quarta-feira, 31 de março de 2010

sedução

Tenho, todos os anos desde que ando nestas lides (antes o assunto não vinha à baila, não era uma questão), um diferendo com as alunas da AP de dança. Vem este da vontade que as meninas têm de fazer danças sensuais, provocatórias, eróticas mesmo nalguns casos. Penso sempre - e não digo - "nada há de mais erótico que uma mulher inteligente", um homem também, presumo. É uma questão de idade, talvez, um hiato geracional. A cena mais erótica que vi no cinema era um grande plano de duas mãos que tremendo se aproximavam, uma hesitação finalmente resolvida, um adultério (para uma das partes mas conhecido e consentido pelo legítimo) em tempo de guerra. Deslizavam sobre uma colcha, centímetro a centímetro, reduzindo a vacilação, numa cedência ao magnetismo que até nós sentíamos há já tanto tempo.

Estas fotos tratam de outra coisa - da sedução. E, neste caso, de uma sedução alegre, juvenil de uma miúda por uma câmara fotográfica. Ou por alguém que na assistência estava em linha com a objectiva (duvido que, na escuridão da sala, a Rita visse a lente).

Espantoso o olhar divertido de pura felicidade enquanto o Pedro, em suprema limpeza a roda sobre o seu eixo.




Estas fotos têm photoshop algo que este fotógrafo em particular não usa e não gosta. Mas tive o seu consentimento e para além de um ligeiro corte (enquadramento), apenas aclarei um pouco (para efeitos da sua publicação aqui; no papel não precisam, estão óptimas tal e qual).
Esta edição teve a sorte de um bom e variado naipe de fotógrafos, estando já (aliás por sugestão deste mesmo Manuel da Silva) lançado o repto para uma pequena mostra. Assim, nos dias abertos haverá, em querendo, uma exposição com as melhores cinco fotos de cada um.

Por fim, a excelente qualidade das fotos deve também muito aos invisíveis, neste caso ao André Neves (do qual não temos uma foto no seu posto de trabalho e é pena) o nosso dedicado, empenhado e inspirado (e todas as outras palavras acabadas em ado) luminotécnico. A ele também, um agradecimento sentido.

segunda-feira, 29 de março de 2010

tempo

para parar, olhar, analisar.

"Em trânsito" já está. Concebeu-se, planeou-se, projectou-se, montou-se e eu sei lá mais que verbos. Apresentou-se.
Falta ver - de fora - e avaliar com a frieza possível. As fotos podem ser melhores que os filmes ou, no mínimo, são um bom complemento. Porque cristalizam o momento, permitem ver tudo, até a energia.

Da 2ª edição em diante tivemos centenas de fotos; cheguei por diversas vezes a fazer uma escolha de modo a reduzir o número a um montante analisável. Falhei sempre nesse processo sem chegar a perceber porquê; anotava os números que queria manter numa folha e depois mandava os outros para o lixo. Aquilo não resultava e recomeçava de novo, acabei por ficar sempre com um número demasiado elevado. Será talvez mais fácil para os intérpretes pois podem adoptar o critério de escolherem apenas as fotos relevantes das peças onde entram. Ou até mesmo de apenas as suas fotos ou aquelas das cenas onde entram.

O prof. Lino chegou ao pé de mim a rir-se na quinta-feira, dizendo "eu vou-te pedir uma coisa que tu sabes qual é não sabes?" Eu não sabia e a minha cara deve tê-lo dito; ele acrescentou depois da pausa da praxe "é apagares as fotos todas de ontem. Só agora as vi e estão todas horríveis. Não sei o que se passou com a minha máquina " (e etc e tal). Respondi-lhe que tinha salvo meia dúzia e ele aceitou.


(esta é uma das felizes sobreviventes)

Entretanto, na quinta-feira estive no final a conversar com vários alunos da 2ª edição. Gosto sempre de ouvir os seus comentários e apreciações, afinal são informados, têm mais conhecimento de causa que quaisquer outros espectadores. O Faustino, sempre cordato e simpático, referiu-se à "limpeza" dos movimentos, neste caso, à falta dela. Concordo e subscrevo.

Essa questão é analisada com mais facilidade num registo vídeo. Todas as outras, quiçá, resolvem-se bem pelas fotos.

terça-feira, 23 de março de 2010

de volta aos carris

Um ensaio geral que de geral não teve nada, depois de um dia inteiro enfiados numa sala sem ver a luz do dia, não augurava nada de bom. Essa ideia de que o ensaio geral tem de correr mal para que a estreia corra bem, não me convence.

