domingo, 8 de agosto de 2010

a caminho

de outra coisa qualquer,

este blogue acaba aqui.

Teve pretensões a um espaço de partilha. Analisar o trabalho diário, divulgá-lo inter-pares (nasceu no ano das 3 turmas de AP dança) reflectir sobre ele. Depois, estimular, provocar, evocar, sonhar.

Nunca foi bem o que se ambicionou e isso não tem mal. Foi outra coisa qualquer - parece que gosto desta sequência de três palavras - com um cariz pessoal cada vez mais marcado.

A dança continua, no próximo ano, nas mãos da prof. Helena Duque. Para mim - e aqui sim - o objectivo foi plenamente alcançado. Teve a ajuda de uma conjuntura favorável; por coincidência, no ano da primeira edição começou também na televisão portuguesa o primeiro daqueles programas populares de dança. Se ainda há a tradicional renitência em dançar, ela é cada vez menor e os alunos da AP dança foram sem dúvida agentes de mudança na nossa escola.

As minhas preocupações são cada vez mais outras, o que aliás já reflecti aqui por várias vezes. Ando doente com os problemas do ambiente e da nossa inércia; tentei lançar um novo projecto nessa área e na da intervenção da cidadania. O ReAge! (mantive o ponto de exclamação, o imperativo do Afonso) teve apenas uma inscrição no universo dos alunos do 12º ano. Não é, como é óbvio, uma preocupação partilhada pelos alunos. Um amigo, ao saber do desaire, tentou consolar-me "os miúdos hoje já não têm pachorra para esse tema, nasceram com as alterações climáticas, o aquecimento global, estão fartos disso". Pois. Não deixa de me surpreender.

Veremos se saberei encontrar uma forma criativa de os cativar, afinal passei estes anos a repetir que temos de encontrar soluções para os problemas, fora os apelos à não rendição.

E é isto. Teve uns momentos especiais, outros mais tensos, e à sua maneira e no seu cantinho, fez parte do projecto Dança Camões.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

sementes

de tenacidade.

Em 21 de Março plantou-se uma árvore na escola. A iniciativa partiu da Comissão para as comemorações do centenário da República e teve por objectivo sensibilizar-nos a todos para a preservação do património florestal.

(encontrado um cartaz melhor)

Teve frutos imediatos, e digo-o ironizando (acredito que teria acontecido de qualquer modo), com as petições, abaixo-assinados, acções de sensibilização contra o abate, salvem as árvores do Camões que se seguiram.

O local escolhido para a plantação da nossa tília juvenil foi, no mínimo, inusitado. Com efeito, aquele canto do parque de estacionamento, o árido alcatrão envolvente conduziu à pergunta inevitável "mas porquê ali?". A resposta era, afinal, simples: "porque é o único sítio da escola cujo solo não vai ser mexido, todos os outros vão ser escavados quando as obras arrancarem".

Simples, de facto. Ainda assim não conseguimos deixar de sofrer com ela, ali tão sozinha, isolada no meio do alcatrão.

A verdade é que num instante engrossou e as folhas cresceram com viço. O sr. Adelino cuidou dela, regando-a com regularidade. A dado ponto, levado pelo seu entusiasmo de horticultor plantou naquele pequeno quadradinho umas sementes de abóbora.

A planta cresceu num ápice, rastejou pelo alcatrão em direcção ao muro. Folhas grandes e também viçosas, descremos todos que, naquelas condições hostis, fossem capazes de dar fruto.



E, no entanto, eles aí estão. Esta belíssima abóbora poderia estar numa qualquer horta de quintal e que está acompanhada de uma mana do mesmo calibre e ainda outras duas mais pequenas (uma à esquerda, na foto).



Em condições na aparência adversas surgem por vezes os mais belos frutos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

desaceleração

ou tentativa de.

No regresso a casa, uma paragem na Fnac para levantar uma encomenda. Um parêntese (ou dois), comprar online pode ser mais prático e até mais barato mas não tem a mesma graça. Não sentimos o peso do livro, o tamanho ou a fonte da letra, o espaçamento, mesmo a capa perde nitidez. E depois o cheiro, ou a ausência dele. O segundo parêntese, a desilusão que é a Fnac não pára de aumentar. A quantidade de livros de que vou à procura e que não encontro. Têm as prateleiras cheias de capas foleiras, céus por onde andará o bom gosto? e interiores a condizer e depois Juan José Millás - dois títulos, Javier Marias outros dois, Isak Dinesen, zero e fico por aqui. São rápidos a encomendar, sem dúvida, eficientes também, aliás hoje fui buscar um livro que não tinham nas prateleiras na semana passada. A questão é que se não podemos levar logo os livros mais vale encomendar directo.

Há mais questões, claro. O exagero da capa dura ou reforçada, o tamanho exagerado da letra, logo um volume enorme para um texto comezinho. Tudo caríssimo, como não podia deixar de ser. E o livro perde a sua transportabilidade. Vou até à diminuta secção de livros de bolso, nada que me chame.

Prossigo para autores lusófonos, opto por um clássico que tem sido por demais vezes preterido. Pego nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, a dedicatória, é por si mesma, irresistível "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas". Sigo para o prólogo da quarta edição e depois para o aviso ao leitor que me lembro de já ter lido, citado: "(...) Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que sairá desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. (...)"

Genial, que precisão. Fecho, vou pagar e ler para um sítio a condizer.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

dias simples

A meio da manhã, de uma manhã complicada, entre uma tarefa e outra, apercebo-me de uma mensagem no telemóvel "uma cadeira já está feita:)". Era uma afirmação da Vera, não exigia resposta imediata, com um sorriso ainda por cima, não a percebi mas não fazia mal, não lhe dediquei outro pensamento. Ficou porém, a retinir em segundo plano. Volta e meia ao longo do dia, interrogava-me sobre o artigo: "uma porquê?, só há uma estragada, o que é que ela quer dizer com o uma? Devia ter dito a cadeira já está feita. Feita? Devia ter dito arranjada (a cadeira está desmanchada)". E depois, logo a seguir "que pinta, ontem dedicou-se à costura (com efeito, ao chegar a casa e deparei-me com a prancha de surf muito bem protegida numa capa nova toda catita, feita em aproveitamentos de tecidos), hoje à carpintaria, mas que eficiência!"

O dia todo nisto, um dia cheio, não deu para me dedicar à decifração. Finalmente, no regresso a casa - nestes dias bonitos venho frequentemente, ao lado do rio, a pedalar até Algés - uma iluminação "que disparate! ela fez uma cadeira da faculdade, não tem nada a ver com a cadeira da cozinha que aguarda atenção. E nem lhe respondi a dar os parabéns..."

Este equívoco tem duas semanas, ontem finalmente arranjei vontade para o dito arranjo, a ver vamos se aguenta mais cinco anos. Não foi uma grande obra inicial de modo que vai necessitando de manutenção regular.

Nós nunca acreditamos quando nos dizem que vamos ter saudades daqueles dias simples em que a preocupação máxima é passar nos exames, pois é uma afirmação inconsequente. E é.

E ainda assim...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

distâncias

Aproxima-se do fim, esta acção de formação.

foto de Maria João Alves, uma das professoras

Se tem sido uma canseira quer para conciliar com a escola, quer porque não temos pernas para isto - como disse, as professoras não brincam em serviço, o ritmo é alucinante - mesmo os mais novinhos ficam derreados, por outro tem sido revigorante. O regresso às aulas sabe sempre bem, seja ele no final das férias, seja a espaços na vida de professor. Ir para a aula sem ter de a preparar ou de conduzir, empenharmo-nos apenas em estarmos concentrados para aprender o mais possível, não nos mortificarmos se correu mal nem analisá-la à exaustão é mesmo muito bom, é quase como férias. Melhor em alguns casos.

Esta acção é muito boa, as professoras levam tudo muito a peito, não estamos ali para brincar nem para passar tempo. Uma delas, por acaso, é bem brincalhona, um palhaço a bem dizer, transforma cada aula num acontecimento ao mesmo tempo que nos estafa como se não houvesse amanhã.

É boa pelo conteúdo rico, é boa pela metodologia. A nossa avaliação consiste na criação e execução de uma coreografia concebida dentro do espírito das danças tradicionais portuguesas e europeias. A liberdade é quase total e o processo tem sido muito interessante. Por tudo, até pelos conflitos. Bom exagero, não aconteceram ainda, mas pelos diferendos. A mim, tem-me dado imenso gozo poder opinar, sugerir; não preciso, ao invés do que sucedia convosco, de aguardar pelo momento certo (sempre para além da metade, muitas vezes, naquelas fases iniciais, quase no fim da criação). Estou a adorar a criação.

Na última aula fomos por um caminho que eu não estava a achar interessante. Fui sugerindo mas o grupo ia noutra direcção. Às tantas, uma colega perguntou-me se eu achava que estava a ficar giro. Respondi que não, estremeceu admirada e magoada. Expliquei, amenizou-se o ambiente e depois de perceber o porquê, até concordou.

