sábado, 10 de outubro de 2009

tunga

"Onde é que eles estão? Estão à vista ou estamos só a ouvi-los?", pergunta uma, mais baixinha e entaipada por dois homens altos.
"Estão ali ao fundo, debaixo do terceiro arco, estão outra vez na pouca-vergonha", responde a outra, alta, esticada acima das cabeças da frente, rindo-se.

Um diálogo sussurrado na escuridão das caves e logo atrás "Tunga!" numa voz jovem masculina, rindo-se também, enquanto os dois actores se engalfinhavam numa cena de discoteca. De facto, duas cópulas seguidas, pares diferentes é certo, em duas cenas sucessivas prenunciavam a inspiração em (maus) filmes de todo o não enredo. Fomos, caves fora, seguindo as cenas, tentando encontrar uma nesga entre corpos, arcos e cabeças para ver os actores. Não era fácil, numa delas, perdi mesmo o único momento cómico da noite. Com efeito, na cena da banheira, ouço uma gargalhada geral, vejo sorrisos nas caras dos espectadores mas os actores estavam ambos ocultos pelo arco, não vi.

Não é o facto de não haver história, isso não tem qualquer importância. Também não é por não haver diálogos, havia e imagino que bem representativos - nada diziam entre si as personagens. O que me irrita sempre são os clichés dos meneios, a boca entreaberta, a cabeça deitada para trás, a respiração entrecortada como se a atracção física, o desejo animal, a sensualidade (se tivermos mesmo que utilizar esta palavra), tivessem uma só expressão.

Andarmos de local em local acaba por ser a melhor parte ainda que nalgumas não consigamos visão sobre o "palco"; o constante movimento colmata a falta de interesse de tudo aquilo. E não é a "pouca-vergonha" que salva o Dominó, a pseudo-transgressão do sexo simulado em palco há muito que não passa disso mesmo - pseudo.

Também posso ser eu que estou a ficar velhota e/ou a peça se restrinja a um outro público alvo.

Quanto aos 100 anos de dança, que afinal, visto o cartaz à lupa, prometiam até bastante - teria sido uma sucessão das danças sociais mais emblemáticas de cada década: charleston, tango, boogie, rock, twist, faz-vos lembrar alguma coisa) - não se realizou. Por lesão da bailarina principal que partiu o dedo do pé (?) mais doença da substituta, não percebi muito bem, era tudo demasiado confuso para além das óbvias coincidências.

Não obstante, e recuperando o tema do teatro, vale a pena ir até lá. Amanhã há uma representação, contando que uma das actrizes recupere. A cena inicial de hoje teve um incidente inesperado e a protagonista deu uma cabeçada violenta no tecto. Teve ânimo e profissionalismo para terminar a cena, mas contam que foi de seguida evacuada pelo INEM, nossos sempre presentes parceiros, para o hospital.

As caves, as lanternas, as velas, o incenso, as sombras, os espectadores seguindo as cenas por todo o lado, fazem-nos sentir, nós próprios um pouco actores de um filme underground nova-iorquino. Só por isso, uma noite ganha.