segunda-feira, 26 de outubro de 2009

vitalidade

O programa das comemorações dos 100 anos é ambicioso, creio já o ter dito, e aliás é consensual. Nem tudo o que lá consta vai acontecer - vide, por exemplo, a mensagem anterior com o cancelamento de algo que me/nos diz directamente respeito - o que é de lamentar. Ainda assim, a riqueza de tudo o que já aconteceu e do que - temos a certeza - irá ocorrer, transmite-nos uma sensação de completude. E dá-nos a ideia (penso que adequada) que as comemorações foram o pretexto para algo de maior.

Há de tudo - palestras, debates, conferências, concertos, teatro, ópera, exposições, instalações e sei lá que mais.

Começou com uma Sessão Solene que pretendeu - e conseguiu - ser isso mesmo: Solene. Aperaltámos-nos, cabeleireiros, saltos altos, risco nos olhos, gravatas, casacos, sapatos engraxados, todos muito bonitos. Flores, copos com água, mesas drapeadas, pena alguns discursos terem sido tão expectáveis. E logo pelas pessoas com maiores responsabilidades, tão vazias de ideias, secas de emoções. Depois, o espanto perante a debandada geral, o abdicar da parte que poderia - e foi - ser mais viva, mais interessante. Como disse uma professora abismada "um espectáculo caríssimo, sim! porque ver as pessoas que actuaram noutro contexto custaria um dinheirão". Verdade, e elas vieram graciosamente, porque tinham sido alunas, porque a escola lhes foi importante, porque - de algum modo - ainda têm essa dívida imaterial.

Na semana passada uma quinta-feira de arromba. Uma palestra/debate pela manhã em que o arquitecto Ventura Terra foi lembrado pelo Verador do urbanismo da CML, arq. Salgado e o novo projecto para a nossa escola foi aflorado pelo arq. Falcão de Campos. Evasivo este, assertivo aquele, foi uma ocasião rara para pensarmos questões que nos afectam a toda a hora. Falta sempre o tempo, parece, nestas ocasiões para se aprofundar um pouco mais, faz parte do formato, não há volta a dar-lhe.

Porém, à tarde, o formato perfeito - uma fusão concerto/aula. Bom, não aula, mais uma apresentação, uma introdução a. Falo do concerto de Jazz Multimédia protagonizado pela JB Jazz, uma escola de Jazz. Fantástico, falaram-nos sobre Jazz, trouxeram excertos, pequenos filmes, tocaram peças representativas de cada estilo, ensinaram-nos a aplaudir. E isto tudo com enorme inteligência e bom humor. Adorei! Uma mistura ímpar de profissionalismo, paixão, frescura. Virão todos os meses, valerá a pena estarmos atentos.

O programa é extenso, como sabemos, não será possível irmos a todas. A ter de escolher: JB Jazz de certeza, uma aposta ganha.

Uma escola a regurgitar de vitalidade, indo ao passado e logo regressando, um saltinho aqui no presente, uma janela para a frente, um ano que vai passar a correr.

a tempo se declara

que o Best of Dança Camões 2007-2009 está cancelado.

Pareceu-me uma boa ideia mas qualquer ideia parece boa no calor eufórico do foyer após terminarmos uma sessão nocturna de qualquer um dos nossos Dança Camões. (todas as sessões nocturnas correram muito bem, o facto de lá estarem - para além dos pais - os "antigos", os predecessores, contribuiu)

Uns estão no terceiro ano da faculdade, outros no segundo, outros ainda no primeiro. Em Lisboa, em Portalegre, agora em Viseu e eu sei lá que mais, mesmo que a ir dormir a casa, a dispersão é inevitável. Seria uma imprudência, alguns grupos valentes estavam prontos mas o número aqui é mesmo importante.

Depois, como creio já ter dito a alguém, a própria ideia de Best of de algo na primeira infância padece, em simultâneo, de alguma arrogância e ingenuidade. O projecto é demasiado recente por um lado; por outro, best of soa sempre um pouco a requentado. É como nos álbuns de música: é raro os best of serem bons, falta-lhe com frequência " a alma".

Posto isto, tenho pena. Teria sido tão engraçado ver alunos de três colheitas diferentes trabalhando em conjunto nos bastidores, nos corredores, confraternizando lá atrás.

Boa ideia, boa ideia, será quando se fizer um grupo da escola, trans AP's, quem quiser aparece, antigos, actuais, futuros. Derivando...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

piroseiras



A senilidade tem uma fase má - a que a antecede. Temos consciência do disparate mas não sabemos como evitá-lo; vamos em frente um pouco envergonhados mas presumindo que nos perdoarão.

