terça-feira, 7 de abril de 2009

podemos

fazer a diferença. Todos nós. Um de nós de cada vez.

Deparei-me agora com este site Quero andar a pé! Posso? uma resposta espantosa para uma luta antiga e, pensava eu, solitária.

Quando comecei a conduzir nos meus vinte anos fazia como toda a gente, estacionava onde havia lugar, passeio, rua, era igual. Nunca me ocorreu fazer de outra maneira, deixar o carro em cima do passeio era banal, todos o faziam. Talvez tivesse atenção para não bloquear as portas dos prédios, francamente não me lembro. Depois, a minha amiga Maria João que tirou um curso esquisito - Física e tinha o sonho da astronomia - saiu de Portugal, primeiro para França, depois para Inglaterra. Andou lá por fora anos e anos, viu outras coisas. Regressava de vez em quando com maravilhosas receitas novas (da Provence, sobretudo) e com um olhar mais educado. Ensinou-me que não tem de ser assim, que ser civilizado é uma opção. Mais tarde, regressou com um namorado (português, mas também na ronda de cidadão do mundo) que levava estas coisas muito a peito. Pertencia a uma organização cívica que combatia - através da acção individual de cada um dos seus membros - candidamente os carros sobre os passeios. O João escolheu a sua, ignorava-os. Era um rapaz atlético, magro, passava simplesmente sobre eles. Chegou a ter alguns conflitos, claro, de donos que por acaso regressavam ou tinham acabado de sair (ou estavam ainda lá dentro) dos seus carros. A agilidade safou-o, creio, de cenas de pugilato mais sérias (seco e leve como era, sairia com boa probabilidade a perder). Entretanto, saiu do país por vários anos, quando regressou vinha menos combativo.

Tinha-me entretanto pegado o desconforto, nunca mais fui capaz de não reparar e de não dizer nada. Uma luta inglória como são todas as solitárias. Na época de Natal quando os carros obstruíam a rua onde vivia obrigando-me a ir para a estrada com as minhas três filhas muito pequenas, imprimia umas notas que colocava nos limpa para-brisas. Assinava, colocava a minha morada e tudo. Sem qualquer efeito prático. Em todas as corridas populares vestia a minha t'shirt da organização do João "não estacione em cima dos passeios, lembre-se de todos (tinha o desenho de uma cadeira de rodas)". Sem quaisquer efeitos práticos. Tive algumas pegas com colegas de escola, nunca tive jeito para passar a mensagem sem hostilizar.

Mas agora há um movimento. Será desta que damos este passo no sentido da cidadania?


(as coisas esquisitas que aqui acontecem, o autocolante era, é amarelo)

Só mais uma historieta, esta com graça, o típico humor britânico.

A Maria João esteve quatro anos em Manchester a fazer o doutoramento. Depois voltou, esteve por cá uns anos, voltou a sair, enfim não é isso que é importante. No decorrer de uma temporada em Portugal, recebeu a visita do seu supervisor. Mostrou-lhe Lisboa, Sintra, os arredores. Ele gostou imenso, comentando apenas que o afligia muito ver os cócós dos cães por todo o lado e os carros em cima do passeio. Teceu algumas considerações sobre as indicações que isso dava sobre o nosso grau de civilização. De Lisboa seguiu para a Alemanha e foi daqui, que telefonando para a Maria João, lhe contou que também ali se viam (contrariamente à última visita dele uns anos antes) os carros em cima do passeio. Terminou com "dog shit must be on it's way".