No outro dia saía da porta principal da escola (horas mortas, entre aulas, leia-se) duas raparigas sentadas no muro, voltadas para dentro, para a fachada. Reconheço uma, troco olhares, dirijo-me a ela com sorriso de orelha a orelha. Ela baixa a cabeça e, de olhar fixo, brinca com o telemóvel. Uma inflexão da trajectória à esquerda, vou agora em direcção à minha bicicleta, corada da rejeição. Ajeito a mochila, retiro o cadeado do poste, dirijo-me à saída. "Ter-me-ei equivocado? Se calhar não me viu e eu pensei que sim". Olho para ela durante todo o percurso, sorriso de novo nos lábios na expectativa de que levantasse os olhos do telemóvel. Isso não sucedeu, passo a um metro dela, recinto deserto, ainda. "Bom, sucede, não podemos fazer o pleno, foi aquele diferendo da avaliação no ano passado, nem todos lidam bem com isso".
Regresso, irritada ao de leve, a casa. Preparo o estaminé para o meu tpc (a época é o que sabemos), sento-me ao computador, clico no mail, entra um convite da miúda-concentrada-no-telemóvel para eu ser amiga dela no facebook. Paradoxos do mundo moderno, o facebook dela quer ser amigo do meu email, será que vamos a caminho do Hal do 2001? Sorrio e esqueço, faz parte, são as "baixas" das relações humanas.
Hoje foi diferente. Atravesso o corredor do pavilhão em direcção à sala de espelhos, miúdos do andebol por todo o lado, ouço um entusiasmado "prof. Teresa Palma?!" Olho e vejo um jovem, sorriso de orelha a orelha, olhos brilhantes (eu também acho que os tinha no outro dia), saindo do grupo e vindo na minha direcção. Percebe pelo meu olhar espantado que o reconheço mas não sei de onde. "Não se lembra de mim?" Simmm... de Paço de Arcos?""Não, de Talaíde. O César!""César, o jardineiro!". Ele riu-se, "sim", e desatámos a lembrar-nos de episódios passados, interrompendo-nos um ao outro.
A escola, todas as escolas têm sempre miúdos assim. O César nunca foi meu aluno mas trabalhámos muitas horas lado a lado; mais tarde, algumas vezes um contra o outro mas sem nunca nos zangarmos a peito. Uma luta leal se assim quisermos.
A nossa escola estava localizada numa aldeia a transformar-se em subúrbio. Tinha menos de uma década mas, construída em péssimos materiais e situada numa zona esquecida, estava degradada que até doía. Tivemos ali um grupo de professores, funcionários e alguns alunos (na realidade apenas um, o César) que nunca se conformou. Durante a semana mantínhamos o que se podia - pintava-se, arranjava-se, e ao fim de semana íamos para a escola jardinar. O espaço era imenso e nunca tinha havido nada para além de algumas árvores. O César era novinho mas gostava muito das plantas (licenciou-se em Agronomia, contou hoje). Desenvolvemos lutas épicas contra as dificuldades naturais - as ervas daninhas que cresciam furiosamente, as pedras no meio da terra, as árvores que morriam (tenho no meu currículo dois salgueiros falecidos, trauma que ficará para sempre), as intempéries, as formigas que nos comiam as sementes. O César tinha imensa graça no seu ar sério e determinado.
Mais tarde, candidatou-se e venceu a Associação de Estudantes. Foi a sua vez de se envolver nas suas lutas (na altura, o tema quente eram as provas globais) do outro lado da barricada. Houve manhãs com a escola fechada a cadeado, mais tarde as portas dos blocos entupidas com papel mastigado (disse hoje que estes últimos incidentes não eram da sua responsabilidade, as correntes sim). Foi sempre uma luta leal como disse, o papel saía muito bem com uma pinça, especializei-me nessa tarefa em três tempos.
Tenho uma fraqueza por pessoas que fazem, o César era assim e, pelo que percebi, continua.
A vida pode ser bela e nalguns dias é mesmo. Este episódio foi a cereja no bolo depois da corrida de manhã, de tarde entrar na sala de espelhos e ver toda aquela energia das pessoas que foram para lá hoje ensaiar.
E por isso não é ela por ela, há uma ela que ganha sempre. E depois, foi um querido "percebo que não se tenha lembrado do meu nome, já passaram tantos anos (14). A professora está igual!" Enfim, demos o devido desconto.
Ps. Estou nas minhas dificuldades informáticas, venho aqui desopilar.