sexta-feira, 3 de abril de 2009

humildade

No outro dia disse aqui que tinha sido uma estreia para esquecer. Bom, eu não o consigo fazer e creio que isso nunca sucederá. Os pormenores irão tornar-se difusos mas a sensação de desamparo total ficará cá sempre. Do mesmo modo lembro-me, e já falei nisso, do horror do ensaio geral de há dois anos sem me lembrar exactamente porquê. Uns granéis com as músicas sobretudo, mas houve mais com certeza.

Foi bom, uma merecida lição de humildade. De facto, ainda dois dias antes, do alto da minha sobranceria tinha dito firme - Não, nunca se repete. - à pergunta da prof. Claudina se o júri autorizava que uma das equipas repetisse a sua canção. O concurso de karaoke de Alemão não teve só boas prestações; uma das equipas concorrentes teve uma prestação tão má, tão fraca que o público começou a bater as palmas a meio de modo a que eles terminassem a actuação. Tentavam cantar La Bohème, uma canção lindíssima de Charles Aznavour mas o esforço era patético. Pediram para repetir e apesar da oposição de dois membros do júri, cantaram de novo. Novo desastre, claro está, não iriam melhorar significativamente em dez minutos. Depois, na entrega de prémios foram elogiados pela representante do Ministério da Educação pela "sua coragem". Coragem? Eu diria mais desfaçatez em impingirem-se perante o público. A favor do grupo, a abertura do público que entoou entusiasticamente La Bohème, repetindo com eles o refrão. Acabou por ser um momento bem divertido.

Pois, nem passada uma semana, tive de engolir tudo o que disse e pensei.

A nossa estreia foi desastrosa não pelas peças em si, os intérpretes estiveram ao seu melhor nível, conseguindo (parcialmente) colmatar todas as outras falhas. Foi a iluminação, foi o som, foi o ritmo que não existiu.

O ano passado um comentário de um espectador ao Ao ritmo do Camões dizia, e cito "- conseguiram ter um ritmo de entradas e saídas limpo e dinâmico, sem momentos mortos (um espectáculo com momentos mortos é um espectáculo condenado);". Sempre foi essa a minha convicção e esse ritmo sempre tinha sido conseguido.

Ironicamente, as minhas palavras bem cedo nessa manhã quando vos falava em darmos o nosso melhor e repetia a oportunidade única que temos para causar uma primeira boa impressão. Pois queimámos essa oportunidade perante 230 alunos e professores da nossa escola. Que exagero! - disseram as minhas simpáticas colegas - não foi nada disso, as pessoas nem repararam. Talvez. Mas se assim foi, também sei porque isso sucede, porque as expectativas são baixas, porque estão habituados a atrasos, a soluços, a enganos, porque isto é um espectáculo de escola.

Não é, e nunca será, essa a minha filosofia.



A título de exemplo este pequeno pedaço de uma transição entre peça - anfitriã. Está cortado para metade, trata-se de ilustrar não de martirizar. Foi um dos muitos e terá havido ainda mais compridos. Basta dizer que a primeira sessão durou mais uma hora que as seguintes.

O pesadelo foi tão mau, a angústia que se viveu ali na régie tão opressiva que só ansiava pelo fim. Mas quando é que isto acaba? A cereja no bolo, o nosso engano na peça Shimmys quando subimos a luz e o som e faltavam três intérpretes. A atrapalhação desnorteada enquanto a Joana, bravamente desempenhava o seu papel como se nada fosse. E depois, ao fim de uns intermináveis segundos quando conseguimos interromper o som, blackout e recomeça tudo de novo. "Nunca há repetições". Ali teve de haver, foi um erro flagrante da régie. Meu, pois presumi que estavam lá todas.

Nessa noite, por acaso (sempre acasos) deparei-me com esta frase atribuída a Churchill e que tão bem retrata o que senti "If you're going through hell, keep going".

E depois, enquanto investigava o contexto, esta outra também dele, tão deliciosa:

"It's not enough that we do our best; sometimes we have to do what's required."

Felizmente conseguimos fazê-lo nos dias seguintes.