garganta e o coração apertados "céus, esta mãe sou eu, sempre a ralhar por terem perdido isto e aquilo".



Este é um exercício de legendagem; as crianças tinham de colorir e escrever a história a partir do desenho. A Vera tinha então sete anos, agora escreve muito melhor!

Percebi também que ficávamos nus perante as professoras. Os desenhos infantis e as pequenas redacções que escrevem nestes primeiros anos são o reflexo da sua vida diária, interpretam o mundo à sua imagem. Este pobre coelhinho, raladíssimo por ter perdido o chapéu revela uma mãe dura, intransigente.


E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer flores?
Isso é Impulse!
E se, de repente, passados dois anos, um conhecido a "linkar"?
Isso pode, talvez, por hipótese, eventualmente, quem sabe?, indiciar agenda escondida.

a educação do

sentido crítico.

Até há quatro anos não a senti como uma prioridade na minha acção junto dos alunos. Na educação física o problema mais premente em situações de jogo - parte importante como todos sabemos, da aula - é a leitura do jogo. Há uma pergunta recorrente nas aulas e nos testes escritos: num jogo de basquetebol, o que deve o jogador fazer à recepção da bola? A resposta é: 1. virar para o cesto, protegendo a bola; 2. ler o jogo; 3. lançar, passar ou driblar de acordo com a sua leitura da situação.

Há variantes na formulação: a modalidade pode ser outra, a resposta pode ser mais completa mas o essencial é isto, e é com isto que os massacro. Faço muitas vezes a analogia com a vida real, e agora lembro-me de uma turma que tive já nesta escola, constituída só por meninas e com um naipe alargado "com ausência de vocação" para os desportos colectivos. Tentava motivá-las com o argumento ao jeito da sinopse de ontem "a generation with such an overload of information", isto é, a vida real tem tendência a ser mais confusa e agressiva que um jogo de basquetebol. Somos bombardeados com mais informação que aquela que conseguimos processar e, não obstante, somos forçados a dar resposta.
(um parêntese, este ano, para mim, tem sido uma bela ilustração desta situação)

E por isso, dentro do caos, temos de estar treinados para nos virarmos para o objectivo (no basquetebol é o cesto) e sem perdermos controlo da situação (protegemos a bola), fazemos uma leitura tão rápida quanto possível e tomamos uma decisão.

Aquela turma de meninas conseguiu aplicar este princípio e, mesmo sem grande técnica, habilidade ou capacidade física, produziu belos, movimentados e alegres jogos de basquetebol.

Na área de projecto de dança, a leitura do jogo, requisito essencial para um jogo de qualidade, foi substituída pelo sentido crítico. Sem este relativamente apurado, não é possível produzir uma peça de dança com o mínimo de qualidade. É aliás um assunto frequente nas conversas entre alguns professores de Ap ali na escola: o sentido crítico a par dos referenciais que são necessária e legitimamente diferentes nos diversos alunos.

Logo na primeira edição, uma aluna a Ana Santinho sintetizou muito bem o que se pretendeu - Creio que esta disciplina nos educou não só o gosto pela dança mas também o tornou exigente e crítico (...) Ao longo destes meses de trabalho os alunos foram-se educando no sentido de serem mais exigentes consigo mesmos e com os colegas, trabalhando tanto a autonomia como o trabalho de equipa, a pesquisa de informações (...).



Esta peça, por exemplo, não teria sido possível sem este percurso.

sometimes we win

sometimes we loose.

Isto a propósito de New Works #2, apresentado ontem no Alkantara Festival.
Argumentei com "são a melhor escola de dança da Europa" para aliciar a minha filha a vir comigo já que ela é tão renitente quanto eu perante a inovação imposta. Isto é, esta digressão apresenta os trabalhos finais de curso dos alunos da P.a.r.t.s, a escola belga formada por uma famosa coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker.

Teve imensa graça que mais tarde, na tarefa complicada de comprar os bilhetes, estive 45 minutos à conversa com duas simpáticas voluntárias (a propósito, e para quem goste, é uma oportunidade única de participar neste movimento alternativo e em simultâneo ver, sem custos, o que for possível pós-ou-a-par-do-trabalho). Falávamos sobre o espectáculo e uma delas comentou "a melhor escola de dança da Europa". Pois.