No nosso historial isso aconteceu de facto no primeiro Dança, Camões! mas a explicação deu-a o Zé "este espectáculo deve estar abençoado". Estava com certeza pois os espectáculos, todos eles, correram sempre bem e não me lembro de alguma aula ou ensaio ter tido metade da fluidez. A tal transcendência.

Depois, na segunda edição, quase que nem treinámos no auditório (aquele problema da inundação que o encerrou por meses) mas como trabalhámos tanto cá fora, estávamos mais que prontos na véspera. Tenho a lembrança de um bom ensaio geral e de uma boa estreia. E a bem dizer de uma boa série de espectáculos. Os problemas nesse ano foram de outra natureza.

O ano passado bons treinos e ensaios mas terrível coordenação na recta final, fez com que só ganhássemos o pé na terceira apresentação ou mesmo na quarta.

Este ano, correu ontem muito mal e hoje, surpreendentemente - pois reconheçamo-lo, as ligações não estavam preparadas - foi bom. Não foi brilhante, é certo, tivemos muitas falhas. Ainda assim, no seu conjunto um espectáculo equilibrado e, mais do que isso, jovem, dinâmico, alegre.

Não devia - pois já ando nisto há tempo bastante - mas fico surpresa pela capacidade de superação dos jovens, dos alunos, das pessoas em suma.

Um dia bom, mais um, neste nosso trânsito pela vida.

domingo, 21 de março de 2010

(quase) ela por ela

No outro dia saía da porta principal da escola (horas mortas, entre aulas, leia-se) duas raparigas sentadas no muro, voltadas para dentro, para a fachada. Reconheço uma, troco olhares, dirijo-me a ela com sorriso de orelha a orelha. Ela baixa a cabeça e, de olhar fixo, brinca com o telemóvel. Uma inflexão da trajectória à esquerda, vou agora em direcção à minha bicicleta, corada da rejeição. Ajeito a mochila, retiro o cadeado do poste, dirijo-me à saída. "Ter-me-ei equivocado? Se calhar não me viu e eu pensei que sim". Olho para ela durante todo o percurso, sorriso de novo nos lábios na expectativa de que levantasse os olhos do telemóvel. Isso não sucedeu, passo a um metro dela, recinto deserto, ainda. "Bom, sucede, não podemos fazer o pleno, foi aquele diferendo da avaliação no ano passado, nem todos lidam bem com isso".

Regresso, irritada ao de leve, a casa. Preparo o estaminé para o meu tpc (a época é o que sabemos), sento-me ao computador, clico no mail, entra um convite da miúda-concentrada-no-telemóvel para eu ser amiga dela no facebook. Paradoxos do mundo moderno, o facebook dela quer ser amigo do meu email, será que vamos a caminho do Hal do 2001? Sorrio e esqueço, faz parte, são as "baixas" das relações humanas.

Hoje foi diferente. Atravesso o corredor do pavilhão em direcção à sala de espelhos, miúdos do andebol por todo o lado, ouço um entusiasmado "prof. Teresa Palma?!" Olho e vejo um jovem, sorriso de orelha a orelha, olhos brilhantes (eu também acho que os tinha no outro dia), saindo do grupo e vindo na minha direcção. Percebe pelo meu olhar espantado que o reconheço mas não sei de onde. "Não se lembra de mim?" Simmm... de Paço de Arcos?""Não, de Talaíde. O César!""César, o jardineiro!". Ele riu-se, "sim", e desatámos a lembrar-nos de episódios passados, interrompendo-nos um ao outro.

A escola, todas as escolas têm sempre miúdos assim. O César nunca foi meu aluno mas trabalhámos muitas horas lado a lado; mais tarde, algumas vezes um contra o outro mas sem nunca nos zangarmos a peito. Uma luta leal se assim quisermos.

A nossa escola estava localizada numa aldeia a transformar-se em subúrbio. Tinha menos de uma década mas, construída em péssimos materiais e situada numa zona esquecida, estava degradada que até doía. Tivemos ali um grupo de professores, funcionários e alguns alunos (na realidade apenas um, o César) que nunca se conformou. Durante a semana mantínhamos o que se podia - pintava-se, arranjava-se, e ao fim de semana íamos para a escola jardinar. O espaço era imenso e nunca tinha havido nada para além de algumas árvores. O César era novinho mas gostava muito das plantas (licenciou-se em Agronomia, contou hoje). Desenvolvemos lutas épicas contra as dificuldades naturais - as ervas daninhas que cresciam furiosamente, as pedras no meio da terra, as árvores que morriam (tenho no meu currículo dois salgueiros falecidos, trauma que ficará para sempre), as intempéries, as formigas que nos comiam as sementes. O César tinha imensa graça no seu ar sério e determinado.