Um conjunto bom de fotos - o olhar do prof. Pedro de informática - com uma canção muito linda num resultado deplorável. Ainda assim aqui fica. Podemos fazer o exercício de ver as fotos com o som desligado, podemos ouvir a música com outra página aberta.

domingo, 18 de outubro de 2009

dias bonitos

Foi um dia bonito na escola, o passado dia 16.
Teve a inauguração do jardim com as flores da prof. Fernanda Lebres e seus alunos de artes, um projecto executado no ano lectivo passado. Teve a entrega dos diplomas de 12º ano aos alunos que terminaram em Julho, inaugurou-se a exposição do arq. Ventura Terra em simultâneo com objectos do espólio e museu da escola, houve a apresentação e venda do livro dos 100 anos, e houve, sobretudo, o regresso à escola de todos quantos quiseram e puderam.

A partir das três da tarde começou-se a viver uma efervescência que foi crescendo à medida que se aproximavam as 17.30, hora para começar a sessão solene. O ginásio encheu-se de cabeças brancas e outras nem tanto, cá fora na esplanada ficaram os alunos mais novos que assistiram em directo (ficaram bem melhor servidos - viam e ouviam bem, estiveram ao fresco todo o tempo; dentro do ginásio a partir de dois terços do espaço não se ouvia bem, o som não tinha boa qualidade, estava muito calor).

Os discursos, com algumas excepções foram decepcionantes. Os dois últimos então, demasiado longos, sem uma ideia própria, politizados (propaganda no caso da Ministra, clichés estafados no caso do Presidente) deram o golpe de misericórdia num público que me espantou. Com efeito, não imaginaria que prescindissem daquilo que considerei a melhor parte - a parte cultural - a dança, a música, a declamação de poemas, o canto.

Não só o programa em si e pelos artistas terem todos sido alunos do Camões, como pelos apresentadores que também o tinham sido. Esperar-se-iam histórias dentro da história e foi isso que veio a suceder. Beatriz Batarda de uma simplicidade cativante, Jorge Palma cheio de sentimento e genica, algo tímido porém, não conhecia essa sua faceta. O Maestro do Lisboa Cantat com umas histórias engraçadíssimas entre canções, Ana Paula Russo generosa, alegre, bem disposta, profissional, dando o seu melhor com uma sala que se esvaziava. E depois, todos os improvisos, uns apresentadores a chamarem um outro que não estava previsto mas que afinal estava ali na sala, porque não?, um clarinetista que não estando no programa inicial, insistiu em tocar de novo naquele palco e com um encore auto-proposto pôs toda a plateia a rir (com um solo em que o clarinete ria, ria troçando de uma professora antipática). Jorge Silva Melo (que foi aluno) com a sua voz encantadora lendo-nos Mário Dionísio (que foi professor) e fascinando-nos.

E, os primeiros de todos, "os nossos meninos" como diz carinhosamente a D. Olinda, a D. Fernanda, como dizemos nós também, professoras. Os nossos corajosos meninos, convidados no dia anterior e que responderam sim, à chamada. Um plano B, quando o A falha, e que resulta afinal tão bem. Melhor até porque feito com gosto, com alegria, porque sai de dentro, porque é genuíno. Curiosamente, vim para casa lendo o livro (sim, também não resisti, comprei-o logo) e vejo tantas citações às turmas B. Uma prática reprovável, claro, e que já não se pratica - a de arrumar os alunos por notas. A turma B era sempre dos bons alunos, aliás um testemunho (creio que o próprio Jorge Palma) refere que começou na turma B e acabou na E.

A safra B de 2009 foi excepcional, disseram todos os professores, não pelas notas, sim pelas pessoas. Uma turma memorável e parte importante dela foi da "dança".

Obrigada meninos pela prontidão, pela generosidade, pela entrega. Era importante para a escola do presente que a sessão fosse aberta pelos alunos do presente. De modo nenhum se quereria concluir que antigamente é que era quando nós sabemos que agora se é e que o futuro está bem entregue.

Parabéns por serem como são.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

solenidades

Como acontecia frequentemente a muitos dos nossos avós, o registo de nascimento não corresponde ao dia do feliz acontecimento. Na maior parte dos casos tinha a ver com fuga às multas, o assento erróneo como consequência do eterno adiar. Com a nossa escola, o motivo terá passado com dificuldades em colocar o mobiliário, com a requisição de professores, nada que não continue sucedendo nos dias de hoje. Não obstante, o Lyceu Camões foi terá sido dos poucos edifícios - de sempre - que foi construído dentro dos prazos e do orçamento. Fantástico! Mais fantástico ainda manter-se de pé, com uma solidez tal de construção que integrou apenas o terceiro lote de escolas a irem "para obras", sendo que outras com pouco mais de trinta anos estavam de tal modo desfeitas que nos precederam.

