Numa conversa, há muito anos, o meu primo dizia qualquer coisa como isto "os juízos de valor são a maior fonte de conflito entre as pessoas" e discorreu um bom pedaço sobre o assunto. Fiquei a matutar nisso, volta e meia lembro-me dessa noite em que discutíamos estes originais e profundíssimos assuntos enquanto vagueávamos pela rua.
Um julgamento de valor é uma apreciação subjectiva sobre algo, subjectiva porque baseada num ponto de vista pessoal. É, se quisermos, uma conjectura.
Ao darmos valor e emitirmos juízos baseados em impressões / opiniões e não em factos, embarcamos por vezes em equívocos tremendos. A literatura está cheia deles, as mais das vezes trágicos. (também os há deliciosos mas as histórias subsequentes são menos interessantes) O efeito grupo distorce-nos a clareza, prejudica-nos a isenção do olhar, tolda-nos o raciocínio. Há aquela cena tão engraçada no Clube dos Poetas Mortos em que o professor pede aos alunos que andem, no pátio, de modos diferentes. Nem todos conseguem "é difícil manter as nossas convicções debaixo do olhar dos outros", comenta o professor. É verdade. Nós fizemos bastantes exercícios nesse sentido. Não terão ainda resultado a 100%, temos tempo de maturação diferentes.
E não é fácil.
(com o Manuel Campos, aquele treinador de quem fui adjunta, tive uma experiência rica neste campo. Tínhamos umas divergências acerca de umas atletas, um dia discutíamos mais acesos a convocatória ou não de duas delas para um jogo. Eu entendia que ele tinha uns pré-juízos sobre elas, tinha má vontade vá, e por isso não as queria convocar. "Não, repara- disse ele - é ao contrário. Tu é que tens, tu é que tens umas ideias feitas e queres decidir com base nelas. Ora repara nisto......" e desmontou-me ali os meus argumentos. Ele tinha razão, eu tinha uma opinião favorável sobre as miúdas e cega, desvalorizava as suas falhas perante os factos indesmentíveis. Desculpava-as por questões pessoais e familiares que nada tinham a ver com os seus desempenhos dentro da equipa)
Não é fácil mas podemos tentar. E depois o desperdício quando abdicamos de usar os nossos neurónios em favor dos do vizinho.
Alargando os horizontes mesmo que, como aqui, num poço incógnito no meio da serra.