segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

vocações

Em conversa de família e a propósito já não sei de quê, dizia o meu irmão mais velho que as organizações têm vocações próprias. Interrompi-o rindo, "sim, a nossa escola nitidamente tem uma vocação de produção cultural. São as conferências, as palestras, os concertos, o teatro, nem sabemos para onde nos havemos de virar".

Seria um estudo de caso interessante, a nossa escola. Quando cá cheguei, em 2005, lembro-me de palestras várias sobretudo na área das ciências (infelizmente agora algo adormecidas) quer na biblioteca, quer no auditório. Assisti a uma linda sessão de poesia e música organizada por um grupo de alunos em autonomia total; recordo-me de um ciclo de cinema organizado também apenas pelos alunos e que incluía filme mais conversa informal.

A riqueza dos espaços - ainda mais que o auditório, a biblioteca é um espaço acolhedor, propicia a conversa próxima, a troca, a partilha - aliada à generosidade dos dois extremos: os que se dão ao trabalho de organizar e os que vêm graciosamente inquietar-nos os espíritos, tem fomentado ao longo dos tempos esta vocação.

O auditório em si, constantemente solicitado pelas mais variadas instituições, diversifica ainda mais a nossa agenda. Como se isso não bastasse, temos agora, de novo, as caves.

Nesta semana, na quinta-feira (é sempre nas segundas 5ªs feiras do mês) irá ocorrer a terceira sessão do ciclo dos 100 anos do Jazz. A primeira teve uma vocação didáctica: falar-nos do jazz, por-nos a ouvir jazz, a aplaudir jazz, a contextualizar a sua evolução dentro das várias convulsões da história do século vinte. A segunda já foi nas caves, o repertório Dixie (anos 20), um ambiente escuro de clube nocturno. Nessa noite, por azar, tínhamos cedido o auditório à Sociedade de Língua Portuguesa para esta realizar um espectáculo comemorativo dos seus 60 anos. Os nosso técnicos são enérgicos mas não se desdobram de modo que estive no auditório auxiliando (na realidade, pouco passou de apoio moral) a São, que sim, correu acima e abaixo ajustando o som. Eu brinquei um pouco com as luzes, o espectáculo metia cantoria (um alegre trio sem nome), um belo coro de Coimbra e dois momentos de poesia pura.

Pena não termos um termo (ou serei eu que não conheço) um termo que evoque o tom certo que alguns raros talentosos (muito trabalho também pela certa) têm ao dizer poesia. Não declamam (uff!), não recitam, não se exibem. As palavras transbordam deles vindas de lá longe, neste caso, de África. Elsa de Noronha poeta e dizedora da sua e da de outrem, comoveu-nos e arrepiou-nos. Foi para mim o momento alto da noite.

Um dos poemas, O batuque das mulheres negras, um portento de perícia e sentimento. A gravação não lhe faz justiça como também não faria o filme. faltar-lhe-ia a respiração suspensa de todos nós, os pelos em pé em admiração por aquela mulher com problemas de mobilidade, que subiu com cautela os degraus para o palco, que pousou a bengala para numa mão segurar o texto (que raro olhou, diga-se) e na outra o microfone.

O Zé Alvega esteve no outro lado filmando o Jazz, há um esforço sério de, acompanhando o espírito do tempo, deixar registado para memória futura e consulta no presente (não temos a menor hipótese de conseguir assistir a tudo), todos os eventos culturais. Por exemplo, a última palestra do "século de literatura" parece que foi muito boa.

(coloco aqui de novo o cartaz, acho uma delícia a ideia do retrato dos escritores enquanto jovens)
Teve a presença do próprio Urbano, vivaz e interessante naquela mesa azul.