Ontem perdemos.
A minha filha menos, tomou a sábia decisão de vir embora ao intervalo, passadas que estavam duas peças. Eu, heróica, fiquei "foram tão más, segundo a lei das probabilidades" (que nem sei qual é, mas fica sempre bem num argumento)"que a segunda parte só pode ser melhor".

Não foi. Lembrava-me de um comentário de uma aluna do ano passado ao espectáculo deste ano, dizendo que "têm pouca dança" e explicou que não se referia às transições mas às peças em si; tinham muito "enchimento" e pouca coreografia. Bom, se ontem, estar ali não tem sido tão doloroso ainda teria brincado com o pensamento "nós estamos é muito à frente"; de facto, se é discutível ter havido ou não dança (no geral, eu acho que não), parece mais consensual que o que se passou ali não foi bonito, não foi belo, não nos dispôs bem. Também não nos dispôs mal, isto é, não nos inquietou, alertou, nada.

"Eles são forçados a inovar" dizia-me a minha filha. Talvez tenha sido sempre assim, talvez eles estejam a desbravar caminho e no futuro, este tipo de espectáculos seja compreendido e bem recebido. Tenho dúvidas porque se a Sagração da Primavera deu origem a motins na hora da sua estreia, ontem a reacção foi mais para a frieza, para a passividade. Palmas é certo, as pessoas batem sempre mas a respiração, aquela sensação que perpassa numa sala quando a emoção é colectiva, não estava lá.

A segunda peça "I have to get ready to get ready" foi a que gostei mais, um pouco também pela sinopse "My generation is defined throught the constant demand to become a better individual, throught the pressure to produce better and stronger personality. A generation with such an overload of information, that it becomes passive. Who are these individuals, and more importantly, what kind of relationship are they entering?". Era dançada por dois rapazes e uma rapariga, sempre muito juntos no mesmo espaço no palco, numa contravenção clara dos princípios da composição, enfim dos clássicos princípios da composição. Percorriam-no todo mas sempre engalfinhados uns nos outros, lembrando por um lado, uma ninhada de cachorros, por outro e nem sei porquê - talvez pela angústia do seu estado permanente de alerta, de quem foge e de quem se esconde, de quem tem medo - o livro "A estrada" de Cormac Mccarthy.

Na tal conversa com as voluntárias, tínhamos trocado opiniões sobre os espectáculos que víramos na véspera. Elas tinham assistido a parte do New works #1, ou seja, ao primeiro lote de alunos. Disse uma, quase desculpando-se "eu não estou muito dentro da dança contemporânea, aquilo foi muito estranho, eu não percebi" e tal e tal. Eu falei-lhes nos rapazes de Niterói, dizendo mais ou menos o que disse aqui. Elas estavam com imensa pena de não terem oportunidade de os ver. Durante a sessão mudei de opinião - os rapazes foram magníficos!

sábado, 29 de maio de 2010

os rapazes de rua

de Niterói.

Na realidade, onde escrevo rapazes, deve ler-se Grupo mas são só rapazes e gosto do nome assim.

Fui ontem vê-los ao S. Luís, espectáculo integrante do Alkantara Festival. Esperava energia, dinamismo e até alguma alucinação; ia também um pouco em busca de inspiração. Com efeito, este ano cheguei a desafiar um grupo de professores para fazermos uma peça. Depois, não tive energia (sempre ela) nem persistência para levar o projecto por diante, eles até foram receptivos.

Em relação às expectativas não saí defraudada. Teve isso tudo. Mas teve também alguns longos momentos repetitivos em que a acção parecia não avançar. O início prolongou-se talvez por tempo excessivo, não havia música o que não ajudava (o som em fundo, desvanecido, era de cidade ou de ensaio como alguém disse). Depois teve picos óptimos, muito muito bons. As corridas alucinantes para trás, os trajectos tangenciais, os breves momentos de sincronia (poderiam tê-los explorado mais), as vezes em que rebolavam em velocidade estonteante constituíram sem dúvida os pontos altos. A música foi também aparecendo e cada vez mais cativante. Pena, não ter havido mais interacção física, os poucos contactos foram tão interessantes.

