segunda-feira, 17 de agosto de 2009

tolerância, bom senso e passeios

rebaixados são uma combinação (tão amiga do ciclista) de que hoje senti falta. De regresso à labuta diária depois de alguns dias "na estrada", enfrentava de novo a rotina casa-a-pé-comboio-metro-a-pé-escola, escola-a-pé-metro-comboio-a-pé-casa. Quando introduzo a bicicleta fico com um percurso mais animado e é isso que vou fazendo com intervalos mais ou menos curtos.

Já não me lembrava da chatice que é (e do ritmo que se perde) o acto de subir o passeio. A maior parte do percurso é feito na estrada mas evito, como é óbvio, os pontos de maior movimento. Aí, atalhando por exemplo as grandes rotundas (não me passaria pela cabeça fazer a do Marquês às horas em que lá passo), vou pelo passeio. E tenho de subir e descê-lo e depois subir o outro e voltar a descê-lo. Não tenho vocação de bêtêtista e não me esforço por dar aqueles saltos para os subir. Acabo assim por ter de desacelerar constantemente.

Em Espanha pelo menos no norte, todos os passeios rebaixam na extremidade. Podemos assim seguir em cima, atravessando as ruas entre eles, com um desperdício mínimo de energia. É um encanto para as bicicletas, para os carrinhos de bébé, para as cadeiras de rodas, para os carrinhos de compras (também sinto essa dificuldade, tenho um daqueles de rodinhas).

Depois, alia-se a boa vontade para com os velocípedes. Não ouvi nunca "vai para a estrada" como já ouvi aqui "as bicicletas não são para andar em cima do passeio". Dir-me-ão "ah, mas os passeios aqui são estreitos, é natural que a tolerância tenha menos lugar para se exercer." É verdade. Também é verdade que a falta do bom senso do ciclista apressado não concorre para o bom entendimento, prejudicando "toda uma classe". Um bocadinho daqui, um bocadinho dali e lá iremos.

Esta foto não será o melhor exemplo de todos, as bicicletas aqui eram tantas que o "paseo" estava, inclusivamente, delimitado. Não era a norma, os passeios largos sim, uma agradável variação da estreiteza a que estamos acostumados.


Nota: tenho tendência para cair na glorificação do "lá fora". Bom, sempre com bons exemplos diria. Também é para isso que se viaja - para se ver outras coisas e trazer boas ideias para cá. Ainda assim, e para equilibrar, um episódio:

Estava ansiosa com a história de levar as bicicletas no comboio. É que o seu transporte só seria permitido desde que devidamente acondicionadas e se o compartimento fosse todo ocupado por nós. Isto é, teríamos de comprar todos os 8 bilhetes, um custo incomportável, um luxo das Arábias. De modo que resolvi arriscar, confiando na boa vontade e tolerância do revisor. Que houve. Viu-nos carregar as caixas (tínhamos ido cedo para a estação numa tentativa de as introduzirmos discretamente no comboio, seria sempre mais aborrecido expulsarem-nos a meio da viagem) não disse nada. Passou várias vezes pela nossa carruagem ainda o comboio não tinha partido e mais outras tantas nas primeiras horas de viagem. Finalmente, quando nos pediu os bilhetes "as bicicletas são vossas?", estava careca de o saber, "são". "Sabe que não as podem levar assim". Fiz-me de parva "mas no site diz que se estiverem devidamente acondicionadas..." "Sim, mas apenas se ocuparem em regime familiar todo o compartimento. Mas pronto, deixe lá, eu vou fechar os olhos e depois falo com o meu colega espanhol a ver se ele passa também".

A CP é muito generosa (cada pessoa pode levar gratuitamente uma bicicleta) mas a norma é impossível de cumprir. Se um grupo de oito amigos reservar em regime familiar um compartimento, será natural que o façam se todos forem andar de bicicleta. E, num compartimento, não cabem oito bicicletas mais oito pessoas por mais desmontadas que estejam (umas e outras). O revisor sabe-o, naturalmente. E por isso ignorou-as até não lhe ser mais possível e depois sim, fez o seu papel. A bem dizer, pelos padrões de hoje, elas incomodavam um pedacito. Iam no corredor, as pessoas tinham de se espremer para passarem. Mas eu ainda tenho na cabeça as viagens épicas, no mesmo comboio, há trinta anos e os corredores na altura eram trilhos de montanha. Tinha de se trepar por cima dos malões, evitar as pessoas que dormiam esticadas no chão, era todo um outro filme.

A empresa salva pela simpatia e bom senso dos seus funcionários, algo que talvez "lá fora" não tivessem feito. Não nos teriam deixado embarcar, as normas são para se cumprirem. Algo que subscrevo por inteiro. Assim a norma seja exequível, inteligente.