domingo, 3 de maio de 2009

dançar no tempo

Estou a frequentar, neste fim de semana alargado, as 1ªs Jornadas de estudo da Dança Antiga Portuguesa. É organizado pela Associação Danças com História e o tema é a reconstituição da única Dança Baixa (ou Basse Danse) portuguesa conhecida - La Portingaloise.

Hesitei em inscrever-me - o cursinho é pago a peso de ouro, eu não - acabei por decidir-me em função da professora que já conhecia de outras andanças no norte, num curso de dança antiga há dois anos atrás. Cecília Grácio Moura é chamada de Mestra pelos elementos da Associação; é-o com inteiro mérito, não só pelo conhecimento profundo que tem da matéria como pela sua postura tranquila, paciente, não confrontante. Muito pontual - chego como sempre quinze minutos antes, já lá está com o cd a tocar, preparada para a aula. Conduz com método, vai lendo os participantes, sempre atenta e aberta a inflexões de percurso.

Hesitei também pelo conteúdo limitado: três dias a aprender uma única dança?

Já tinha tido experiência de danças renascentistas - A Pavana, entre elas - aprendiam-se numa tarde, praticavam-se na manhã seguinte e, conhecendo-nos participantes entradotes, não seria a repetição no outro dia e meio que iria melhorar substancialmente os resultados. Compreendam-me, em qualquer idade tem de haver pausa entre repetições ou acaba-se a repetir e a consolidar o erro; a partir dos quarenta pior um pouco.

Ir, foi uma decisão acertada. De facto, a coreografia está aprendida - trata-se apenas de memorizar trinta passos - agora executá-los a preceito é outra história. As Basse Danses eram danças da corte, concebidas para mostrar a magnificência dos nobres dançarinos e impressionar os convidados ou visitantes. Eram lentas e majestosas e cada passo tinha de encaixar no tempo com exactidão. A postura e a respiração eram fundamentais assim como o olhar. O rigor e a precisão do movimento, o destaque da sua característica intrínseca que o destacassem dos demais, executadas com alma, leia-se a partir de dentro.

Estou a descrever afinal preocupações bem actuais de todos os dançarinos; mesmo o lento e majestosos aplicam-se por vezes. É difícil executar com sentido àquela velocidade: qualquer indefinição / imprecisão ganha proporções tremendas.

Os participantes, com excepção de mim, fazem todos parte da associação pelo que são bastante conhecedores e esmiúçam todos os detalhes. A propósito do qual, esclareci com a Cecília a questão da posição das mãos na Pavana. A resposta fica num ponto intermédio entre a minha ideia inicial e a que terminámos fazendo - a mão da senhora sobre o a do homem, antebraços juntos apontando o chão (45º aproximadamente, um pouco à imagem da manchete embora aqui a senhora repouse o seu braço sobre o do homem para melhor se deixar conduzir).

Para além dos detalhes, tem sido muito proveitoso porque a Cecília não se contenta com o manual, prefere criar a inovar respeitando o espírito. Passámos a tarde em evoluções coreográficas com imensa transferência para qualquer outra peça. E depois, o retorno às raízes dá-nos outra dimensão do presente.

Amanhã, iremos terminar a La Portingaloise e fazer uma perninha nas Haute Danses; eram assim chamadas por serem mais saltitadas a alegres, eram dançadas pelo povo que não tinha pergaminhos a defender.