segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

deliciosos

equívocos na história.

Vieram os jornais do fim-de-semana cheios de histórias da implantação da República. No Público, e em traços largos, falaram numa sucessão de azares nos primeiros dias de Outubro que pareciam conduzir a mais um fracasso (como o de 31 de Janeiro, no Porto). No dia 3, um dos cabecilhas civis - Miguel Bombarda - é assassinado por um doente. No dia 4, um dos cabecilhas militares (marinha) - Cândido dos Reis - presumindo o golpe falhado, opta por suicidar-se. Finalmente, no próprio dia 5, enquanto as tropas acampadas bem perto de nós, na rotunda do Marquês de Pombal, aguardavam o evoluir dos acontecimentos, um alemão aproxima-se com uma bandeira branca. Pretendia, tão só, obter um armistício que possibilitasse aos estrangeiros serem evacuados; a sua bandeira é interpretada pela população expectante como uma declaração de rendição da monarquia (lá em baixo na baixa). Aquela irrompe em vivas e o facto (a rendição) é dado por acontecido. Simples.

Lia, rindo-me, isto em voz alta e a minha filha Ana "ah, mas isso foi o que aconteceu em Berlim, com a queda do muro". Parecido, não há dúvida. A história em círculos, repetindo-se sempre.

Tem sido uma animação na escola, este ano. Conferências, debates, espectáculos e repito-me, creio. Não tem dado para escrever, ou se vive ou se fala/escreve. Tem sido uma canseira, e repito-me de novo. Por mais criterioso que se seja, perdemos sempre " a no win situation". É uma pena, eu tenho pena, gostava muito de estar em todas.

Na semana que passou, escolhi duas. Uma, a palestra organizada por uma aluna do 12º ano - a Marta Lima, subordinada ao tema da propaganda nazi.



Um cartaz muito bem conseguido, um tema inquietante que se impõe por si. Começou muito bem com uma introdução escorreita, cativante por parte da Marta apresentando as oradoras. Depois, a primeira intervenção, bem intencionada mas mal preparada pretendeu elucidar-nos sobre o contexto social, cultural, económico, histórico (?) da subida ao poder do partido Nazi e Hitler. À segunda, duas montagens de vídeo muito youtube em 5 minutos, mas com matéria prima de tal qualidade (filmes de Leni Riefenstahl e documentários da época) que era impossível não ficarmos arrepiados, seguiu-se uma terceira com intuito de síntese e depois o debate.

O expectável, penso, com intervenções aqui mais informadas, ali mais panfletárias. O arrepio maior da noite, sobreveio contudo com uma intervenção de uma palestrante que arranca uma salva de palmas à assistência. Disse a oradora, e isto na sequência de considerações várias sobre a abulia da juventude, que a assustava muitíssimo que alguns dos seus colegas com 18 anos pudessem votar.

Digamos que naquele contexto, sobretudo naquele contexto, foi um aplauso assustador, partilhado até pela oradora mais velha e que me pareceu pertencer à Amnistia Internacional. Felizmente, um elemento do público com boa memória e bom sentido das proporções, interveio a tempo de abalar aquelas convicções.

Comecei com os equívocos felizes, derivei para a falta que nos faz um estudo sério da História. [noutro parêntese, equaciona-se de novo a reforma curricular, eu votaria no regresso do latim e, sem qualquer dúvida, na história como disciplina obrigatória em todos os cursos do secundário. À custa de quê? Talvez da área de projecto...]

Ah, fui confirmar a história da bandeira branca do alemão no meu livro da história de Portugal (coordenado por Rui Ramos, um auto-presente este natal). Não consta.

O que não quer dizer que não seja verdade e talvez seja daqueles episódios que se não aconteceu, podia ter acontecido.