terça-feira, 19 de maio de 2009

efemérides

Celebram-se hoje - 19 de Maio - 100 anos da estreia dos Ballets Russes, no Théâtre du Châtelet em Paris.

Excertos do jornal Público de ontem:

"(...) a dança como hoje a concebemos nasceu em grande medida a partir do sucesso que foi a primeira noite transformada em 20 anos de actividade consecutiva da primeira grande companhia de dança independente do mundo. Sem os Ballets Russes o século XX teria arrancado (...) sem a ideia de que os criadores de várias áreas, da música às artes plásticas, podiam sentar-se a trabalhar juntos para um mesmo fim.
Picasso, Matisse, Braque, Miró, Dalí, Stravinsky, satie, Cocteau - todos colaboraram com eles (...) e preparava o terreno para que décadas depois pudéssemos vir a conhecer nomes como Lucinda Childs, Trisha Brown, Merce Cunningham e Pina Bausch.
"Os Ballets Russes transformaram o ballet numa forma de arte moderna e vital", resume a investigadora norte-americana Lynn Garafola. "A ideia de que o estilo pode ser transformado, que não tem que ser a Bela Adormecida ou o Lago dos Cisnes como o [Marius] Petipa estava a fazer [na Rússia do século XIX], a ideia de que o ballet pode basear-se na expressão corporal e incluir a ideia de pesquisa, de procura de novas formas, que deve estar ligado à contemporaneidade, qualquer que ela seja, a ideia de que uma companhia não é um museu, nasce às mãos de Sergei Diaghilev", conclui esta especialista."

Estiveram em Portugal em 1917 (creio aliás que já falei nisso aqui) num período agitado da história europeia (revolução russo, plena 1ª Grande Guerra) e da nossa (sidonismo e 1ª República). Apresentaram vários espectáculos, sendo que o Sol da Meia-Noite, de Léonide Massine terá sido o mais perturbante, como se pode constatar por esta crítica que saiu na altura:

"Uma fantasia de manicómio, indiscutivelmente caricatural. O impenetrável simbolismo deste bailado causa espanto. Espécie de ode futurista, concebida por farsantes e dançada por malucos, esta peça de baile interessa pelo ineditismo dos seus processos, pelo contorcionismo alvar a que obriga os seus intérpretes e pela originalidade dos seus trajes. O cenário não vale nada."

O Público não menciona mas já li várias vezes descrições dos motins que a Sagração da Primavera causou na estreia em 1913.

Fascinante o impacto de um espectáculo nas pessoas de modo a estas, indignadas, revoltarem-se a ponto de perturbarem a ordem pública. Fascinante.

Adenda: um aspecto fundamental que ontem me esqueci de referir foi o pioneirismo dos Ballets Russes no destaque dado aos bailarinos. Com efeito, no século dezanove, os ballets eram montados sobretudo para as bailarinas, os homens eram acessórios ou suportes "best suporting role...", aqui numa acepção literal. Com os Ballets Russes os homens passaram a ter papéis centrais nos bailados.