sexta-feira, 19 de março de 2010

leituras

Numa das primeiras aulas deste período, na fase ainda da concepção / apresentação / experimentação das coreografias com o intuito de cativar (ou não) protagonistas, a Catarina e o Diogo mostraram-nos os primeiros 90 segundos da sua peça de contemporânea. Seguindo o modelo habitual, a Catarina começou por nos elucidar sobre o tema fundamental, isto é, a ideia a partir da qual partiram para a criação. Foi muito engraçado, pois mal acabaram a Rita comentou que lhe parecera tratar-se de uma peça a versar uma relação abusiva, isto é um namorado possessivo violentando a sua parceira. Nunca imaginaria, disse, vendo aquele excerto que o tema estaria nos antípodas (ou enfim, próximo disso). Sucede muito, sucede sempre?, na dança contemporânea. É abstracta e essa qualidade dá-lhe a riqueza da multiplicidade na interpretação.

Há uns tempos, a convite da minha filha mais velha cuja amiga foi dançar no Instituto Franco-Português, fui assistir a uma apresentação de dança contemporânea. Apenas duas dançarinas numa peça com uma sinopse preocupante: citava-se José Gil, filósofo de quem aliás admiro pois gosto muito de "Movimento total"; já o citei, inclusive e esta reserva nada tem de ciumeira. A questão é um pouco como ir jogar ténis de "sáinha" ou golfe de calções apertados debaixo do joelho. Excessivo para um nível de iniciado. Pretensioso, em suma. Mas por outro lado, o apelo não só de uma relação afectiva (conheço-a desde miúda) como o do amadorismo na versão "os que amam" e, ainda, uma ida ao circuito periférico. Depois, já no foyer, alguns comentários reavivaram o cepticismo quando se referiram ao cariz "não comercial" da coreógrafa e da sua consequente marginalidade (leia-se falta de reconhecimento no meio).

Odiei a peça (magnífico!, sinal de ser controversa). Não tinha acompanhamento musical (mas isso já eu sabia pela folha informativa) o que poderia ser estimulante se tivessem explorado os sons do corpo, nem que fosse na simplicidade do linóleo. A não ser num breve trecho isso não sucedeu. Depois, as próprias acções muito interessantes por um lado, monótonas pelo outro. A graça esteve em - eu tinha lido com atenção a sinopse em casa e depois, repetidas vezes (falta de outra leitura) enquanto aguardava - não ter conseguido fazer a ligação entre uma e outra. Não vi nada, creio, do que a coreógrafa quis que eu visse / sentisse o que, de resto, não tem qualquer importância. No final, comentei para a minha filha que uma das fontes da coreógrafa parecia ter sido os desenhos animados, em concreto, o gato Silvester perseguindo o Speedy Gonzalez. Abespinhou-se comigo e com razão "mas tu não leste o que estava lá escrito?" (era algo muito dramático e angustiante, distúrbios entre outras coisas) Li, mas não vi nada disso. Fizeram-me rir algumas partes, e os gestos eram nitidamente um gato em transe, enervado por não apanhar o rato. Enfim, tonterias...

Esta nova versão do cartaz vem um pouco nessa onda. Eu estava com pena, irritada até, pela contradição evidente do cartaz. Não por culpa da designer, bem pelo contrário pois o design está óptimo - simples, claro, passa por completo a mensagem - informa!, mas pela pose escolhida para a foto (responsabilidade nossa!). O primeiro lote de fotos ficara fraco, depois o segundo fotógrafo ficou doente e estávamos em cima do acontecimento sem cartaz. Avançou-se e muito bem, com a colaboração generosa da Margarida. Mas o facto - evidente repito - da contradição de uma imagem parada com um tema de movimento permaneceria para todo o sempre. O título "em trânsito" nunca pretendeu ser literal, isto é, não quisemos reduzir-nos a uma viagem (embora isso pareça suceder). A ideia era mais lata, um trânsito na nossa própria vida (ena que piroseira!), de dentro para fora ou vice-versa, na longitude do tempo outra hipótese, enquanto ligação entre os nossos antepassados e os nossos descendentes (ui, o centenário ataca de novo!).

Por vezes, é bom sermos futuristas. A participação de alunos de edições passadas - Renata, Mafalda e Carla - veio conceder-lhe essa qualidade metafórica.

O prof. Lino que tem vindo a descobrir, penso, uma nova vocação, andava cheio de vontade de "meter as mãos na massa" estando aliás previsto ser ele o adjudicado. O azar das primeiras fotos não se aproveitarem, aliado à quantidade imoral de trabalho que lhe caiu em cima nesta última semana, conduziu ao meu pudor em lhe pedir o trabalho. O desafio porém, acicatou-o e hoje sentou-se ao computador.


cartaz realizado pelo prof. Lino a partir da foto da Margarida

Eu fico feliz, resolvido que está o impasse da colisão de conceitos.

Entretanto, no domingo ir-se-á plantar uma Árvore do Centenário lá na escola. A cerimónia - integrada nas Comemorações do Centenário da República, arrasta consigo um outro símbolo - de algum modo, será a "primeira pedra" da renovação do edifício. Assim o esperamos.

No ginásio está exposta a produção do último ano do prof. Lino. Uma sequência vibrante de cartazes feitos por ele para anunciar os eventos na escola. Duplamente interessante pois podemos ver a sua evolução de criador.