Lembrei-me do Afonso, do Fábio, do André, do Ricardo que penso, adorariam fazer algo como isto.

No geral, um bom espectáculo e um grupo a tomar nota.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

dar a mão


a alguém na sombra. Ou, talvez melhor, pedir a mão, agarrar uma mão.
Discurso elíptico? Nem por isso. Bem prega Frei Tomás, tenho dificuldade em pedir ajuda e acabo, com frequência, metida em alhadas, trabalhos que se arrastam e não lhes vejo o fim.
Gosto da foto.

terça-feira, 25 de maio de 2010

a nossa ap é

mesmo fantástica. E melhor será não dar mais elogios, :P

Uma imagem da ida ontem ao Rainha D. Leonor numa colaboração graciosa com uma amiga da Nathalia. Ela fez um trabalho sobre o Brasil e, pelo que percebi, ontem havia uma apresentação pública. Esta passava-se no espaço que vemos, atrás das costas daquele banco. Não se pode dizer que tenhamos assistido ao paradigma da organização, a culpa talvez tenha sido nossa (minha, que estava fora do meu posto de trabalho quando me foram buscar) por termos chegado um pouco atrasadas. Bom, eu tinha percebido que a apresentação seria no último bloco de aulas e não no intervalo.

Mas e os factos? A assistência era um pouco mais numerosa do que o que se vê na foto mas, nem de perto nem de longe, suficiente para dar retorno e fazer subir a adrenalina. A música saía de umas colunas miseráveis de computador (pena as organizadoras não terem pedido colaboração ao grupo do lado com um DJ - e respectivo equipamento - profissional e que passou a hora e meio anterior a ensurdecer-nos com o débito da sua "house") e mal se ouvia.

Porém, as meninas não se intimidaram e deram o seu melhor. Fantásticas, quem está pronto para uma actuação naquelas condições está pronto para tudo!

ps. a Grova parece estar descalça mas não, encarnando o espírito do Brasil foi mesmo de chinelos. Ia caindo mas não caiu o que deu novo pretexto à Rita para se desmanchar a rir; foi bom, descomprimiu ainda mais.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

incompetência

criminosa.

Ontem, a convite de uns amigos, estive no Douro, participando na meia maratona do douro vinhateiro. Apregoava o site que era "a mais bela corrida do mundo" e esta seria a melhor edição de sempre. O histórico não é muito extenso, a concorrência não era feroz, para trás apenas 4 provas. Nada de muito difícil portanto.

Começaram logo mal - partida para as 11 horas, no final do mês do Maio na região de Portugal que tinha a fama de "nove meses de inverno, 3 de inferno"; agora, com o aquecimento irá pelos seis/seis. Nesta época, com o sol a nascer pouco depois das seis da manhã, quem se lembra de dar a partida para uma corrida, num vale, quase cinco horas depois?

O trajecto, lindo, lindo, e simpático também sem subidas nem descidas de monta, com dificuldade se poderia candidatar a uma "mais bela" já que tem ida e volta. Quanto a mim, uma mais bela seja do que for, não deve repetir caminho.

Mas este seria um mero detalhe. A grande questão aqui foi um mau planeamento dos abastecimentos, ao que se juntou o conformismo. Não se preocuparam sequer em emendar a mão enquanto podiam, não tentaram dar resposta.

Sob o sol inclemente da partida, vi logo o caso mal parado (dou-me muito mal com o calor); parti devagarinho, muito mais que é habitual, numa gestão do esforço que me levasse à chegada. Foi avisado, bendita experiência, pois só tive direito a água no primeiro abastecimento. Em todos os outros, que não eram muitos já não havia água pois fiquei logo no pelotão de trás. Aos 5 km ainda havia umas bebidas alaranjadas e azuis, preferi apanhar uma garrafa do chão e depois......mais nada nem sequer na meta. A organização esgotou as existências. E o que mais enervou, foi que foram tendo informação disso e não conseguiram providenciar umas paletes que fosse. Em vinte minutos teriam conseguido enviar um carro a um supermercado, enchiam-no das ditas e iam pagar depois. Fomos vendo as pessoas a caírem, "burros!", dirão "porque não paravam simplesmente?". Porque ninguém vai para uma prova destas para desistir. O objectivo primeiro (e último) é sempre cruzar a meta. Para a grande maioria, o tempo é secundário.

