Assistir a uma cena destas - um ensaio de ópera num ginásio decrépito nas vésperas de comemorar os seus cem anos.
Mais ter tido o privilégio de trabalhar dois dias com um acompanhamento musical variado, este programa afinal. Uma escola viva, aberta, frondosa.
Um ambiente mágico hoje com a lua no seu melhor, uma temperatura amena, Puccini escapando-se pelas janelas abertas do ginásio para os pátios desertos.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
galinhas
"a galinha do vizinho é mais gorda que a minha", um provérbio que, creio, pretende retratar a nossa dificuldade de isenção. Temos sempre alguma dificuldade em nos destacarmos de nós, tendemos a avaliar tudo em relação à nossa pessoa.
[Uma situação que se repete uma e outra vez na sala de professores é a queixa/apelo à nossa compaixão de um director de turma (uma, é sempre uma) em relação a uma aluna com dificuldade em educação física; termina invariavelmente com um comentário suspirado, um desviar de olhos em direcção ao infinito, a voz num sopro "eu percebo, eu também nunca tive jeito nenhum para a educação física" Tenho sempre vontade de responder "pois eu sempre tive muito jeito para francês, inglês, português, o que quer que seja que a DT leccione", enfim um chutar para canto desnecessário neste contexto de hoje.]
Comecei o texto de ontem, muito virtuosa, convencida que os 10 por cento já cá cantam, quase que nem vai ser preciso fazer nada, cortar em nada. Ao escrever apercebi-me que não é verdade, bom aliás o pressuposto nem é esse como eu aliás ontem destaquei. Que sejamos todos capazes de cortar 10 por cento. A ideia é agregar vontades, juntar massa crítica de tal ordem que provoque a avalanche que o governo se veja forçado a acompanhar. Escrevo e vejo a quantidade de coisas que não me vejo capaz de abdicar. Trabalhar perto de casa por exemplo. Estava perto de casa, poderia estar à distância de quinze minutos a pé e preferi vir para bem longe a bem da alegria no trabalho (seria do sentido da vida?).
Uma questão pirosa esta (a propósito da qual recomendo um livro de que gostei muito na adolescência A servidão humana, de Somerset Maugham. O personagem principal é atormentado por ela durante grande parte da história; não direi a conclusão a que chegou, seria estragar o filme para o caso de alguém ir ler) com resposta para todos os gostos. Ou fases da vida. Há também Bill Bryson já citado por um bem disposto comentador que diz que a vida quer viver. Não desiste, não baixa os braços, nunca se rende. A questão é (outra questão agora) que tipo de vida?
Pois é aqui que Franny é muito positiva "esta vida". E vai mais longe ao afirmar que esta (a sua) geração é a única com a tarefa, a missão de a defender. À de antes (à minha) o problema não se pôs, à seguinte (aos seus/vossos filhos) não se vai pôr pois não haverá nada para defender. Isso é-lhe muito estimulante e é isso também que eu acho fabuloso nela e em todos como ela. Os que mergulham e se dedicam, sem tréguas, ao combate.
Ontem usei um termo um pouco pejorativo - alucinada - referia-me à rapidez com que fala e às palavras que engole que nos obrigam a voltar atrás para ouvir segunda vez (percebe-se, a urgência a isso a obriga). O alucinado veio também da conversa das compras, das vidas tristes das pessoas em empregos estéreis. Como se não houvesse outros caminhos, há tantos. Como se fosse preciso que as vidas das pessoas fossem de uma banalidade sem esperança e que este problema viesse trazer-lhes a salvação pelo sentido que lhes traria.
Pelo contrário, a magnitude é de tal ordem que exigirá a contribuição de todos tenham, ou não, as suas vidas sentido. Por isso, disse que serem as motivações de cada irrelevantes. Por exemplo, parece consensual que a produção e o consumo de carne não poderão continuar a crescer, devendo mesmo decrescer. Tanto dá que as pessoas abdiquem de comer carne pelas implicações na sua pegada carbónica ou por questões de filosofia/direitos dos animais. Do mesmo modo, o transporte individual em veículo motorizado. Tanto dá que as pessoas abdiquem por claustrofobia dentro da lata num pára arranque constante como pela pegada.
E por aí fora.
[Uma situação que se repete uma e outra vez na sala de professores é a queixa/apelo à nossa compaixão de um director de turma (uma, é sempre uma) em relação a uma aluna com dificuldade em educação física; termina invariavelmente com um comentário suspirado, um desviar de olhos em direcção ao infinito, a voz num sopro "eu percebo, eu também nunca tive jeito nenhum para a educação física" Tenho sempre vontade de responder "pois eu sempre tive muito jeito para francês, inglês, português, o que quer que seja que a DT leccione", enfim um chutar para canto desnecessário neste contexto de hoje.]
Comecei o texto de ontem, muito virtuosa, convencida que os 10 por cento já cá cantam, quase que nem vai ser preciso fazer nada, cortar em nada. Ao escrever apercebi-me que não é verdade, bom aliás o pressuposto nem é esse como eu aliás ontem destaquei. Que sejamos todos capazes de cortar 10 por cento. A ideia é agregar vontades, juntar massa crítica de tal ordem que provoque a avalanche que o governo se veja forçado a acompanhar. Escrevo e vejo a quantidade de coisas que não me vejo capaz de abdicar. Trabalhar perto de casa por exemplo. Estava perto de casa, poderia estar à distância de quinze minutos a pé e preferi vir para bem longe a bem da alegria no trabalho (seria do sentido da vida?).