Achei graça, mesmo ficando mais uma vez incomodada com a minha falta de jeito para relações públicas (e/ou privadas) pois a reacção dela foi a de despeito "então nós somos tão giras, tão criativas, tão rápidas, fizemos isto num ápice e agora está aqui uma a dizer que não gosta?" de quem não trabalhou o suficiente. Isto é, a criação foi tão rápida que não amadureceu, as acções estavam encadeadas é certo, mas sem lógica, sem coerência, sem profundidade (juízo meu, claro, Teresa, a hipercrítica).

Hoje, numa circunstância bem diferente, sucedeu-me exactamente o mesmo. Numa apresentação de um trabalho meu que eu considerava bom, amadurecido, consistente, bem feito caramba!, a opinião geral foi contrária, que belo balde de água fria.

Uma questão de distância.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Primavera

fotos do arraial

aqui

Não estão nada de especial, a nitidez em défice (o fotógrafo padece do mesmo mal que eu, já não vemos nada no visor da câmara), valem pelo momento. Un recuerdo.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

outono


encontrei algumas, todas do outono, é a estação mais fotografada. Naturalmente. Aliás, não será por acaso o motivo escolhido para o cabeçalho do blogue. A alegria esfuziante das folhas que se prestam a abandonar a mãe e a dançar ao vento. Por si.

Que metáfora, hem?
(um piscar de olho com um sorriso)

instalações no

Verão, na nossa escola. Com arremedos de Christo em contenção orçamental.

A fotografia está uma trampa, reflexo da limitação conjunta dos meus olhos sem óculos e lente do telemóvel. É que nem dá para perceber o que lá está, só aqui no computador e com o auxiliar de visão percebo o borrão. Imaginemos que é de inspiração na pintura impressionista.

Esta está um pedacinho melhor. Para quem não identifique, a legenda: é a passadeira vermelha do baile de gala após lavagem. A criatividade manifesta-se nestas soluções.

domingo, 27 de junho de 2010

ciclos

as árvores do Camões




É curioso que tenho dezenas de fotos da alameda e dos plátanos no pátios em todas as estações do ano (menos as do Verão) e não sei em que pasta estarão arrumadas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

um espaço

que nos espera.


Mesmo irritada, mesmo não apetecendo muito, vejo isto, o trabalho da profª Bárbara que andou na semana passada empoleirada no escadote, ela que tem medo de passar a pé na ponte 25 de Abril e que, lá em cima, embrenhada na sua tarefa de passar a fita por cima da viga, controla o seu medo e entusiasmo-me de novo.

Vamos a isso.

controlo

O que nós não podemos controlar é o que nos mete mais medo. Falo por mim. O terror que sempre sentia, quando noite dentro me dirigia às urgências pediátricas com uma criança ardendo em febre no banco de trás. O terror inominável que algo sucedesse, uma convulsão uma perda de consciência à qual eu não soubesse dar resposta. Estacionar, pegar-lhe ao colo, aguardar ao guichet, é a minha vez, depois a triagem, aguardar numa ansiedade galopante, brincar com ela como se nada fosse, o médico, raio-x, o médico de novo, despe, aguarda o efeito do ben-u-ron, banho, espera, tira a febre, ainda não, aguarda, brinca um pouco mais, tira de novo, já baixou, vamos lá então. Infecção pulmonar? Uff, que alívio, tem nome a doença, como se trata?

Há uns anos o meu irmão Filipe planeou e realizou uma semana de kayak na Antárctida. (tem aquela ideia peregrina que para cada local há um meio de transporte ideal, sendo a filosofia como parece ser óbvio, não percorrer o maior número e quilómetros possíveis num dia e sim, o integrar-se como se dele fizesse parte, no meio ambiente)
Na fase de preparação entrevistaram-no e à família. Fizeram uma pergunta rápida a cada um de nós; respondi e senti-me depois muito tola, que do que tinha mais medo era de um ataque de um bicho. Tinha em mente as focas-leopardo (o Filipe faz sempre uns estudos exaustivos e tinha as estatísticas na ponta da língua) que são o animal mais mortífero daquelas paragens, bem pior que as pobres orcas com tão má reputação e tão pouco proveito.

Por melhor planeada que estivesse, por mais planos B e C, se uma só foca-leopardo se interessasse por ele com um pouco mais de vigor, não teria uma hipótese. Virava-se e naquela água a rondar o ponto de congelação teria menos de meia dúzia de minutos para remoer. Ninguém poderia guardar rancor à foca, afinal tal como na anedota do escorpião, estaria apenas a cumprir com a sua natureza.

A ver, desligar o som, a banda sonora é execrável e/ou totalmente desajustada.


Controlo.
A ilusão de conseguirmos algum para que possamos fazer o bem induz-nos a opções na nossa vida. Falo por mim que sofro horrores com a falta dele. (a impotência de num engarrafamento estar dentro de uma lata e de não poder sair dela, abandonando-o logo ali, é o melhor dos argumentos para mim, da opção pelo transporte público. Desse, pode sair-se a (quase) qualquer momento)

Não passa de uma ilusão. A falta de apoio, a resistência passiva - e até activa - que senti nas três primeiras edições deste projecto iam desmoralizando, desgastando. Falta de fibra, é verdade, não afirmei já aqui que a dificuldade estimula? Adiante, a verdade é que assumi que ganhando um pouco mais de controlo, o percurso sairia facilitado. Se isso sucedeu numa faceta, as desvantagens na outra vertente não compensaram. Derivei por aqui e na verdade não era nada disso que tinha em mente.

Na verdade, o que me enerva sobremaneira é a total falta de controlo que temos nas nossas escolas. Esta absurdidade dos mega-mega-agrupamentos idealizados para poupar nos recursos humanos do "remador" (vide conhecida anedota dos remadores vs treinadores/opinadores) ao invés de dispensar os idealizadores, eles mesmos, que se entretêm na modorra dos gabinetes a inventar reforma sobre reforma, questionário atrás de questionário, idiotice sucedendo-se a idiotice é de tal maneira gritante que pasmo com a nossa complacência. Ficamo-nos todos, estoirados que estamos de lutas menores ( comparando com esta) incapazes de mais que uma ténue reacção.

Amanhã temos o arraial, é verdade.
Pois nem esse me apetece.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

currículo oculto

Comecei hoje mais uma acção de formação na área da dança. Conteúdos algo repetidos - danças tradicionais portuguesas e europeias - mas com o meu domínio periclitante, funcionará sobretudo como consolidação tanto dá até que fura.

Depois, a professora principal tem características que muito admiro e não me canso de observar: uma paixão genuína e incansável pelo que faz e pelas danças tradicionais em particular, um profissionalismo - por exemplo no cumprimento escrupuloso do horário (hoje, adiei a saída da escola até à última, embalei avenida abaixo, rua do ouro fora, precipitei-me estação adentro de bicicleta pela mão, apenas para constatar que me enganei na gare (nem olhei o quadro, o pára-em-todas costuma ser na linha 2 ou 3, estava na 4) e perdi o comboio, cheguei atrasada cinco minutos, já tinham começado - e na descontracção com que admite e emenda o erro. A acção começou como é habitual com uma sessão de apresentação, o inevitável power-point. Um erro de ortografia latejava no écran: previlegiar, céus, coitada, que chatice. Ninguém disse nada, é um erro pronto.

A prática começou logo de seguida com a outra professora. Ainda estávamos no aquecimento já a Margarida escrevia no quadro branco, em letras garrafais privilegiar em vez previlegiar, esta com um erro em frente. Fantástico, não é, de todo, comum, esta prontidão na correcção, esta humildade em professora doutora.

A sessão valeu a pena tal como irá valer o resto do curso. Que diferença para o que frequentámos (quase todos de EF ali da escola) em Outubro, nível introdutório de danças sociais (a ideia era mais uma vez consolidar, sabia à partida que os conteúdos eram repetidos), uma quase total perda de tempo. A aula começava tarde, os intervalos esticavam-se com impudor, os alunos - nós - suplicávamos para que a professora desse matéria, nos pusesse a dançar, nos ensinasse. Ela, que tanto sabia daquilo, é mesmo sabedora, por qualquer motivo que não descortinámos, escusou-se até ao fim. Um desespero.

Hoje, não foi nada disso, foi sempre a dar.

Depois, o regresso, numa digna noite de solstício, quente e sem vento, pelo paredão enluarado. Um privilégio.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

se eu fosse um cone

era de chocolate, disse um dos jovens no nosso auditório no decorrer da festa da Escola Móvel, demos todos uma gargalhadita. Foi um espectáculo simples, todos eles entravam com esta frase e um desenho relacionado no bibe de papel grosso. A continuação era diferente, especial para cada um deles. Estavam agrupados por séries - houve a dos planetas, houve a das plantas, a dos peixes (entrou um cardume de sardinhas muito juntinhos, foi outra gargalhada), dos animais e outras que tais. Só não falavam os que faziam coisas - os malabaristas e umas meninas que dançavam.

O chocolate fez-nos rir por ser pueril, uma lufada fresca em contexto elaborado.