O programa para o ano todo é muito ambicioso e completo. É opinião consensual que é um programa equilibrado na medida em que pretende lembrar e celebrar mas também apontar em frente. Se apela à nostalgia de todos quantos passaram por lá, aí cresceram, se formaram, se tornaram homens (também houve os que odiaram e não querem sequer ouvir falar) ou mulheres (houve mais mulheres do que se pensa, ao longo dos tempos), pretende ainda abrir portas para uma outra sensibilidade cultural, despertar para a cidadania e para a intervenção. Em menos palavras, se é saudosista (e eu discordo em absoluto que o seja) está também muito assente no presente, nos alunos e adultos de hoje, mantendo um foco no futuro.

O dia de amanhã será o de maior tensão. É a abertura com uma Sessão Solene, dedicada sobretudo aos alunos do passado. Irão à escola as "altas individualidades" que é óbvio queremos impressionar; o desafio maior estará, porém, nas dezenas de cabeças brancas que andarão de nariz no ar, olhando tudo, comparando com o respectivo tempo, contando histórias, relembrando episódios. A esses queremos dizer que continuamos tão bons ou melhores, afinal ninguém quer ficar para trás.

As festividades começam às 16 horas e terminam às 20 com um beberete no refeitório. Programa aqui.

A escola foi inaugurada, de facto, no dia 8 de Novembro.

sábado, 10 de outubro de 2009

tunga

"Onde é que eles estão? Estão à vista ou estamos só a ouvi-los?", pergunta uma, mais baixinha e entaipada por dois homens altos.
"Estão ali ao fundo, debaixo do terceiro arco, estão outra vez na pouca-vergonha", responde a outra, alta, esticada acima das cabeças da frente, rindo-se.

Um diálogo sussurrado na escuridão das caves e logo atrás "Tunga!" numa voz jovem masculina, rindo-se também, enquanto os dois actores se engalfinhavam numa cena de discoteca. De facto, duas cópulas seguidas, pares diferentes é certo, em duas cenas sucessivas prenunciavam a inspiração em (maus) filmes de todo o não enredo. Fomos, caves fora, seguindo as cenas, tentando encontrar uma nesga entre corpos, arcos e cabeças para ver os actores. Não era fácil, numa delas, perdi mesmo o único momento cómico da noite. Com efeito, na cena da banheira, ouço uma gargalhada geral, vejo sorrisos nas caras dos espectadores mas os actores estavam ambos ocultos pelo arco, não vi.

Não é o facto de não haver história, isso não tem qualquer importância. Também não é por não haver diálogos, havia e imagino que bem representativos - nada diziam entre si as personagens. O que me irrita sempre são os clichés dos meneios, a boca entreaberta, a cabeça deitada para trás, a respiração entrecortada como se a atracção física, o desejo animal, a sensualidade (se tivermos mesmo que utilizar esta palavra), tivessem uma só expressão.

Andarmos de local em local acaba por ser a melhor parte ainda que nalgumas não consigamos visão sobre o "palco"; o constante movimento colmata a falta de interesse de tudo aquilo. E não é a "pouca-vergonha" que salva o Dominó, a pseudo-transgressão do sexo simulado em palco há muito que não passa disso mesmo - pseudo.

Também posso ser eu que estou a ficar velhota e/ou a peça se restrinja a um outro público alvo.

Quanto aos 100 anos de dança, que afinal, visto o cartaz à lupa, prometiam até bastante - teria sido uma sucessão das danças sociais mais emblemáticas de cada década: charleston, tango, boogie, rock, twist, faz-vos lembrar alguma coisa) - não se realizou. Por lesão da bailarina principal que partiu o dedo do pé (?) mais doença da substituta, não percebi muito bem, era tudo demasiado confuso para além das óbvias coincidências.

Não obstante, e recuperando o tema do teatro, vale a pena ir até lá. Amanhã há uma representação, contando que uma das actrizes recupere. A cena inicial de hoje teve um incidente inesperado e a protagonista deu uma cabeçada violenta no tecto. Teve ânimo e profissionalismo para terminar a cena, mas contam que foi de seguida evacuada pelo INEM, nossos sempre presentes parceiros, para o hospital.

As caves, as lanternas, as velas, o incenso, as sombras, os espectadores seguindo as cenas por todo o lado, fazem-nos sentir, nós próprios um pouco actores de um filme underground nova-iorquino. Só por isso, uma noite ganha.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

nas caves

O programa refere apenas o dia 10 mas pelo que percebi as actuações vão estender-se por três dias, sendo a estreia já amanhã. Não sobe à cena, sim desce às caves (ena, que trocadilho tão fácil), a peça Dominó.

