Devia ser ao contrário (cresci em África nos primeiros anos) mas não é. Dou-me mal com o calor, a onda, esta, está por fim a passar.
Aqui em casa abrem-se as janelas - ao mundo e suas criaturas - assim que passam as mordeduras de Janeiro, fecham-se quando o frio é já insuportável. Novembro, Dezembro, varia. Atrás temos um baldio, um querido baldio com vida genuína. Nunca dei por ratos, mas há-os com toda a certeza, coelhos também, cobras sim vêem-se, corujas ouvem-se e vêem-se, é fabuloso.
Um pouco depois da primavera chegaram as andorinhas, fazem voos rasantes do lado da rua. Por qualquer razão fazem todos os ninhos nos beirais poentes. Um destes dias, de manhã cedo ouço uma comoção na cozinha, um gritinho seguido de uma restolhada, parecia um livro a ser sacudido com violência. Não acudi, sabia a Ana a ler na mesa, imaginei-a a tentar afastar um insecto. Perdi uma boa oportunidade, era afinal uma andorinha mais desgovernada que entrou pela janela e depois não conseguia sair. Quando cheguei, a Ana já as tinha escancarado, libertando-a.
Ontem, chego tarde da escola, vejo ao lusco fusco uma lagartixa no tecto do meu quarto. Hesito em a deixar ficar, quem sabe uma aliada nas minhas batalhas nocturnas com melgas e seus compadres, depois lembro-me das histórias de elas, fatigadas, se despegarem caindo sobre os incautos. Já me basta a mosquitada. Tento tirá-la de um golpe com a vassoura para a devolver "lá fora". É claro que não resulta, há-de andar algures pelo quarto. De noite elas não têm muita energia, espero que hoje recupere e encontre, por si só, a saída.
Enfim, uma animação. A alvorada aí está e mais um dia.