Uma opção que desconhecia, esta de se poder frequentar a escola através de um computador. O público alvo são os miúdos que viajam de terra em terra - feirantes, circo - e ainda as mães adolescentes que têm de abandonar a escola. Recebem um computador (?, não entendi bem esta parte, se é oferecido ou cedido; a vodafone paga as comunicações, isso percebi) e têm as lições através dele; recorrem à plataforma moodle (aquela coisa agressiva, difícil de perceber mas que passada a primeira barreira, dizem, é muito útil e funcional ainda que continue a ser horrorosa) e vão tirando dúvidas online com os professores. Estes estão todos fechados numa sala - tipo ficção científica - e vão, pelo que percebi alternando entre os diversos alunos. Aliás, foi curioso que depois de dizerem "se eu fosse uma árvores, criava raízes nas dunas da praia" a seguir apresentavam-se, alguns com nomes reconhecíveis como Cardinali, e a respectiva turma 7ºA1. Bizarro, ter uma turma virtual mas terá com certeza um propósito.

Depois, todos os períodos reúnem-se numa escola (alojam-se em camaratas militares) onde fazem actividades e têm algumas aulas presenciais. Uma frase gira de uma miúda "se eu fosse a directora da escola móvel fazia mais semanas presenciais".

Não é só desgraças, o nosso sistema de ensino. Dar a possibilidade de estudar a jovens que de outro modo com grande dificuldade (mesmo assim não há-de ser fácil) o conseguiriam e abrir-lhes as portas para prosseguirem para mais altos voos é fantástico. Basta que um o deseje e o consiga para ser uma estatística favorável; há-de ser um programa caro.

E depois, acredito também que o que se aprende no processo será também útil para os alunos do ensino normal. Eles assumiram-se ali como diferentes e com que orgulho o afirmaram.

(fiz os primeiros três anos numa escola um pouco diferente. Numa das matérias praticava-se o ensino programado, isto é, cada um de nós ia ao seu ritmo. Havia um armário com livros de exercícios e nós íamos fazendo. Quando acabávamos um livro, mostrávamos ao professor e se estivesse tudo bem íamos buscar o seguinte. Parte da aula era oral e era comum mas o resto era por nossa conta; lembro-me de aquilo ser muito estimulante)

Neste espectáculo de encerramento foi pena não terem contratado um animador em condições. Foi desenxabido, foi o possível com os conhecimentos existentes, imagino. Mas com tantos animadores profissionais que em duas horas conseguem pôr um grupo de duros de ouvido a tocar em orquestra com garrafas de plástico com grãos de arroz o que não fariam com uma semana de trabalho com um grupo talentoso como são estes miúdos.

Numa busca agora mesmo, o jornal do projecto.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

noites de verão

No ano passado não tivemos um arraial formal, com as fitas da ordem, as lanternas nas árvores, os manjericos e todo o aparato. Foi no final de Maio e esteve inserido nas comemorações do centenário. Vieram antigos antigos alunos (alguns bem desvairados, foi uma animação), antigos mais recentes alunos, muitos alunos a finalizarem, alguns ainda a meio do ciclo, professores, funcionários, famílias.

Encontrou-se o modelo quase perfeito:

a tuna, recordando a alguns, indicando o caminho a outros e valendo por si mesmos, eram muito bons;

os alunos do presente, aqui os vencedores do karaoke alemão 2009, modalidade desconhecedores da língua, cantaram de novo o da da da;

entraram depois os meninos e meninas da AP dança,

e finalmente, o melhor, nós todos cá fora.

De modo que, apareçam! Este ano vamos mesmo ter sardinhas, os enfeites já estão pendurados e iremos logo directos ao assunto: convívio, comida, animação espontânea (leia-se o karaoke à la carte). Passem palavra.

terça-feira, 15 de junho de 2010

não cuspas para o ar

que te cai em cima.

É uma expressão detestável pelo nojo que evoca. Tive um amigo que a usava com alguma frequência, pela sintonia que tínhamos em questões de escola, é a que hoje se me impõe.

Um telefonema vindo do nada a meio da manhã. Uma voz feminina educada, apresentando-se, perguntando primeiro se o momento era bom para falarmos, "sim, esteja à vontade" dizendo que está a reunir uma equipa para, no não-diremos-o-nome trabalhar o ensino artístico no ensino regular. O meu nome e contacto tinham-lhe sido sugeridos pelo prof. tal e tal como referência na área da dança na escola.

Ali, naquele breve instante, inchei quase levitando. Ela foi avançando, explicando um pouco mais em que consistia o projecto até eu conseguir intervir, dizendo que estava agora envolvida num outro projecto, que tinha um compromisso e que não poderia aceitar, não valendo sequer a pena a conversa que sugeria. Acrescentei que percebia a razão da referência pois o professor tinha assistido a um dos espectáculos e ficara bem impressionado mas que ainda assim, eu duvidava que as minhas qualificações fossem as adequadas.

Ficou assim a conversa, eu não vacilei sequer mas sei que o teria feito se as circunstâncias fossem outras. Não obstante tudo o que disse e penso sobre os serviços do não-diremos-o-nome teria explorado um pouco mais o desafio, teria ido ter com ela para termos a tal conversa. Resisto a tudo menos a uma tentação dizia Oscar Wilde, creio, acho que sou um pouco assim.

A primeira mudança de escola voluntária foi a última, todas as outras foram impostas. De facto, nos primeiros 13 anos de professora, estive em 12 escolas e porque numa, no D. Dinis, pude concorrer à recondução, figura que então havia. A colocação era um desânimo pois nunca conseguíamos aprofundar o trabalho do ano anterior. Dar aulas era sempre, e na verdadeira acepção, um constante recomeço.

Estabilizei 9 anos em Paço de Arcos mas apenas nos dois primeiros senti haver um progresso, e falo da educação física. Nos seguintes, fazendo uma retrospectiva, tratou-se mais de conter os danos. Não havia a massa crítica ou seria eu que estava em notória contra-maré. Quando tudo o resto na escola parecia encaminhar-se no mesmo sentido, senti que era eu que estava mal, não me revia na cultura de escola e que precisava de começar de novo.

"para que llegue es conveniente crear novas circunstancias"

Dei com esta frase num camarim do Teatro Camões quando já estava na escola secundária de Camões. Um aval, digamos, fizeste bem. Tive sorte, reconheço-o.

No momento actual, não fosse o projecto da gestão, teria vacilado pois é um desafio. Podia correr mal, não havia quaisquer garantias tal como eu não as tive, quando em 2005 preenchi um boletim com 5 códigos de escolas a 20 km da minha casa onde não conhecia ninguém. Se a equipa artística corresse mal, pois bem, haveria que seguir em frente. Em frente seguiria também se corresse bem, em ambas as possibilidades de regresso à escola, eu gosto mesmo é das trincheiras. Teria vacilado ainda porque o (meu) ciclo completou-se este ano, porque as minhas inquietações mais prementes agora são outras, porque a ap dança para mim terminou aqui. Continuará na escola com a prof. Helena, como saberão os alunos de 11º ano que já se inscreveram, um renascer para uma outra fase. Andava a pensar quando abordaria o assunto, está feito.

Com este convite ocorre-me - o que nós brilhamos à conta dos alunos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

formas

(leia-se fôrmas, como formas de bolos, formas de sapatos, isto é, o substantivo relativo ao acto de formatar, a minha gramática já lá vai, muito ao longe, não deve estar bem...do ponto de vista formal)

Hoje, ao almoço, dizia-me um amigo, rindo-se, que os franceses estudam o sistema de ensino dinamarquês, os ingleses estudam os suecos, os suecos por sua vez investigam os coreanos que analisam os tailandeses e assim sucessivamente (os países não seriam estes o que pouco importa, voltamos à galinha do vizinho que é mais gorda que a nossa). Nós, neste momento temos os finlandeses em alta.

Esta busca é positiva, direi, denota uma insatisfação permanente, uma recusa na acomodação. Lembro-me do encantamento da Christy, uma canadiana que num ano de intercâmbio cultural viveu com uma família portuguesa e frequentou o 11º B em Paço de Arcos, com o nossa organização por turma "one big family, going together everywhere". O sistema canadiano é semelhante ao americano, os alunos inscrevem-se nas disciplinas que pensam serem importantes para a sua formação e o seu currículo e fazem um ensino secundário à sua medida. É a tal questão de não haver chumbos - um bom ponto a favor mas tem este inconveniente na dificuldade na socialização dos alunos mais tímidos pela falta de oportunidades em criarem laços. Terá outros pontos positivos e outros negativos, estes foram os apontados por ela. E bom, vê-se nos filmes.

Reconheci-me na piada, de facto, estou sempre a olhar por cima da vedação, namorando a gorducha alheia.

Acaso feliz, sempre ele, venho de volta para a escola, noto uma figura familiar atravessando uma rua. Fixo com intensidade "tem graça, tão parecido com o Vata", torço o pescoço para trás um pouco na dúvida. Dou nas vistas, olha-me, sorri para mim "Setora!". Era o Vata, aluno há 12 anos em Paço de Arcos. Um querido, outro! "estamos iguais, setora!", injusta "tu não, estás de óculos, quase não te reconhecia".