Valeu-nos a prontidão, a simpatia, a solidariedade popular. Um senhor aos 6 km, com a sua mangueira a fazer de aspersor esteve ali dando-nos banho, quais elefantes encalorados. Os bombeiros da Folgosa tinham também um auto-tanque a fazer o mesmo serviço (já estava previsto) e depois, foi a safa de muitos de nós, aos 17 km, um senhor com outra mangueira, esta ligada a uma mina fresquíssima, ao lado da estrada a fazer de fonte. Parávamos, ordenados em bicha, íamos andando de boca aberta e ele enchia-nos o depósito. Caricato, maravilhoso.

Dois quilómetros depois já desidratados de novo (34°, sem vento, humidade relativa perto dos 30%, parece) um grupo de gente expedita, tinha agarrado em tudo o que era garrafas do chão (teria existido ali em tempos um posto de abastecimento), enchia-as em jarros que traziam de suas casas e estendiam-nas. Uma imagem fabulosa, uma senhora velhota, abraçando nos braços um molho grande de garrafas que apanhara do chão, trotando em direcção aos jarros! Impressionante, a capacidade de reacção que tiveram aquelas pessoas ali. Não se limitaram a comentar em desgosto, passaram à acção. Boa gente.

E se não tivessem sido elas, estou convicta que as baixas teriam sido superiores.

Quando chegava à Régua, falava nos altifalantes o director da corrida. Pedia desculpa e assumia ali a responsabilidade da falha. Tudo muito bonito mas se alguém se tem passado mesmo, e podia ser sucedido, não havia remorsos que lhe valessem. A temperatura estava alta fazia uma semana, o número de inscritos estava nos 10 mil (na véspera, quando fomos levantar o dorsal ainda se aceitavam inscrições), a hora e o local não eram negociáveis. Não sei que contas fez ele (às garrafas de água), há-de haver tabelas; mais que tudo, aflige-me, ter tido várias horas para resolver a situação e não o ter feito.

Não teve projecto, não teve área de projecto, não teve nunca que planear uma actividade do princípio ao fim, pensar em todos os azares possíveis, preparar um plano B ou c, não levou nunca na cabeça. Aqui nem era uma questão de azar, não se tratou de um ciclone ou de uma catástrofe natural, tudo era previsível.

Acham-me uma chata, a maior parte das vezes. Em vista destes acontecimentos, fico sempre a pensar que não o sou em suficiente.

Adenda

A prova de domingo tinha um aliciante muito forte: é que o percurso era, em parte, o mesmo que percorremos o ano passado. Iniciáramos no Pinhão no dia anterior, aqui passávamos em frente à Régua, à meta, na manhã do segundo dia da nossa expedição. Tem sempre outra graça passar no mesmo sítio vendo a paisagem de uma diferente perspectiva. Viajando lento.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

nathalia


emergindo das brumas.

Assim queria eu estar, também.

Uma bonita foto. E não só.

terça-feira, 18 de maio de 2010

flops

Estou sempre a bater na mesma tecla, parece que o piano só tem uma. Há-de passar, espero que passe.

Refiro-me ao elogio do falhanço. Li no outro dia, e já não sei onde, é pena, poderia citar agora aqui, que nos Estados Unidos os negócios que falharam abrem os currículos vitae dos que procuram emprego. Na Europa, sucede o contrário - vêm os sucessos à cabeça e os falhanços, a virem (raramente vêm) lá no final. O redactor justificava esta diferença referindo que a alta consideração que os americanos nutrem pelas empresas que falham, que vão à falência, é suportada também pela banca (a outra parte é o espírito aventureiro dos americanos que arriscam, arriscam sempre) . Voltando à banca: esta, através dos seus fundos está preparada para enfrentar os embates, logo os empreendedores azarados ou aselhas não ficam acorrentados até ao fim da vida às suas dívidas. Aliás, é até frequente haver pessoas orgulhosas dos seus vários "flops".