Uma questão pirosa esta (a propósito da qual recomendo um livro de que gostei muito na adolescência A servidão humana, de Somerset Maugham. O personagem principal é atormentado por ela durante grande parte da história; não direi a conclusão a que chegou, seria estragar o filme para o caso de alguém ir ler) com resposta para todos os gostos. Ou fases da vida. Há também Bill Bryson já citado por um bem disposto comentador que diz que a vida quer viver. Não desiste, não baixa os braços, nunca se rende. A questão é (outra questão agora) que tipo de vida?
Pois é aqui que Franny é muito positiva "esta vida". E vai mais longe ao afirmar que esta (a sua) geração é a única com a tarefa, a missão de a defender. À de antes (à minha) o problema não se pôs, à seguinte (aos seus/vossos filhos) não se vai pôr pois não haverá nada para defender. Isso é-lhe muito estimulante e é isso também que eu acho fabuloso nela e em todos como ela. Os que mergulham e se dedicam, sem tréguas, ao combate.
Ontem usei um termo um pouco pejorativo - alucinada - referia-me à rapidez com que fala e às palavras que engole que nos obrigam a voltar atrás para ouvir segunda vez (percebe-se, a urgência a isso a obriga). O alucinado veio também da conversa das compras, das vidas tristes das pessoas em empregos estéreis. Como se não houvesse outros caminhos, há tantos. Como se fosse preciso que as vidas das pessoas fossem de uma banalidade sem esperança e que este problema viesse trazer-lhes a salvação pelo sentido que lhes traria.
Pelo contrário, a magnitude é de tal ordem que exigirá a contribuição de todos tenham, ou não, as suas vidas sentido. Por isso, disse que serem as motivações de cada irrelevantes. Por exemplo, parece consensual que a produção e o consumo de carne não poderão continuar a crescer, devendo mesmo decrescer. Tanto dá que as pessoas abdiquem de comer carne pelas implicações na sua pegada carbónica ou por questões de filosofia/direitos dos animais. Do mesmo modo, o transporte individual em veículo motorizado. Tanto dá que as pessoas abdiquem por claustrofobia dentro da lata num pára arranque constante como pela pegada.
E por aí fora.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
os primeiros 10
por cento "são fáceis", diz ela. Qualquer um pode lá chegar, basta reduzir um pouco aqui, um pedaço ali. O que custa é chegar aos 30, 40 por cento. Subscrevo, reconhecendo, como ela, que para mim é fácil. Não gosto de compras, somos praticamente vegetarianas aqui em casa, não usamos aquecimento (algumas excepções, lá em cima no sótão e apenas para que se consiga dormir, a lareira uma dúzia de noites), o carro está parado à porta a maior parte dos dias, férias de avião uma vez a cada três anos. Há algumas melhorias na calha - janelas duplas e isolamento lá em cima quando houver um pé de meia, desfazer-me da máquina de secar. Desistir por completo do carro será mais difícil embora ele ande a colaborar (já afirmei alto e bom som que quando este se finar não compro outro, veremos se serei capaz de honrar). Escrevo tudo isto e vejo afinal que tenho um imenso espaço para corte.
Uma miúda apaixonada, e, sobretudo honesta. Sem pejo em confessar o seu embaraço pelo paradoxo da campanha: desde que a começou o que a leva a viajar de uma ponta à outra do globo a sua pegada carbónica tem aumentado. A própria realização do documentário "A idade da estupidez" ?será a idade do estúpido?) obrigou-a a vender a alma ao diabo. Lembrei-me da discussão sobre a "coisa" promovida pelo Maca.
Gosto também do seu entusiasmo pelo desafio. Um pouco alucinada é certo, como se o desastre anunciado nos (vos?) viesse salvar de uma vida condenada à futilidade de magnas decisões como comprar uns ténis nike. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, porém as motivações de cada um aqui são irrelevantes, o que interessará mesmo será o resultado final. Que depende mais de cada um de nós e da força colectiva do conjunto de todos nós (perdoem as redundâncias, pretende-se aqui o tom enfático) que de medidas que os governos não querem/podem/ousam tomar.
Uma miúda apaixonada, e, sobretudo honesta. Sem pejo em confessar o seu embaraço pelo paradoxo da campanha: desde que a começou o que a leva a viajar de uma ponta à outra do globo a sua pegada carbónica tem aumentado. A própria realização do documentário "A idade da estupidez" ?será a idade do estúpido?) obrigou-a a vender a alma ao diabo. Lembrei-me da discussão sobre a "coisa" promovida pelo Maca.
Gosto também do seu entusiasmo pelo desafio. Um pouco alucinada é certo, como se o desastre anunciado nos (vos?) viesse salvar de uma vida condenada à futilidade de magnas decisões como comprar uns ténis nike. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, porém as motivações de cada um aqui são irrelevantes, o que interessará mesmo será o resultado final. Que depende mais de cada um de nós e da força colectiva do conjunto de todos nós (perdoem as redundâncias, pretende-se aqui o tom enfático) que de medidas que os governos não querem/podem/ousam tomar.
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