é o do meio, o de boné

Uma turma de 11º ano de mecânicos e electrotécnicos (junção de dois cursos tecnológicos), só rapazes como seria de esperar (no ano seguinte apareceu uma rapariga, tinha umas disciplinas penduradas) com uma postura invulgar. Enérgicos, alegres, aceitavam todos os desafios. Todos tinham bicicleta e fizemos algumas aulas fora da escola (as aulas eram então de 130 minutos). Combinávamos, eu entregava um papelito no conselho directivo, e ala que se faz tarde. Fomos até ao Estoril, fomos até ao Guincho e aí fazíamos beisebol ou o jogo do disco "à americana".

Por incrível que pareça, fizemos até duas aulas de dança contemporânea! um tratado, aquela turma. No ano seguinte fomos até S. Martinho do Porto fazer actividades náuticas, caminhar, cozinhar, jogar snooker nos cafés da marginal. Um acampamento e pêras, a parte mais trabalhosa foi, sem dúvida, as caminhadas. Aqueles rapazes não compreenderam o conceito "mas caminhar para quê?, qual é a graça, setora de andar aí pelo meio dos montes?". O Vata era o mais inconformado, de tal maneira que, depois do banho, na praia dos Salgados "o caminho é para cima?" e à resposta afirmativa, desatou a correr e só parou no cimo do monte. Não sei quantos quilómetros nem qual é o declive, mas é muito duro. Só mesmo o Vata com a sua resistência fora-de-série, foi o recordista destacado do Cooper, na década em que lá estive.

Formas. Foi um breve momento naquela escola, ou em qualquer outra, presumo, em que um ruidoso grupo de rapazes podia sair da escola, em alegre caravana de bicicletas para ter uma aula na praia, regressar para o Português duas horas depois sem que ninguém se incomodasse com perigos " e se?" ou por outra, sem que os riscos fossem paralisantes.

De algum modo, um clima que me sinto de novo a viver embora em moldes algo diferentes.

Uma galinha rechunchuda a minha/nossa, hoje, ao constatar o que se pode fazer em liberdade.

sábado, 12 de junho de 2010

small is

beautiful.

Era um título de livro que fez furor há uns anos e continua ainda, creio, a ser respeitável. Penso que não o li todo, era também demasiado nova e não voltei a ele, estará na altura. Defende, penso, o conceito de que a gestão local, porque à dimensão do homem que em si é pequeno, é a mais apropriada e a única, ambiental e por consequência economicamente, sustentável.

De cada vez que abro a internet e me saltam os títulos dos jornais aos olhos, dá-me um estremeção. Vem sempre qualquer avaria do ministério da educação que, numa perpétua fuga em frente, nos enterra cada vez mais.

[aflige-me sobretudo desde que conheço algumas das pessoas que para lá vão. Nos primeiros tempos de professora, tinha-lhes o respeito hierárquico, da distância, do desconhecimento. Ingénua, acreditava que no degrau acima da responsabilidade estariam, por defeito, os mais capazes. Não é nada disso, como um próprio ministro da educação disse em tempos, a 5 de Outubro só tem uma solução - arrasar e começar tudo de novo. Agora sei que por lá se entretêm os que não gostam dos alunos nem de dar aulas, que têm aversão aos colegas e às escolas. As trapalhices sucessivas, as alterações constantes de tudo, os pedidos para ontem de informações, as convocatórias para amanhã, as inscrições para um campeonato para agora, denotam uma organização despudorada]

Ontem foram os mega-agrupamentos (em todo o mundo se reduzem as dimensões das escolas), hoje é desonestidade da avaliação dos contratados. Todos sabem que ela foi realizada em condições desiguais de escola para escola. Todos sabem que ela era impraticável de ser realizada com seriedade. Numa das cadeiras que tive na faculdade aprendi que um teste tinha, acima de tudo, de ter duas qualidades - garantia e validade. Esperando que a memória não me atraiçoe (outra boa possibilidade é isto tudo estar mais que desactualizado, no outro dia, disse-me um colega que a questão do enquadramento no basquetebol já não se põe, basta a leitura do jogo), em traços largos: a validade de um teste diz-nos que esse teste está a medir efectivamente aquilo que se pretende medir (por exemplo, se quero medir a agilidade de um indivíduo, tenho de definir com exactidão o que entendo por agilidade e, a seguir, desenhar um teste que meça efectivamente essa qualidade); a garantia diz-nos que a aplicação do teste em condições semelhantes não irá dar azo a resultados significativamente diferentes, isto é, ele garante-nos os resultados.

Voltando à avaliação dos contratados - tal como dos outros aliás - foi feita em moldes tais que os resultados não são comparáveis entre si. Pior, logo à partida, o modelo estava tão mal desenhado que essa impossibilidade era auto-evidente.

E sim, desci a Avenida num dia, subi-a no outro e fui ainda a S. Bento em protesto não pela ideia da avaliação, eu defendo-a embora com intuitos diferentes (não de distinguir o mérito, em educação é difícil "de quem gostas mais é do pai ou da mãe?", somos todos úteis nas nossas idiossincrasias mas de afastar o desmérito, esse sim, um espinho, às vezes um cancro, em qualquer organização) mas isto poderá ficará para uma outra altura.

Agora, dizem, a avaliação dos contratados terá já efeitos neste concurso. Isso significa que os lambe-botas, os espinha-quebrada, só me saem vitupérios em raiva, verão recompensado o seu oportunismo. (não terá sido sempre assim, reconheço-o, estarei a ser injusta em alguns casos, é que todos conversamos "e como foi na tua escola? e na tua? e na tua? alguns serão até excelentes e muito bons? Mas e todos os outros?)

Condições desiguais no micro-cosmos de cada escola não serão impeditivas da colocação de todos no grande saco das colocações nacionais. O pequeno é maravilhoso, terá também perigos, mas para quando a colocação a nível da escola? Ninguém a quer, parece, nem os próprios. Lembro-me de há uns bons dez anos ter tido essa conversa com umas estagiárias em Paço de Arcos. Tinham feito um trabalho muito válido com os alunos e, em conversa de sala de professores, comentei isto mesmo "que pena as colocações não poderem ser feitas pelas escolas". "Nem pensar!"retorquíram" e depois? era a cunha, não tínhamos quaisquer hipóteses". Fiquei na altura muito mal impressionada com a falta de confiança que tinham em si próprias, nem acreditavam no seu próprio valor. Talvez houvesse ali algum pragmatismo.

Enredados nesta grande teia, não vislumbro a solução.




Este intrépido navegador está sempre, bravo e ousado, no seu posto de trabalho. Comove-me esta confiança em nós, em todos nós, por parte do dono deste carro. Está, frequentemente parqueado aqui em frente, no Verão aberto e sem capota. E o hipopótamo (?) aviador ali, pronto para a viagem (esta foto foi tirada bem cedo pela manhã, sossego total na rua, apenas eu e a Pinha passeando).

É um bairro pequenino, projectado à nossa escala. Talvez por isso - mas eu acho mesmo que é pela sua bravura - nenhum ladrozeco de meia tigela o tenha levado.

Porque não confiar?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

a escola normativa

Talvez eu ande cansada, ande a perder o discernimento (tê-lo-ei tido alguma vez?), talvez tenha sido sempre assim, talvez fosse melhor não entrar em justificativos, talvez....

Uma das conferências que mais gostei neste longo ano (ele nem foi longo, pelo contrário, por um lado parece que começou ontem, por outro setembro parece ter acontecido há décadas atrás, tal a sucessão mal-digerida de acontecimentos, ensinamentos, tudo ainda que não termine em ntos) foi



com o conferencista Jorge Ramos do Ó.

Não tomei notas e tenho pena, o professor foi fascinante até pelos termos que empregou. O psiquismo, por exemplo, termo que me evoca o charlatanismo mas que ali nenhuma relação tinha. Ficou-me a questão da escola conservadora, da escola reprodutora da normalidade. A importância de se conhecer a escola que foi para que se perceba a que é e se imagine a que poderá vir a ser.

A vocação instrução - veicular conteúdos, transmitir o saber, a vocação educação relacionada com a moral e o ser. A escola repetidora e a dificuldade de acomodar o pensar diferente.

Já passou muito tempo, deveria talvez ter reflectido sobre isto logo após. Aliás, foi um sentimento unânime de fatia grande da assistência - isto hoje não chega, agora estamos curiosos, estamos alertas, queremos debater, não se vá embora. Mas a escola normativa não se compadeceu e tivemos mesmo de sair. Em obediência à inexorável marcha do tempo, perdoe-se o cliché que ademais aqui é forçado, tratava-se tão só do gongo seguinte para uma outra aula.

É que ontem, enquanto procurava a foto da equipa de volei que sabia existir, dei também com esta. Seria uma boa ilustração para o espírito desportivo e creio que a estava a guardar para esse fim. O Jonas fez parte da turma do 10 i, a minha dt à recepção ao Camões. Foi uma trabalheira durante todo o ano (para ambos) e, de facto, a coisa não acabou bem. Se bem repararem, os seus dedos esticados somam um número - 6.