O artigo dizia ainda que esta situação, com a crise do ano passado, tem tendência a mudar. A "almofada" já não é tão generosa, sendo expectável que o falhanço venha a perder popularidade.

Isto hoje a propósito do flop do cartaz que se pretendeu intrigante e que visava uma pré-divulgação da nossa oficina de dança. A ideia foi boa, a execução já não pois não alcançou os resultados. Podemos aprender com este falhanço. Por exemplo, há algo que as empresas fazem antes de lançar um novo produto que é uma teste a grupos-alvo. Dão a experimentar, por vezes, fazem reuniões onde põem as pessoas a debater quais os factores que as levam a optar por esta ou aquela marca, assistem a um filme e vêm as reacções. Nós limitámo-nos a imaginar aquilo que as pessoas iriam pensar e não testámos, nem sequer connosco próprios. Tão importante como uma boa ideia é depois a sua execução.

Faremos melhor da próxima vez.


Uma imagem que irá, em princípio, ser a base do cartaz de divulgação das nossas oficinas deste ano. Que aliás, têm andado em bolandas de uma data para outra e ainda não se fixaram.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

os jovens e

a política

Este pretenso (e promissor) debate começou por uma sugestão de um aluno e foi depois organizado pelo director da escola.
O primeiro obstáculo foi o do costume - o relaxismo costumeiro (ali na escola) na hora de início (não tenho memória de algo, no auditório, ter começado antes de 15 minutos decorridos sobre a hora aprazada) e a propósito, eu faria uma tentativa de educar o público. Avisando, relembrando, insistindo, avisando novamente .......e fechando as portas 5 minutos depois da hora marcada para o início.
Depois - e eu não me apercebi disso mas concordo com a observação - a existência de um folheto que divulgava os resultados de um inquérito aplicado a alguns alunos da nossa escola e que pretendia"recolher informações relativamente ao interesse dos jovens pela política, à participação na mesma e, simultaneamente, avaliar os seus conhecimentos políticos.", fez divergir o foco do debate. Isto é, os deputados e representantes dos partidos políticos que tinham sido convidados, sobretudo, com o intuito de informarem os alunos acerca das políticas dos respectivos partidos para a juventude (bom, temos de reconhecer que o próprio título do evento convidava ao equívoco), agarraram-se aos resultados apresentados no folheto e ignoraram, olímpicos, as tímidas perguntas dos moderadores.

Em seguida - terceiro obstáculo - embalados, meteram a "cassete". A representante do Bloco de Esquerda foi a primeira a falar; repetiu várias vezes que a iniciativa (do debate) era extremamente importante, extremamente importante, extremamente importante, riscou o disco, bloqueou o que quer que seja. Uma seca, adormeceu-nos a todos com os seus chavões. Depois teve a palavra o representante do CDS um pouco mais vivo e preparado mas sem sair da "chapa 4". E cada vez mais adormecidos, fomos tentando sobreviver até à fase do debate. Sejamos justos, e concordando ou não com o seu discurso - eu não concordo! - o moço do PSD foi mais directo, tentando fugir ao modelo imposto. A fechar, a pérola do PS, nem de propósito pareceu escolhida a dedo para vender o programa do governo.

Por fim, chegada a vez do debate, ou melhor, do público colocar as suas questões. As primeiras, baralhadas, pouco objectivas, não se percebiam sequer muito bem. E depois, aquilo que começa a ser mania, de começarem por congratular os prelectores "agradecendo a sua exposição tão esclarecedora" ou serei eu talvez que nunca fico assim tão esclarecida e que encontro tantas vezes falhas, ia dizer inúmeras, não exageremos.

Outra irritação, o hábito das palmas. Parecemos macaquinhos amestrados, reflexo de Pavlov, seja lá o que for, cada vez que alguém se cala, lá vêm as palmas correctas. Impressiona-me o aplauso sem sentido, neste caso sem sentimento. O olhar divaga, a atenção não está ali, no entanto, logo que o palestrante se cala, um estremecimento de quem desce à sala seguido de uma saraivada de palmas. Não há qualquer sentido crítico.

