sábado, 18 de abril de 2009

oficinas

Ensinar aguça-nos o espírito, cristaliza-nos o saber e descobre-nos a ignorância. Cito bastante esta afirmação de João Lobo Antunes (in Um modo de ser) embora a modifique um pouco, transportando-a para a primeira pessoa do plural ao invés da terceira do singular tal como foi proferida pelo autor. Não há dia nenhum em que no decorrer das aulas a não sinta em qualquer detalhe fundamental, todos os detalhes o são. Na quinta feira, por exemplo, com o pormenor da pega na Pavana.

Ensinar descobre-nos a ignorância, sem dúvida; por melhor que preparemos as aulas, nunca dominamos todos os assuntos à exaustão. Aguça-nos o espírito, saímos de lá como feras da jaula, furiosos por saber mais, saber melhor. Vamos logo à procura da informação, este erro não volto a cometer, este assunto vou conhecer melhor. E depois, cristaliza-nos o saber. Preparamos-nos tanto, ensaiamos, repetimos, esmiuçamos, começamos tudo de novo de modo a não dar passos em falso, tentamos dominar o assunto ao ínfimo pormenor, acabamos inevitavelmente por saber alguma coisita.

Na primeira edição, a proposta da realização de oficinas de dança dentro da comunidade escolar tinha vários objectivos - desmitificar a dificuldade "eu não tenho jeito", mostrar que pode ser divertido "afinal, até é giro", espicaçar, melhorar a confiança dos participantes convidados. Depois, a nível interno dos alunos da AP, os mesmos de sempre - desenvolver a curiosidade, a pesquisa, o tratamento e a apresentação da informação; a autonomia e o trabalho em equipa.

Estes dois vídeos ilustram na perfeição a concretização de tudo o que se pretendeu. Para se chegar a este dia, a turma teve de tomar decisões - que dança? que passos? quem ensina no palco? quem demonstra, ajuda e esclarece cá em baixo? como fazê-lo? o que dizer? como dizer? que postura adoptar (e manter)?

Todos eles sabiam estes passos, afinal eram os básicos. Mas, depois das decisões tomadas, ensaiaram vezes e vezes sem conta como se estivessem em acção. A Patrícia e o Ivo, ela o papel das meninas, ele o papel dos rapazes, passo a passo como se os colegas não soubessem. Estes colaboraram, não sabendo, isto é, desempenharam nos treinos, o papel do novato. Treinaram tudo, desde o "bom dia, nós somos ..." até ao "esperemos que tenham gostado". No dia, fizeram tudo sozinhos, autonomia completa. Analisaram a sala, viram os progressos dos participantes, decidiram acelerar ou retardar a introdução da fase seguinte de acordo com a leitura que iam fazendo. Lá em baixo, misturados com os participantes, os monitores vestiam a pele de anfitrião - tinham por missão última que todos saíssem dali com uma sensação de bem-estar. Para isso, tinham de se assegurar que todos apanhavam o barco, colocavam-se junto daqueles com maiores dificuldades, esclareciam, ajudavam. Depois, a pares, verificavam se ninguém estava sozinho. Se estivesse, iam dançar com essa pessoa (tinham assim de dominar quer o papel de rapaz, quer o papel de rapariga).



Não é fácil gerir um ginásio cheio como este estava. Era a estreia deles numa produção deste teor. E correu muitíssimo bem, como se pode atestar por este pedacinho em baixo.
A escolha da cor das t'shirts foi feliz, resultaram a 100 por cento.
(engraçado, ver em primeiro plano a Bia e Sofia do ano passado, lá atrás a Catarina, o Ricardo e a Marlene deste ano, estavam então no 10º ano)



Foi um perfeito e verdadeiro trabalho de equipa.

A redacção dos relatórios deve cumprir todas os fins que vocês apontam na introdução. Tem um bónus que é eu aperceber-me, através da vossa visão, de aspectos, áreas, alcances que não tinha pensado inicialmente nem dos quais me apercebera durante a vigência do projecto.

A Sara Faria, aluna deste primeiro grupo fez uma observação muito pertinaz "esta disciplina teve como principal objectivo três “superares”: - o de nos superarmos enquanto alunos aprendizes desta área de projecto; - o de os superarmos a eles, comunidade escolar após o espectáculo apresentado e ainda o de eles se superarem a eles mesmos, alunos de outras áreas de projecto que, nunca tinham feito dança (na sua maioria)."

De facto, a proposta da realização das oficinas no decorrer do terceiro período não obedecera a esta lógica estrita. O espectáculo estava no segundo para não mobilizar demasiado o tempo dos alunos num período decisivo para acesso ao ensino superior, as oficinas no terceiro porque estando cativada a atenção da escola e ganho o seu respeito seria muito mais fácil a adesão. Como se verificou. Mas a Sara viu, e muito bem, uma progressão de complexidade crescente e de subida de patamares.

Em termos de futuro não sei qual dos produtos - espectáculo ou oficinas - terá trazido maiores benefícios aos alunos da AP dança. O espectáculo poderá ter tido mais impacto, o tremendo investimento, os aplausos inebriantes, a adrenalina a bombar, o tal ambiente dos bastidores. Mas a Sara deixou-me a pensar - talvez as oficinas, pelo que mobilizaram de competências diversas, tenham maiores repercussões na vida académica e profissional.