Foram os valores que o Jonas teve em EF no final do ano lectivo. Mas o que é espantoso, e por isso também esta foto hoje, é que se ele guardou ressentimento, logo o sublimou. Teve de repetir o 10º ano e, por conseguinte, de se afastar daquela turma fabulosa. Nunca cortámos relações, bem pelo contrário, mantivemos uma estima cordial à prova de quaisquer apreciações formais, espartilhadas.

Era um aluno especial, com uma organização muito própria e uma cultura (unanimemente reconhecida por todos os professores) bem acima da média. Isso não obstou a que a instituição não esmorecesse na sua sanha regularizadora. Falo por mim e o meu seis. Deu-me cabo da cabeça todo o ano, alego. Não fez, resistiu, baldou-se, recusou-se e sei lá que mais. Encostou-me à parede, em suma.

Trabalho é trabalho, cognac é cognac, o Jonas soube separar. Um aluno especial, repito. Aqui, dois anos passados, no arraial de final de ano. Não bebemos copos nenhuns (nesse ano não houve bebidas algumas, excepto uma garrafita de champanhe que o André, previdente e porque a ocasião o exigia - o final do secundário, contrabandeou para dentro do bar e foi depois partilhada pelo bando), estávamos em plena posse do nosso controlo.

Uma turma fora de série, um conjunto raro de alunos, numa escola que resiste com galhardia ao pendor normativo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

culturas

No D. Dinis também, tínhamos uma cultura de convívio primeiro, competitividade depois, tudo a par do espírito desportivo. Os alunos eram incentivados a formarem equipas, tantas quantas quisessem dentro da turma (os torneios duravam 3 dias em cada período pelo que havia espaço para todos) e, ainda, a convidarem adultos dentro da comunidade escolar para integrarem as suas equipas. O princípio era que cada um podia apenas participar numa equipa pelo que os professores e funcionários (e havia muitos e muitas a alinharem) tinham de optar. Acontecia então como acontece agora que numa turma se formava uma super equipa; os melhores agrupavam-se e deixavam de fora os mais fracos. Estes que queriam também participar e queriam fazê-lo com tantas chances quantas possíveis (ou seja, não gostavam de ser massacrados), por vezes, convidavam professores. Isso era muito bom pois equilibrava muito os campeonatos. Apareciam sempre os velhos do restelo, aqui d'el rei que não é justo. A resposta do grupo era "e é justo os mais fortes excluírem os mais fracos?" Assim, todos jogam. E era verdade.

Há dois anos, encerrava-se o meu ciclo com a minha direcção de turma, fiz-me convidada para uma das equipas de basquetebol. Simpáticos, os rapazes, aceitaram-me. Foi um escândalo na escola "que não é justo e não é justo e diabo a sete". Ri-me, argumentando com os meus 45 anos (e de mulher) vs os 18 deles (de rapazes). Lá se calaram mas só quando fomos eliminados.



Depois, no volei a equipa, simpática, convidou-me de novo. Não fui nenhuma mais valia, bem pelo contrário e os competidores não se ressentiram. Aliás, fui massacrada com gosto e deliberação pelo serviço poderoso, dirigido de um jovem de um 12º ano de que já não me recordo. As nódoas negras nos braços, essas demoraram em passar.

Foi um privilégio, insistirei sempre nesta tecla, ter sido professora destes rapazes generosos que não olhavam a pontos.

Enfim, saudades...

matrizes

Há cerca de um mês recebo um telefonema de uma colega de educação física de uma escola onde estive no início da carreira. Foi uma sorte, um feliz acaso do destino na lotaria das colocações. Era o terceiro ano que dava aulas e os dois primeiros tinham tido a sua dose razoável de frustração. Miúdos impecáveis em qualquer delas, os miúdos são-no sempre, mas grupos (é o mais importante, repito, educar é um trabalho de equipa) tristes, passivos, acomodados, sem ponta de chama. Com excepções individuais, claro, mas sem capacidade ou vontade de "dar a volta".

Em 85 fiquei portanto colocada no D. Dinis em Chelas. Sorte das sortes, num ano de ouro em que leccionava um lote de professores excepcionais. Falo da educação física, atenção. Fiquei lá dois anos e essa vivência foi marcante. Aprendi imenso com todos eles, foi o meu "estágio" avant la lettre, (viria a fazê-lo alguns anos depois, reforma e contra-reforma, aqui tive azar e fiz um estágio de secretaria - todos os sábados enfiada num anfiteatro a aprender .....nada e a produzir uns trabalhitos teóricos sem valor algum). Se foi bom em termos profissionais e de aprendizagem, foi melhor ainda em relações humanas. Ainda hoje nos encontramos, e sempre como se o último encontro tivesse sido ontem.

Recuperando, telefona-me a Margarida convidando-me para o jantar-surpresa dos 60 anos do Rogério, seu marido e companheiro de "luta". Há dois anos tinha sido o contrário, telefonara-me o Rogério para o jantar dos 60 anos da Margarida. Um improvável casal feliz, discutiam como loucos nas reuniões de grupo e ainda assim separavam bem as águas. Lá fui, feliz e contente.

Findo o jantar, tempo dos discursos. Abre o prof. Hermínio Barreto justificando-se que não lhe parecia bem gozar do jantar sem a paga em troca "dumas palavras", enrola-se nos óculos quando puxa do papel das notas, na sequência improvisa "é uma dificuldade, a dificuldade não atrapalha", parece-me bem, a dificuldade estimula. E fala. Um belo discurso rememorando o passado comum, etc. Escuto-o comovida, o prof. Hermínio é uma lenda na modalidade, foi um expoente na faculdade. Nunca fui sua aluna, não podemos ter sorte em tudo, mas fui algumas vezes assistir às suas aulas.

Espantava-me sobretudo a sua compassividade. Não beligerante, nunca se excitava, jamais se zangou (em público pelo menos) com quem quer que fosse. Paciência a toda a prova, explicava sempre tudo com enorme paciência.

Mais tarde, em Paço de Arcos, acompanhei uma equipa de basquetebol no torneio inter-escolas. Um dos jogadores era o neto do prof. Hermínio. Era tal qual. Em pleno jogo com outra escola, tropeçava e ainda antes do apito, entregava a bola à outra equipa acusando a violação da regra dos passos. Pisava a linha e entregava a bola, dava um toque no adversário e levantava o braço acusando a falta. "Oh Gui, espera que o árbitro apite..." Retorquía "Setora, mas eu fiz passos!" E eu calava-me. Pois se ele tinha razão, afinal não apregoamos nós esse mesmo comportamento?

São pessoas excepcionais, não há muitos como eles. Corre-lhes no sangue como soe dizer-se.

Hoje, na maratona de voleibol, palco de tantas escaramuças, questiúnculas, pequenos conflitos, só pensava "que bom, fazermos estas actividades. Damos afinal oportunidade a estes alunos de se confrontarem com a dificuldade, com a derrota, com a desilusão, com a putativa injustiça da vida e de, irem encontrando dentro deles, mais e melhores respostas.

domingo, 6 de junho de 2010

amigos

A oficina (e deveria estar a falar no plural) não correu de modo nenhum conforme previsto. Começou logo mal com a falta inesperada do nosso operador de som. Logo ele, que estava tão eficiente, que tinha o registo dos tempos, que já dominava o assunto de trás para a frente. Depois, alguém tinha, na véspera, sabotado o equipamento. Levaram o cabo que ligava o amplificador à mesa e primeiro que nós, bimbos, o percebêssemos, levámos dez minutos. Em seguida, mesmo com outro cabo que se desenrascou, as colunas recusaram-se a debitar o mais ínfimo decibel.

Plano B - a outra aparelhagem estava a postos mas teríamos de prescindir do microfone. Assim foi, não veio daí grande mal ao mundo pois a casa estava a modos que para o vazio. Não contei mas penso que se terá verificado um empate, havia tantos formandos como formadores. Pior, em termos do pretendido foi que havia apenas quatro pessoas que apareceram sem estarem em aulas, isto é, todos os outros estavam na aula da educação física.

Bom, estas oficinas foram sempre feitas nessa base, isto é, contactados os profs. de EF em aula e obtido o seu consentimento, era depois feita a divulgação para o resto da escola. É uma questão importante, esta da massa crítica, todos temos essa experiência por exemplo numa feira. Se uma banca estiver apinhada de gente, teremos curiosidade furaremos e lutaremos por uma peça de roupa. Se alguém ao lado a cobiçar, então é quase certo que a compraremos ainda que estejamos na dúvida. (sou de Carcavelos recordo, com larga experiência neste assunto)

Acontece também o mesmo, por vezes, nas aulas. Tenho mais más experiências com turmas muito pequenas que com grandes, independentemente do seus perfis.