Que foi aliás, uma das questões que ainda se tentaram debater - a escola forma o sentido crítico?, a escola ensina a pensar?, a escola está adaptada e a adaptar-se aos tempos de hoje?

Há sempre a excepção, há sempre algo que faz valer a pena ter lá estado. No caso, o conjunto de questões colocadas por dois alunos no final (já a sala estava por um quinto mas que importância tem isso? Nenhuma, o problema ali foi estarmos todos exaustos e famintos, quando por fim, o interesse apareceu) e a afirmação / provocação de um deles, em resposta a uma intervenção da representante do PS:

"Se nos contentarmos com o "é melhor agora que no fascismo", então pronto, está bem", isto é, com o mal dos outros podemos nós bem, estava talvez na altura de 36 anos depois, deixarmos de usar esse argumento e olharmos em frente, para os lados, para qualquer ângulo excepto para trás.

Fez-me lembrar a minha amiga Mª João, a mais internacional das minhas amigas - a que sendo portuguesa tem vivido mais tempo lá fora - e que já não pode ouvir esse argumento do "tempo do fascismo".

De modo que de em obstáculo em obstáculo chegámos ao fim com um sentimento de frustração. Uma boa ideia que morreu na praia. Tentar de novo, sem dúvida, noutro modelo e com outra preparação e envolvimento.

terça-feira, 11 de maio de 2010

faça você mesmo

poderão não ser alternativas viáveis em larga escala mas que são inspiradoras, isso são.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ainda o teatro,

a magia do teatro.

Antígona e Creonte na sessão da tarde. A cadeira do poder, iluminada, vazia no centro.

Há imagens que nos ficam (para sempre, pois claro, pelo menos até ao sempre que antecede a irrecuperável degenerescência cerebral); a de hoje, e a propósito de ter assistido às duas sessões de Antígona - e mais houvesse - a de sentir ainda o peso da minha filha mais pequenina no colo, no dia do seu primeiro teatro. Era a terceira, eu estava atenta, a probabilidade de assistirmos a um momento mágico era boa. Assim foi.

A bela adormecida foi a primeira peça da miúda. Como mais pequena tinha o privilégio do colo, até porque, o declive do Maria Matos não é estrondoso e de outro modo ser-lhe-ia impossível ver o palco. Esteve todo o tempo e a peça ainda era grande, chegada para a frente, num encantamento sério, mudo, concentrado, nunca tirando os olhos do palco. A peça terminou, todos bateram palmas, muitas palmas e ela não afrouxou, não se chegou para trás, não se levantou. Explicou-nos (tinha 3 anos, falava muito bem) que esperava a repetição, queria ver outra vez.

Foi uma risota comovida, percebemos que ela pensava que seria como os filmes das cassetes. Esperaríamos apenas pelo rebobinar e aí está! nova apresentação.

E já que estou numa maré nostálgica, a lembrança da primeira vez da mais velha. Tinha dois anos ou quase; fomos ao TIL ali no Calvário, uma fusão entre garagem e armazém. A peça foi das melhores possíveis, O soldadinho de chumbo numa produção fantástica em que o peixe, o barco e sei lá que mais, deslizavam por cima das nossas cabeças puxados por cabos de aço, roldanas num aparato fabuloso. Creio aliás nunca mais ter assistido a alguma produção tão engenhosa, imaginativa e com tão escassos recursos. A segunda filha por exemplo já teve a sua estreia numa peça ainda do TIL mas em casa de ricos, o dito Maria Matos e não teve metade da piada. Agora no Calvário, a peça corria em redor de nós, tinha palco mas muito acontecia fora dele. Bom, e a história é deliciosa. A Sofia maravilhada olhava tudo sem o mínimo medo, espanto puro perante aquele fantástico mundo.

E é um fantástico mundo. Hoje com o aliciante das várias equipas a desafiarem-nos (implicitamente) para vermos as diferentes récitas. Será que a outra Antígona é melhor que esta? E o encenador? E a irmã? Na verdade, nem é uma questão de ser melhor, sim de ser diferente, de nos dar algo de novo por ser outra visão. E isso aconteceu. Por exemplo, alguns actores têm uma boa dicção e percebemos melhor o texto (um bom exemplo, o encenador Miguel), outros têm uma melhor expressão corporal e arrastam-nos com eles para o seu mundo.