Mais tarde, candidatou-se e venceu a Associação de Estudantes. Foi a sua vez de se envolver nas suas lutas (na altura, o tema quente eram as provas globais) do outro lado da barricada. Houve manhãs com a escola fechada a cadeado, mais tarde as portas dos blocos entupidas com papel mastigado (disse hoje que estes últimos incidentes não eram da sua responsabilidade, as correntes sim). Foi sempre uma luta leal como disse, o papel saía muito bem com uma pinça, especializei-me nessa tarefa em três tempos.

Tenho uma fraqueza por pessoas que fazem, o César era assim e, pelo que percebi, continua.

A vida pode ser bela e nalguns dias é mesmo. Este episódio foi a cereja no bolo depois da corrida de manhã, de tarde entrar na sala de espelhos e ver toda aquela energia das pessoas que foram para lá hoje ensaiar.

E por isso não é ela por ela, há uma ela que ganha sempre. E depois, foi um querido "percebo que não se tenha lembrado do meu nome, já passaram tantos anos (14). A professora está igual!" Enfim, demos o devido desconto.

Ps. Estou nas minhas dificuldades informáticas, venho aqui desopilar.

acertada

premonição, a do arrumador do meio da avenida que me disse quando eu passava "também hoje por aqui? A puxar, a puxar por aí cima? Devia ficar em casa a descansar que hoje é Sábado" E ainda me atirou, já de longe "Boomm fim de semana!" Agradeci-lhe a amabilidade com um aceno, alegrou-me o dia esta ponte improvável no meio da cidade.

A tarde foi de facto uma desgraça, um falhanço pelo segundo ano consecutivo. Agravado por eu não perceber como dar a volta. Trouxemos (quase) tudo pronto, escritinho ao pormenor, guiões técnicos cuidados. Fomos organizados, cordatos, calmos e ainda assim estamos um pouco pior que no ano passado.

A dois dias do ensaio geral e sem luzes.

Alguma coisa se há-de arranjar, as danças essas estão vivas e de boa saúde.

sexta-feira, 19 de março de 2010

leituras

Numa das primeiras aulas deste período, na fase ainda da concepção / apresentação / experimentação das coreografias com o intuito de cativar (ou não) protagonistas, a Catarina e o Diogo mostraram-nos os primeiros 90 segundos da sua peça de contemporânea. Seguindo o modelo habitual, a Catarina começou por nos elucidar sobre o tema fundamental, isto é, a ideia a partir da qual partiram para a criação. Foi muito engraçado, pois mal acabaram a Rita comentou que lhe parecera tratar-se de uma peça a versar uma relação abusiva, isto é um namorado possessivo violentando a sua parceira. Nunca imaginaria, disse, vendo aquele excerto que o tema estaria nos antípodas (ou enfim, próximo disso). Sucede muito, sucede sempre?, na dança contemporânea. É abstracta e essa qualidade dá-lhe a riqueza da multiplicidade na interpretação.

Há uns tempos, a convite da minha filha mais velha cuja amiga foi dançar no Instituto Franco-Português, fui assistir a uma apresentação de dança contemporânea. Apenas duas dançarinas numa peça com uma sinopse preocupante: citava-se José Gil, filósofo de quem aliás admiro pois gosto muito de "Movimento total"; já o citei, inclusive e esta reserva nada tem de ciumeira. A questão é um pouco como ir jogar ténis de "sáinha" ou golfe de calções apertados debaixo do joelho. Excessivo para um nível de iniciado. Pretensioso, em suma. Mas por outro lado, o apelo não só de uma relação afectiva (conheço-a desde miúda) como o do amadorismo na versão "os que amam" e, ainda, uma ida ao circuito periférico. Depois, já no foyer, alguns comentários reavivaram o cepticismo quando se referiram ao cariz "não comercial" da coreógrafa e da sua consequente marginalidade (leia-se falta de reconhecimento no meio).