É mais um exercício (do que uma peça) disse alguém. Em qualquer dos casos, uma oportunidade para reentrar nas catacumbas da escola. É (foi) um espaço belíssimo, assassinado por arquitectos (seriam?) sem coração há uns três anos, aquando do reforço da estrutura do edifício. Perderam a aura em favor do progresso, enfim, sejamos justos, da solidez e segurança. Não quereríamos que, a um abalo rotineiro, ruíssem as paredes sobre nós.

O grupo, pelo que percebi, surge na sequência de um de teatro escolar da Escola Maria Amália. Algo que os nossos mais recentes - falo dos últimos quatro anos - esforços ainda não produziram. Não por falta de vontade dos alunos, pareceu-me, outros constrangimentos terão sido mais pesados. Este ano, pelo contrário, um pequeno embrião já arrancou e tem trabalhado às quartas-feiras, desta feita no sotão.

Quanto ao Dominó, uma sinopse apelativa, diria. Ao encontro de muitos pulsares de tantas protagonistas dos vários Dança Camões.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

abrindo o programa

Começa esta semana, sexta feira no auditório, pelas oito da noite. O espectáculo intitula-se "100 anos de dança" e é produzido e protagonizado pelo Grupo de Dança do banco de Portugal.

Poria aqui um cartaz mas não tenho a versão digital. De qualquer forma está muito mauzinho, de fraca legibilidade e não fará (espero) jus ao espectáculo.

A entrada é livre e uma das peças é o Mamma Mia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

olhar o futuro

A nossa escola faz este ano 100 anos. É um número muito redondo, apela à festa. O programa é ambicioso e eu, no embalo da euforia de fim de festa, de muitos acumulares de olhares brilhantes em anos sucessivos, incluí o tal "Best of".

Foi uma precipitação, bem intencionada é certo mas de boas intenções está o inferno cheio. Se para os da terceira edição parece relativamente simples - ainda têm nos olhos, na cabeça, no corpo - os circuitos e a memória de cada uma das peças, para os da segunda edição já não é bem assim. E para os da primeira, bom, para esses ainda por cima sem quaisquer registos vídeo (mea culpa, mea culpa, esfaqueio-me no peito como faz a prof. Bárbara) o Dança, Camões! assim com exclamação e tudo, passou-se já noutra dimensão.

A Marlene utilizou uma expressão feliz "uma realidade paralela" referindo-se à azáfama das primeiras semanas na universidade. Percebo-a bem, não obstante não ter tido essa experiência em primeira mão. No meu tempo a transição era muito suave ou teria sido talvez assim no curso que tirei.

Isto das comemorações também tem o seu quê, uma tonta de uma expressão que quer dizer o quê? Enrola-se em si própria, algo que não gostaríamos que nos sucedesse. Os álbuns Best of têm, em geral, o desprezo dos puristas, dos verdadeiros amantes dos grupos. Perdem a alma pelo que percebo (eu sou consumidora, tenho vários Best of na minha curta discoteca, é a tal versão economicista). É capaz de ser cedo para um Best of do Dança Camões e, vendo bem, nunca será o momento certo, a tal história das águas do rio. Seguem o seu caminho inexorável, não regressam jamais ao mesmo ponto a não ser que as forcemos.

Poderemos sim, fazer outra coisa qualquer. Parafraseando de novo a Marlene, porque não uma "escapadela bem divertida?"

E depois, ou agora mesmo, olhando o futuro.



Estive os últimos quatro dias em Vila do Conde, assistindo ao Campeonato Europeu de Ginástica Acrobática. Foi ainda uma outra realidade paralela, uma imersão num estranho mundo. Feito de brilho cintilante, maquilhagem, lantejoulas. Dificuldade e concentração, sorrisos, orgulho, convicção. Dor e trabalho por detrás, mazelas pressentidas (outras bem à vista) e depois, no final, a alegria de ter dado o melhor.

É uma modalidade curiosa (quase) com o melhor das diferentes áreas: o desporto e a arte. Obriga a uma condição física apurada, tem uma dificuldade imensa de coordenação, um risco sempre presente; é um desporto de grupo, não tem confrontação directa (leia-se, não há contacto físico com o adversário, ou seja, o maior adversário são eles próprios). Depois, vai beber à arte a expressão, a graciosidade, a intenção, o drama, o sentimento. Nada tem de mecânico, ou se o tem, não se vai longe na pontuação.
Terá contras, é certo, um código incompreensível para o comum dos espectadores e noventa por cento dos praticantes, um dado ao calhas mas que talvez se não afaste muito da realidade), uma classificação totalmente dependente de um juízo de terceiros.

Em baixo, o par misto belga, fantásticos na interpretação, irrepreensíveis na execução. Arrebatadores, deixaram o pavilhão rendido a cada actuação.



Fotos, cortesia de Sérgio Mateus.