Foi uma precipitação, bem intencionada é certo mas de boas intenções está o inferno cheio. Se para os da terceira edição parece relativamente simples - ainda têm nos olhos, na cabeça, no corpo - os circuitos e a memória de cada uma das peças, para os da segunda edição já não é bem assim. E para os da primeira, bom, para esses ainda por cima sem quaisquer registos vídeo (mea culpa, mea culpa, esfaqueio-me no peito como faz a prof. Bárbara) o Dança, Camões! assim com exclamação e tudo, passou-se já noutra dimensão.
A Marlene utilizou uma expressão feliz "uma realidade paralela" referindo-se à azáfama das primeiras semanas na universidade. Percebo-a bem, não obstante não ter tido essa experiência em primeira mão. No meu tempo a transição era muito suave ou teria sido talvez assim no curso que tirei.
Isto das comemorações também tem o seu quê, uma tonta de uma expressão que quer dizer o quê? Enrola-se em si própria, algo que não gostaríamos que nos sucedesse. Os álbuns Best of têm, em geral, o desprezo dos puristas, dos verdadeiros amantes dos grupos. Perdem a alma pelo que percebo (eu sou consumidora, tenho vários Best of na minha curta discoteca, é a tal versão economicista). É capaz de ser cedo para um Best of do Dança Camões e, vendo bem, nunca será o momento certo, a tal história das águas do rio. Seguem o seu caminho inexorável, não regressam jamais ao mesmo ponto a não ser que as forcemos.
Poderemos sim, fazer outra coisa qualquer. Parafraseando de novo a Marlene, porque não uma "escapadela bem divertida?"
E depois, ou agora mesmo, olhando o futuro.

Estive os últimos quatro dias em Vila do Conde, assistindo ao Campeonato Europeu de Ginástica Acrobática. Foi ainda uma outra realidade paralela, uma imersão num estranho mundo. Feito de brilho cintilante, maquilhagem, lantejoulas. Dificuldade e concentração, sorrisos, orgulho, convicção. Dor e trabalho por detrás, mazelas pressentidas (outras bem à vista) e depois, no final, a alegria de ter dado o melhor.
É uma modalidade curiosa (quase) com o melhor das diferentes áreas: o desporto e a arte. Obriga a uma condição física apurada, tem uma dificuldade imensa de coordenação, um risco sempre presente; é um desporto de grupo, não tem confrontação directa (leia-se, não há contacto físico com o adversário, ou seja, o maior adversário são eles próprios). Depois, vai beber à arte a expressão, a graciosidade, a intenção, o drama, o sentimento. Nada tem de mecânico, ou se o tem, não se vai longe na pontuação.
Terá contras, é certo, um código incompreensível para o comum dos espectadores e noventa por cento dos praticantes, um dado ao calhas mas que talvez se não afaste muito da realidade), uma classificação totalmente dependente de um juízo de terceiros.
Em baixo, o par misto belga, fantásticos na interpretação, irrepreensíveis na execução. Arrebatadores, deixaram o pavilhão rendido a cada actuação.

Fotos, cortesia de Sérgio Mateus.