Odiei a peça (magnífico!, sinal de ser controversa). Não tinha acompanhamento musical (mas isso já eu sabia pela folha informativa) o que poderia ser estimulante se tivessem explorado os sons do corpo, nem que fosse na simplicidade do linóleo. A não ser num breve trecho isso não sucedeu. Depois, as próprias acções muito interessantes por um lado, monótonas pelo outro. A graça esteve em - eu tinha lido com atenção a sinopse em casa e depois, repetidas vezes (falta de outra leitura) enquanto aguardava - não ter conseguido fazer a ligação entre uma e outra. Não vi nada, creio, do que a coreógrafa quis que eu visse / sentisse o que, de resto, não tem qualquer importância. No final, comentei para a minha filha que uma das fontes da coreógrafa parecia ter sido os desenhos animados, em concreto, o gato Silvester perseguindo o Speedy Gonzalez. Abespinhou-se comigo e com razão "mas tu não leste o que estava lá escrito?" (era algo muito dramático e angustiante, distúrbios entre outras coisas) Li, mas não vi nada disso. Fizeram-me rir algumas partes, e os gestos eram nitidamente um gato em transe, enervado por não apanhar o rato. Enfim, tonterias...

Esta nova versão do cartaz vem um pouco nessa onda. Eu estava com pena, irritada até, pela contradição evidente do cartaz. Não por culpa da designer, bem pelo contrário pois o design está óptimo - simples, claro, passa por completo a mensagem - informa!, mas pela pose escolhida para a foto (responsabilidade nossa!). O primeiro lote de fotos ficara fraco, depois o segundo fotógrafo ficou doente e estávamos em cima do acontecimento sem cartaz. Avançou-se e muito bem, com a colaboração generosa da Margarida. Mas o facto - evidente repito - da contradição de uma imagem parada com um tema de movimento permaneceria para todo o sempre. O título "em trânsito" nunca pretendeu ser literal, isto é, não quisemos reduzir-nos a uma viagem (embora isso pareça suceder). A ideia era mais lata, um trânsito na nossa própria vida (ena que piroseira!), de dentro para fora ou vice-versa, na longitude do tempo outra hipótese, enquanto ligação entre os nossos antepassados e os nossos descendentes (ui, o centenário ataca de novo!).

Por vezes, é bom sermos futuristas. A participação de alunos de edições passadas - Renata, Mafalda e Carla - veio conceder-lhe essa qualidade metafórica.

O prof. Lino que tem vindo a descobrir, penso, uma nova vocação, andava cheio de vontade de "meter as mãos na massa" estando aliás previsto ser ele o adjudicado. O azar das primeiras fotos não se aproveitarem, aliado à quantidade imoral de trabalho que lhe caiu em cima nesta última semana, conduziu ao meu pudor em lhe pedir o trabalho. O desafio porém, acicatou-o e hoje sentou-se ao computador.


cartaz realizado pelo prof. Lino a partir da foto da Margarida

Eu fico feliz, resolvido que está o impasse da colisão de conceitos.

Entretanto, no domingo ir-se-á plantar uma Árvore do Centenário lá na escola. A cerimónia - integrada nas Comemorações do Centenário da República, arrasta consigo um outro símbolo - de algum modo, será a "primeira pedra" da renovação do edifício. Assim o esperamos.

No ginásio está exposta a produção do último ano do prof. Lino. Uma sequência vibrante de cartazes feitos por ele para anunciar os eventos na escola. Duplamente interessante pois podemos ver a sua evolução de criador.

quinta-feira, 18 de março de 2010

em trânsito

(esta posta)
Canto do cisne, estertor da morte? Espero que não, que na minha cabeça quando desço a Avenida de bicicleta no regresso de um longo dia de trabalho, no quentinho do comboio quando encosto a cabeça para trás e fecho os olhos, no negrume do paredão quando corro (esporádico, episódico, a preguiça é a mãe de todos os vícios), escrevo sem cessar na minha cabeça.

(faz-me lembrar algo, as coreografias que estão todas inteirinhas, prontinhas nas vossas cabeças, somos todos da mesma cepa)

Aos factos:

Dança Camões (2009/2010) apresenta:

Em trânsito

23 de Março (3ª feira) 15:15
24 de Março (4ª feira) 10h e 19.30
25 de Março (5ª feira) 19.30

Bilhetes à venda nos locais habituais.

E um p.s para a Bia a quem peço desculpa por não ter respondido no outro dia. E o que eu gostei de ler o seu interesse, uma nostalgia que me dá quando me chegam ecos desse ano. Como disse a Coelha, acutilante como sempre, a num propósito semelhante "eu [nesse ano] era feliz e não o sabia".


cartaz da Margarida Simões