Nestas oficinas o número de partida é mesmo importante. É claro que é preferível que todos os alunos estejam lá de moto próprio e muito motivados. Mas é como no "ouvir o silêncio", por vezes têm de ser forçados/convencidos. E depois, o resto fica por nossa conta. Tantas vezes, eles gostam.

Desta vez isso não sucedeu pelo que tínhamos, à partida, menos de 20 aderentes, quase todos da turma H. Valeu-nos o seu entusiasmo, a alegria que puserem na aula, o retorno que deram às suas colegas.

A sessão seguinte não ocorreu pois não apareceram "clientes". Há que tirar as ilações devidas. A divulgação teve a falha que constatámos no dia anterior: os que assistiram às divulgações nos pátios não fizeram a ligação directa para a oficina; algumas meninas a quem eu tentava cativar disseram-me ter percebido que seriam elas próprias a ter de dançar, isto é, perceberam que tinham de apresentar algo. A tal questão da leitura do cartaz, o primeiro provocador não foi lido como nós o escrevemos, o segundo idem, pessoal que vai para Marketing, atenção!

A época é má, estamos todos estafados, foi um ano muito cheio. O ideal para estas actividades é o meio do mês de Maio. Este ano não deu, que se tome nota para o seguinte.

Ainda assim, eu faço um balanço positivo. O produto não se realizou, é certo (não no total) mas o percurso foi bem trabalhado. Estávamos preparadas e a prova é que pelo menos este pedaço correu bem. O outro também teria corrido, tenho a certeza.

Um apreço para a solidariedade dos meninos da turma H que não se inibiram perante o preconceito. Impecáveis!



E o estilo? Céus, impecáveis, mesmo, divertidíssimos! Só por este pedaço já valeu a pena.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

recta final

A nossa última actividade pública deste ano é amanhã. Serão as oficinas de dança em que ensinaremos excertos das peças que nos pareceram mais interessantes e exequíveis. A divulgação foi feita através do clássico cartaz


o tal suporte que por melhor que esteja, isto é por mais bem desenhado que o dito seja, nunca passa a mensagem. Já percebemos isso, estamos todos tão ofuscados pela poluição visual que perdemos a capacidade de discernimento. Excepção feita, é evidente, aos que são colocados logo na entrada e que pela dimensão e destaque, já nos habituámos a olhar "ora, deixa cá ver o que haverá esta semana".

A sugestão de fazermos umas apresentações com uns "lamirés" do que se iria passar no pavilhão foi assim, aceite por aclamação. Ontem, com um calor de morte no primeiro intervalo da tarde dançámos as brasileiras. Não correu mal, as pessoas pararam para vos verem. No final, passeei pelo público apregoando as oficinas (azar aborrecido, a rádio está muda por avaria do equipamento), pareceu-me receptivo q.b.

Hoje, no segundo intervalo da manhã foi bem mais interessante; a hora era outra, estava menos calor, as pessoas mais alertas. Foi giro circular por ali enquanto vos filmava e ouvir para já a identificação imediata "é a área de projecto dança"; depois, o entusiasmo perante a oficina. Veremos se se traduz em presenças amanhã.

De qualquer modo, este modelo precisa ainda de afinação. Não pode ser apenas uma pessoa a fazer o convite boca-a-boca. Teremos de ser todos se bem que o ideal tivesse sido o microfone da rádio. O suporte - cartaz de manifestação também poderia ter sido usado ou mesmo o homem-sanduíche.



O excerto do hula, dança bem mais difícil do que parece, no ambiente ímpar do pátio.

E entretanto, uma nota para a primeira sessão do Festival das Curtas, produção da AP Linguagens e cinema. Curtas-metragens muito boas, este ano! As preocupações técnicas que não sei ajuizar mas que percebi e que deram enorme movimento e drama. Os diferentes planos e suas montagens agarraram a nossa atenção. Muito bem conseguidos também os pontos altos, a tensão bem gerida. Os momentos cómicos conseguidos com inteligência, fabuloso! Adorei o western dos playmmobils, como conseguiram eles fazer aquilo? A banda sonora nesse estava magnífica. E tudo aliás. O rolo da palha que passava a espaços, a imobilidade tensa dos cowboys, as várias personagens que foram entrando, os escorpiões, o cavalinho de plástico, o poncho que se virava com o vento. Espero que ponham nalgum suporte onde possamos rever este "Duelo ao Sol" em versão minimalista. Muito bem, saímos bem dispostos do auditório encantados com a capacidade produtiva dos nossos alunos.

Amanhã haverá a segunda sessão e no dia 7, a destinada aos pais.

Por fim, estes dois dias foram ocasião para reflectir e para aprender. Nada é irreparável, excepto a morte, e, se eu lamento e me arrependo, por outro estou grata pela aprendizagem. E pela flor.

domingo, 30 de maio de 2010

indícios

Os professores primários, no meio da sua labuta diária, devem ter - tal como nós, afinal - momentos muito divertidos. O olhar de uma criança sempre fresco, vê a situação de um outro ângulo.

Um dia, enquanto fazia horas esperando pelas mais velhas, entretinha a mais pequena com os desenhos e as histórias dos cadernos da Vera. Demos com esta, a minha primeira reacção foi rir até às lágrimas - o chapéu como personagem principal, o lobo secundaríssimo, além de ser difícil destrinçar o que está escrito, tantos são os erros - depois, fiquei com a garganta e o coração apertados "céus, esta mãe sou eu, sempre a ralhar por terem perdido isto e aquilo".



Este é um exercício de legendagem; as crianças tinham de colorir e escrever a história a partir do desenho. A Vera tinha então sete anos, agora escreve muito melhor!

Percebi também que ficávamos nus perante as professoras. Os desenhos infantis e as pequenas redacções que escrevem nestes primeiros anos são o reflexo da sua vida diária, interpretam o mundo à sua imagem. Este pobre coelhinho, raladíssimo por ter perdido o chapéu revela uma mãe dura, intransigente.


E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer flores?
Isso é Impulse!
E se, de repente, passados dois anos, um conhecido a "linkar"?
Isso pode, talvez, por hipótese, eventualmente, quem sabe?, indiciar agenda escondida.

a educação do

sentido crítico.

Até há quatro anos não a senti como uma prioridade na minha acção junto dos alunos. Na educação física o problema mais premente em situações de jogo - parte importante como todos sabemos, da aula - é a leitura do jogo. Há uma pergunta recorrente nas aulas e nos testes escritos: num jogo de basquetebol, o que deve o jogador fazer à recepção da bola? A resposta é: 1. virar para o cesto, protegendo a bola; 2. ler o jogo; 3. lançar, passar ou driblar de acordo com a sua leitura da situação.

Há variantes na formulação: a modalidade pode ser outra, a resposta pode ser mais completa mas o essencial é isto, e é com isto que os massacro. Faço muitas vezes a analogia com a vida real, e agora lembro-me de uma turma que tive já nesta escola, constituída só por meninas e com um naipe alargado "com ausência de vocação" para os desportos colectivos. Tentava motivá-las com o argumento ao jeito da sinopse de ontem "a generation with such an overload of information", isto é, a vida real tem tendência a ser mais confusa e agressiva que um jogo de basquetebol. Somos bombardeados com mais informação que aquela que conseguimos processar e, não obstante, somos forçados a dar resposta.
(um parêntese, este ano, para mim, tem sido uma bela ilustração desta situação)

E por isso, dentro do caos, temos de estar treinados para nos virarmos para o objectivo (no basquetebol é o cesto) e sem perdermos controlo da situação (protegemos a bola), fazemos uma leitura tão rápida quanto possível e tomamos uma decisão.

Aquela turma de meninas conseguiu aplicar este princípio e, mesmo sem grande técnica, habilidade ou capacidade física, produziu belos, movimentados e alegres jogos de basquetebol.

Na área de projecto de dança, a leitura do jogo, requisito essencial para um jogo de qualidade, foi substituída pelo sentido crítico. Sem este relativamente apurado, não é possível produzir uma peça de dança com o mínimo de qualidade. É aliás um assunto frequente nas conversas entre alguns professores de Ap ali na escola: o sentido crítico a par dos referenciais que são necessária e legitimamente diferentes nos diversos alunos.

Logo na primeira edição, uma aluna a Ana Santinho sintetizou muito bem o que se pretendeu - Creio que esta disciplina nos educou não só o gosto pela dança mas também o tornou exigente e crítico (...) Ao longo destes meses de trabalho os alunos foram-se educando no sentido de serem mais exigentes consigo mesmos e com os colegas, trabalhando tanto a autonomia como o trabalho de equipa, a pesquisa de informações (...).



Esta peça, por exemplo, não teria sido possível sem este percurso.

sometimes we win

sometimes we loose.

Isto a propósito de New Works #2, apresentado ontem no Alkantara Festival.
Argumentei com "são a melhor escola de dança da Europa" para aliciar a minha filha a vir comigo já que ela é tão renitente quanto eu perante a inovação imposta. Isto é, esta digressão apresenta os trabalhos finais de curso dos alunos da P.a.r.t.s, a escola belga formada por uma famosa coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker.