De modo que lá estive, e - repito - mais houvesse. Que belo trabalho! De todos.

Adenda - e outra coisa. foi tão engraçado subir as escadas do auditório, encaminhando-nos para a saída e ouvir as discussões dos alunos. E isto e aquilo, e o soldado e e e ... e eu meter-me na conversa e todos discutirmos em conjunto. Maravilha.

domingo, 9 de maio de 2010

prólogo(s)

Ainda do Antígona (de António Pedro) e

[e um outro parentese - acho graça à forma como digo isto, eu que ouvi pela primeira vez esta sequência A Antígona de António Pedro há seis meses, na boca do prof. João Paulo Gaspar quando este me contava qual a sua ideia para a escolha da peça a encenar este ano. Disse-lhe que não conhecia essa ou a outra, o nome sim, claro; ele, generoso, nesse mesmo dia me enviou o pdf. Que cá ficou até à véspera quando, apressada, fui fazer o tpc. Em boa hora, percebi melhor a peça por ter lido, percebi melhor o texto por ter visto e esta pescadinha de rabo na boca pode continuar ao infinito]

a propósito de prólogos:

"
O 1º velho
Então que temos estado aqui a fazer neste palco?

O encenador
Tempo. Um prólogo nunca é outra coisa: o dispêndio de tempo necessário à preparação do espectador para aceitar uma sequência de acontecimentos dramáticos com a lógica especial, particular, do teatro, em cujo clima se faz entrar.(...)"

Esta pequena parte fez-me lembrar uma saudável discussão com a Débora, faz algum tempo. A Débora argumentava comigo que a peça de entrada do Dança, Camões! tinha sido uma seca, porque assim e porque assado. Eu respondia-lhe haver pessoas que tinham gostado, que tinham gabado a sua qualidade estética, a serenidade, a postura das intérpretes, a ordem no aparente caos, etc e tal mas que, se nada destes argumentos a convencesse, poderia ver a peça enquanto introdução. Visava preparar o espectador para algo que lá vinha, numa onda na outra ponta do espectro e que, caso esta peça não existisse, não atingiria a sua plenitude expressiva.

Não a convenci, a Débora não era convencível com facilidade. O primeiro andamento dessa peça era este:



As rotinas, a banalidade, a repetição imutável, aborrecida dos mesmos gestos, dia após dia. Mas é um erro tomar a vida como certa. De repente, vindo do nada, o corte, a cisão. Ah, a alegria inopinada, desvairada. O prazer de estar vivo, o prazer de estar aqui.
E depois o seu reverso – a interrogação – quem somos? Estamos de facto aqui? As sombras do que somos, do que sonhámos, do que seremos.
O caos. O princípio e o fim.


Este era o texto que deveria ter sido lido em blackout; nunca o foi, mesmo no último espectáculo. Foi a única falha deste cariz e foi pena, precipitação da régie, pusemos a música cedo demais não dando oportunidade à Anabela para ler o texto. Ajudaria bastante o espectador. A este andamento apenas se referem as duas primeiras frases pois "de repente, vindo do nada (...)" eram, como é óbvio, os três rapazes.

E depois o seu reverso (...) dizia respeito ao terceiro andamento, as sombras atrás do ciclorama. O caos era evidentemente o quarto e último andamento, caótico, confuso, movimentado, perigoso. Tinha uma ordem, ou melhor uns "princípios de conduta" que funcionaram uns dias melhor, outros pior.

Enfim, foi um gozo muito grande a criação desta peça, nas suas quatro partes. Foi um trabalho colectivo de grande grupo, toda a turma de facto, sempre mais difícil. Esta, a primeira, bem reconhecível, foi um aperfeiçoamento daquele exercício que continuamos fazendo.

sábado, 8 de maio de 2010

antígona (2)

"Todos nós vamos ao teatro para assistir a um milagre: ao milagre da transposição de toda a obra de arte. Este sofre, aquele ri, duma alegria que só são nossas porque as adaptamos ao nosso pobre romance quotidiano, em que a farsa e a tragédia, nos seus limites, apenas se esboçam debaixo do sebo corriqueiro, na vida insossa de cada um."

Assim começa o encenador, ontem protagonizado pelo Jordan, num interessante desempenho. A voz, o corpo, o olhar, numa convicção de quem vive e nos faz viver. O texto é muito bom, repito-me e isso é começar logo vários degraus acima. Os jovens ontem não caíram, pelo contrário, uma produção ritmada, com drama, cativante quer para o mundo do teatro "lembrando a todos que o teatro não é um modo de ver a vida, mas também uma forma de a transformar", nas palavras da encenadora, a prof. Mª Clara na folha de sala, quer para o mundo das palavras.

Pela minha parte fui reler o texto e fui depois à procura do hipertexto. Outros textos e outros textos sobre o drama, interpretações e relações. Enfim, um fascínio. Ah, e de ontem, adorei Tirésias, o cego, uma interpretação superior de Rita Júlio. Arrepiante pelo vagar, pelo despojamento, pela contenção com que se moveu, pela segurança com que enfrentou um Creonte algo histriónico.

Repete amanhã às 17.30 e na segunda-feira às 10 e às 15.15. A não perder.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

antígona


Estreia hoje às 21.30; acabei agora de obter este magnífico cartaz do seu autor, o prof. Filipe Gonçalves.
A nossa Catarina é uma das intérpretes, estou com enorme expectativa, a primeira tentativa de um teatro sério (leia-se em que o texto, as palavras sejam a parte de leão) na escola desde há uns anos. A última que vi Felizmente há luar (na altura leitura obrigatória), encenada por alunos de 12º ano com a ajuda das profs. de português e inglês, comovente até às lágrimas sobretudo a Matilde (protagonizada por uma Joana, belíssima aluna das que têm tempo para tudo, teatro escolar inclusivé, e tudo fazem muito bem até a educação física).
O texto em si era pesado, datado, diria mesmo maçudo, mas a interpretação que os miúdos lhe deram, a intensidade com que se entregaram - e isto num palco sem as mínimas condições para tal, nem sequer as acústicas - foi brilhante. Vibrámos com as palavras, aquelas palavras afinal tão vivas e tão actuais. Todo o seu esforço foi depois recompensado, há dias de sorte, "Felizmente há luar" saiu na primeira fase do exame de Português e aqueles alunos dominavam a peça de trás para a frente.

Outro dos actores de hoje é o Omar, o nosso inesperado e brilhante (ena, tanto brilho hoje) director de cena. Veremos como se sai sob as luzes da ribalta. Lá atrás fez um trabalho muito bom, acutilante, atento, desembaraçado, com iniciativa, quase impecável se esquecermos o encosto ao interruptor que acendeu inopinadamente as luzes da sala. Por duas vezes!
Inesperado, pois o seu perfil cá fora não me faria supor tamanha concentração e prontidão ali no cantinho escuro e escondido do palco. Aliás, a nossa sorte neste campo parece vir a expandir-se, este ano a equipa Omar - Margarida foi de topo.

E mais logo, Antígona.

(na versão de António Pedro, Glosa Nova da Tragédia de Sófocles Em 3 Actos e 1 Prólogo incluído no 1º Acto, Repertório do Teatro Experimental do Porto, um texto que nos agarra logo no "Prólogo" (fui ler ontem à noite) e nos transporta com ele. Assim o faça hoje a peça)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

uma andorinha

não fará a primavera, mas é - sempre - um sinal de mudança.

No caso, hoje, foram 5. Nem queria acreditar quando, ao longe, vejo no meu local habitual de estacionamento uma mancha confusa, uma amálgama de bicicletas.



Querem ver que a minha já não cabe? E não cabia, fantástico, tive de a ir amarrar ao frágil algeroz, queira deus que não me caia em cima. A foto não está nítida mas dá para ver o verde das folhas do plátano. Nos tons quentes de Setembro só ali parqueava uma, veio o inverno com os ramos nus, apareceu uma segunda e agora, zás! de uma assentada mais 5.

Que sejam para manter.

E, no (meu) momento presente, quem sabe? um bom augúrio no sentido da mudança pretendida.