Teve imensa graça que mais tarde, na tarefa complicada de comprar os bilhetes, estive 45 minutos à conversa com duas simpáticas voluntárias (a propósito, e para quem goste, é uma oportunidade única de participar neste movimento alternativo e em simultâneo ver, sem custos, o que for possível pós-ou-a-par-do-trabalho). Falávamos sobre o espectáculo e uma delas comentou "a melhor escola de dança da Europa". Pois.

Ontem perdemos.
A minha filha menos, tomou a sábia decisão de vir embora ao intervalo, passadas que estavam duas peças. Eu, heróica, fiquei "foram tão más, segundo a lei das probabilidades" (que nem sei qual é, mas fica sempre bem num argumento)"que a segunda parte só pode ser melhor".

Não foi. Lembrava-me de um comentário de uma aluna do ano passado ao espectáculo deste ano, dizendo que "têm pouca dança" e explicou que não se referia às transições mas às peças em si; tinham muito "enchimento" e pouca coreografia. Bom, se ontem, estar ali não tem sido tão doloroso ainda teria brincado com o pensamento "nós estamos é muito à frente"; de facto, se é discutível ter havido ou não dança (no geral, eu acho que não), parece mais consensual que o que se passou ali não foi bonito, não foi belo, não nos dispôs bem. Também não nos dispôs mal, isto é, não nos inquietou, alertou, nada.

"Eles são forçados a inovar" dizia-me a minha filha. Talvez tenha sido sempre assim, talvez eles estejam a desbravar caminho e no futuro, este tipo de espectáculos seja compreendido e bem recebido. Tenho dúvidas porque se a Sagração da Primavera deu origem a motins na hora da sua estreia, ontem a reacção foi mais para a frieza, para a passividade. Palmas é certo, as pessoas batem sempre mas a respiração, aquela sensação que perpassa numa sala quando a emoção é colectiva, não estava lá.

A segunda peça "I have to get ready to get ready" foi a que gostei mais, um pouco também pela sinopse "My generation is defined throught the constant demand to become a better individual, throught the pressure to produce better and stronger personality. A generation with such an overload of information, that it becomes passive. Who are these individuals, and more importantly, what kind of relationship are they entering?". Era dançada por dois rapazes e uma rapariga, sempre muito juntos no mesmo espaço no palco, numa contravenção clara dos princípios da composição, enfim dos clássicos princípios da composição. Percorriam-no todo mas sempre engalfinhados uns nos outros, lembrando por um lado, uma ninhada de cachorros, por outro e nem sei porquê - talvez pela angústia do seu estado permanente de alerta, de quem foge e de quem se esconde, de quem tem medo - o livro "A estrada" de Cormac Mccarthy.

Na tal conversa com as voluntárias, tínhamos trocado opiniões sobre os espectáculos que víramos na véspera. Elas tinham assistido a parte do New works #1, ou seja, ao primeiro lote de alunos. Disse uma, quase desculpando-se "eu não estou muito dentro da dança contemporânea, aquilo foi muito estranho, eu não percebi" e tal e tal. Eu falei-lhes nos rapazes de Niterói, dizendo mais ou menos o que disse aqui. Elas estavam com imensa pena de não terem oportunidade de os ver. Durante a sessão mudei de opinião - os rapazes foram magníficos!

sábado, 29 de maio de 2010

os rapazes de rua

de Niterói.

Na realidade, onde escrevo rapazes, deve ler-se Grupo mas são só rapazes e gosto do nome assim.

Fui ontem vê-los ao S. Luís, espectáculo integrante do Alkantara Festival. Esperava energia, dinamismo e até alguma alucinação; ia também um pouco em busca de inspiração. Com efeito, este ano cheguei a desafiar um grupo de professores para fazermos uma peça. Depois, não tive energia (sempre ela) nem persistência para levar o projecto por diante, eles até foram receptivos.

Em relação às expectativas não saí defraudada. Teve isso tudo. Mas teve também alguns longos momentos repetitivos em que a acção parecia não avançar. O início prolongou-se talvez por tempo excessivo, não havia música o que não ajudava (o som em fundo, desvanecido, era de cidade ou de ensaio como alguém disse). Depois teve picos óptimos, muito muito bons. As corridas alucinantes para trás, os trajectos tangenciais, os breves momentos de sincronia (poderiam tê-los explorado mais), as vezes em que rebolavam em velocidade estonteante constituíram sem dúvida os pontos altos. A música foi também aparecendo e cada vez mais cativante. Pena, não ter havido mais interacção física, os poucos contactos foram tão interessantes.

Lembrei-me do Afonso, do Fábio, do André, do Ricardo que penso, adorariam fazer algo como isto.

No geral, um bom espectáculo e um grupo a tomar nota.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

dar a mão


a alguém na sombra. Ou, talvez melhor, pedir a mão, agarrar uma mão.
Discurso elíptico? Nem por isso. Bem prega Frei Tomás, tenho dificuldade em pedir ajuda e acabo, com frequência, metida em alhadas, trabalhos que se arrastam e não lhes vejo o fim.
Gosto da foto.

terça-feira, 25 de maio de 2010

a nossa ap é

mesmo fantástica. E melhor será não dar mais elogios, :P

Uma imagem da ida ontem ao Rainha D. Leonor numa colaboração graciosa com uma amiga da Nathalia. Ela fez um trabalho sobre o Brasil e, pelo que percebi, ontem havia uma apresentação pública. Esta passava-se no espaço que vemos, atrás das costas daquele banco. Não se pode dizer que tenhamos assistido ao paradigma da organização, a culpa talvez tenha sido nossa (minha, que estava fora do meu posto de trabalho quando me foram buscar) por termos chegado um pouco atrasadas. Bom, eu tinha percebido que a apresentação seria no último bloco de aulas e não no intervalo.

Mas e os factos? A assistência era um pouco mais numerosa do que o que se vê na foto mas, nem de perto nem de longe, suficiente para dar retorno e fazer subir a adrenalina. A música saía de umas colunas miseráveis de computador (pena as organizadoras não terem pedido colaboração ao grupo do lado com um DJ - e respectivo equipamento - profissional e que passou a hora e meio anterior a ensurdecer-nos com o débito da sua "house") e mal se ouvia.

Porém, as meninas não se intimidaram e deram o seu melhor. Fantásticas, quem está pronto para uma actuação naquelas condições está pronto para tudo!

ps. a Grova parece estar descalça mas não, encarnando o espírito do Brasil foi mesmo de chinelos. Ia caindo mas não caiu o que deu novo pretexto à Rita para se desmanchar a rir; foi bom, descomprimiu ainda mais.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

incompetência

criminosa.

Ontem, a convite de uns amigos, estive no Douro, participando na meia maratona do douro vinhateiro. Apregoava o site que era "a mais bela corrida do mundo" e esta seria a melhor edição de sempre. O histórico não é muito extenso, a concorrência não era feroz, para trás apenas 4 provas. Nada de muito difícil portanto.

Começaram logo mal - partida para as 11 horas, no final do mês do Maio na região de Portugal que tinha a fama de "nove meses de inverno, 3 de inferno"; agora, com o aquecimento irá pelos seis/seis. Nesta época, com o sol a nascer pouco depois das seis da manhã, quem se lembra de dar a partida para uma corrida, num vale, quase cinco horas depois?

O trajecto, lindo, lindo, e simpático também sem subidas nem descidas de monta, com dificuldade se poderia candidatar a uma "mais bela" já que tem ida e volta. Quanto a mim, uma mais bela seja do que for, não deve repetir caminho.

Mas este seria um mero detalhe. A grande questão aqui foi um mau planeamento dos abastecimentos, ao que se juntou o conformismo. Não se preocuparam sequer em emendar a mão enquanto podiam, não tentaram dar resposta.

Sob o sol inclemente da partida, vi logo o caso mal parado (dou-me muito mal com o calor); parti devagarinho, muito mais que é habitual, numa gestão do esforço que me levasse à chegada. Foi avisado, bendita experiência, pois só tive direito a água no primeiro abastecimento. Em todos os outros, que não eram muitos já não havia água pois fiquei logo no pelotão de trás. Aos 5 km ainda havia umas bebidas alaranjadas e azuis, preferi apanhar uma garrafa do chão e depois......mais nada nem sequer na meta. A organização esgotou as existências. E o que mais enervou, foi que foram tendo informação disso e não conseguiram providenciar umas paletes que fosse. Em vinte minutos teriam conseguido enviar um carro a um supermercado, enchiam-no das ditas e iam pagar depois. Fomos vendo as pessoas a caírem, "burros!", dirão "porque não paravam simplesmente?". Porque ninguém vai para uma prova destas para desistir. O objectivo primeiro (e último) é sempre cruzar a meta. Para a grande maioria, o tempo é secundário.

Valeu-nos a prontidão, a simpatia, a solidariedade popular. Um senhor aos 6 km, com a sua mangueira a fazer de aspersor esteve ali dando-nos banho, quais elefantes encalorados. Os bombeiros da Folgosa tinham também um auto-tanque a fazer o mesmo serviço (já estava previsto) e depois, foi a safa de muitos de nós, aos 17 km, um senhor com outra mangueira, esta ligada a uma mina fresquíssima, ao lado da estrada a fazer de fonte. Parávamos, ordenados em bicha, íamos andando de boca aberta e ele enchia-nos o depósito. Caricato, maravilhoso.

Dois quilómetros depois já desidratados de novo (34°, sem vento, humidade relativa perto dos 30%, parece) um grupo de gente expedita, tinha agarrado em tudo o que era garrafas do chão (teria existido ali em tempos um posto de abastecimento), enchia-as em jarros que traziam de suas casas e estendiam-nas. Uma imagem fabulosa, uma senhora velhota, abraçando nos braços um molho grande de garrafas que apanhara do chão, trotando em direcção aos jarros! Impressionante, a capacidade de reacção que tiveram aquelas pessoas ali. Não se limitaram a comentar em desgosto, passaram à acção. Boa gente.

E se não tivessem sido elas, estou convicta que as baixas teriam sido superiores.

Quando chegava à Régua, falava nos altifalantes o director da corrida. Pedia desculpa e assumia ali a responsabilidade da falha. Tudo muito bonito mas se alguém se tem passado mesmo, e podia ser sucedido, não havia remorsos que lhe valessem. A temperatura estava alta fazia uma semana, o número de inscritos estava nos 10 mil (na véspera, quando fomos levantar o dorsal ainda se aceitavam inscrições), a hora e o local não eram negociáveis. Não sei que contas fez ele (às garrafas de água), há-de haver tabelas; mais que tudo, aflige-me, ter tido várias horas para resolver a situação e não o ter feito.

Não teve projecto, não teve área de projecto, não teve nunca que planear uma actividade do princípio ao fim, pensar em todos os azares possíveis, preparar um plano B ou c, não levou nunca na cabeça. Aqui nem era uma questão de azar, não se tratou de um ciclone ou de uma catástrofe natural, tudo era previsível.

Acham-me uma chata, a maior parte das vezes. Em vista destes acontecimentos, fico sempre a pensar que não o sou em suficiente.

Adenda

A prova de domingo tinha um aliciante muito forte: é que o percurso era, em parte, o mesmo que percorremos o ano passado. Iniciáramos no Pinhão no dia anterior, aqui passávamos em frente à Régua, à meta, na manhã do segundo dia da nossa expedição. Tem sempre outra graça passar no mesmo sítio vendo a paisagem de uma diferente perspectiva. Viajando lento.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

nathalia


emergindo das brumas.

Assim queria eu estar, também.

Uma bonita foto. E não só.

terça-feira, 18 de maio de 2010

flops

Estou sempre a bater na mesma tecla, parece que o piano só tem uma. Há-de passar, espero que passe.

Refiro-me ao elogio do falhanço. Li no outro dia, e já não sei onde, é pena, poderia citar agora aqui, que nos Estados Unidos os negócios que falharam abrem os currículos vitae dos que procuram emprego. Na Europa, sucede o contrário - vêm os sucessos à cabeça e os falhanços, a virem (raramente vêm) lá no final. O redactor justificava esta diferença referindo que a alta consideração que os americanos nutrem pelas empresas que falham, que vão à falência, é suportada também pela banca (a outra parte é o espírito aventureiro dos americanos que arriscam, arriscam sempre) . Voltando à banca: esta, através dos seus fundos está preparada para enfrentar os embates, logo os empreendedores azarados ou aselhas não ficam acorrentados até ao fim da vida às suas dívidas. Aliás, é até frequente haver pessoas orgulhosas dos seus vários "flops".

O artigo dizia ainda que esta situação, com a crise do ano passado, tem tendência a mudar. A "almofada" já não é tão generosa, sendo expectável que o falhanço venha a perder popularidade.

Isto hoje a propósito do flop do cartaz que se pretendeu intrigante e que visava uma pré-divulgação da nossa oficina de dança. A ideia foi boa, a execução já não pois não alcançou os resultados. Podemos aprender com este falhanço. Por exemplo, há algo que as empresas fazem antes de lançar um novo produto que é uma teste a grupos-alvo. Dão a experimentar, por vezes, fazem reuniões onde põem as pessoas a debater quais os factores que as levam a optar por esta ou aquela marca, assistem a um filme e vêm as reacções. Nós limitámo-nos a imaginar aquilo que as pessoas iriam pensar e não testámos, nem sequer connosco próprios. Tão importante como uma boa ideia é depois a sua execução.

Faremos melhor da próxima vez.


Uma imagem que irá, em princípio, ser a base do cartaz de divulgação das nossas oficinas deste ano. Que aliás, têm andado em bolandas de uma data para outra e ainda não se fixaram.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

os jovens e

a política

Este pretenso (e promissor) debate começou por uma sugestão de um aluno e foi depois organizado pelo director da escola.
O primeiro obstáculo foi o do costume - o relaxismo costumeiro (ali na escola) na hora de início (não tenho memória de algo, no auditório, ter começado antes de 15 minutos decorridos sobre a hora aprazada) e a propósito, eu faria uma tentativa de educar o público. Avisando, relembrando, insistindo, avisando novamente .......e fechando as portas 5 minutos depois da hora marcada para o início.
Depois - e eu não me apercebi disso mas concordo com a observação - a existência de um folheto que divulgava os resultados de um inquérito aplicado a alguns alunos da nossa escola e que pretendia"recolher informações relativamente ao interesse dos jovens pela política, à participação na mesma e, simultaneamente, avaliar os seus conhecimentos políticos.", fez divergir o foco do debate. Isto é, os deputados e representantes dos partidos políticos que tinham sido convidados, sobretudo, com o intuito de informarem os alunos acerca das políticas dos respectivos partidos para a juventude (bom, temos de reconhecer que o próprio título do evento convidava ao equívoco), agarraram-se aos resultados apresentados no folheto e ignoraram, olímpicos, as tímidas perguntas dos moderadores.

Em seguida - terceiro obstáculo - embalados, meteram a "cassete". A representante do Bloco de Esquerda foi a primeira a falar; repetiu várias vezes que a iniciativa (do debate) era extremamente importante, extremamente importante, extremamente importante, riscou o disco, bloqueou o que quer que seja. Uma seca, adormeceu-nos a todos com os seus chavões. Depois teve a palavra o representante do CDS um pouco mais vivo e preparado mas sem sair da "chapa 4". E cada vez mais adormecidos, fomos tentando sobreviver até à fase do debate. Sejamos justos, e concordando ou não com o seu discurso - eu não concordo! - o moço do PSD foi mais directo, tentando fugir ao modelo imposto. A fechar, a pérola do PS, nem de propósito pareceu escolhida a dedo para vender o programa do governo.

Por fim, chegada a vez do debate, ou melhor, do público colocar as suas questões. As primeiras, baralhadas, pouco objectivas, não se percebiam sequer muito bem. E depois, aquilo que começa a ser mania, de começarem por congratular os prelectores "agradecendo a sua exposição tão esclarecedora" ou serei eu talvez que nunca fico assim tão esclarecida e que encontro tantas vezes falhas, ia dizer inúmeras, não exageremos.

Outra irritação, o hábito das palmas. Parecemos macaquinhos amestrados, reflexo de Pavlov, seja lá o que for, cada vez que alguém se cala, lá vêm as palmas correctas. Impressiona-me o aplauso sem sentido, neste caso sem sentimento. O olhar divaga, a atenção não está ali, no entanto, logo que o palestrante se cala, um estremecimento de quem desce à sala seguido de uma saraivada de palmas. Não há qualquer sentido crítico.

Que foi aliás, uma das questões que ainda se tentaram debater - a escola forma o sentido crítico?, a escola ensina a pensar?, a escola está adaptada e a adaptar-se aos tempos de hoje?

Há sempre a excepção, há sempre algo que faz valer a pena ter lá estado. No caso, o conjunto de questões colocadas por dois alunos no final (já a sala estava por um quinto mas que importância tem isso? Nenhuma, o problema ali foi estarmos todos exaustos e famintos, quando por fim, o interesse apareceu) e a afirmação / provocação de um deles, em resposta a uma intervenção da representante do PS:

"Se nos contentarmos com o "é melhor agora que no fascismo", então pronto, está bem", isto é, com o mal dos outros podemos nós bem, estava talvez na altura de 36 anos depois, deixarmos de usar esse argumento e olharmos em frente, para os lados, para qualquer ângulo excepto para trás.

Fez-me lembrar a minha amiga Mª João, a mais internacional das minhas amigas - a que sendo portuguesa tem vivido mais tempo lá fora - e que já não pode ouvir esse argumento do "tempo do fascismo".

De modo que de em obstáculo em obstáculo chegámos ao fim com um sentimento de frustração. Uma boa ideia que morreu na praia. Tentar de novo, sem dúvida, noutro modelo e com outra preparação e envolvimento.

terça-feira, 11 de maio de 2010

faça você mesmo

poderão não ser alternativas viáveis em larga escala mas que são inspiradoras, isso são.