A cada um, o seu público.
Na semana passada fui à Culturgest ver Gustavia, um espectáculo de dança. Dança? Hum, escrevo dança e sinto a necessidade de especificar um pouco mais. Não dança contemporânea, não dança moderna ou pós moderna ou pós pós moderna. Volto à minha falta de conhecimentos abalizados que não me permitem categorizar. Queiramos ou não, a categorização faz falta se queremos trazer algo para um terreno de análise, discussão (ainda que em monólogo, como aqui).
Hesitei em ir. Do que conhecia de uma das intérpretes/coreógrafa - La Ribot - não gostava; a outra - Mathilde Monnier - conhecia apenas de nome e do youtube e gostava. Uma probabilidade de 50% que a parceria desse certo. Mas o que me convenceu foi o que vinha no jornal, transcrição aliás do programa recebido à entrada.
"Gustavia reúne duas coreógrafas com percursos muito diferentes mas animada por uma comum reflexão sobre as questões do futuro da arte e da representação. Este espectáculo apoia-se no universo do burlesco clássico, que possui códigos e técnicas próprios que atravessam não só o cinema (Peter Sellers, Tati, Marx Brothers, Keaton, Chaplin, Nanni Moretti...), mas também o palco e a perfomance (Leo Bassi, Anna e Bernard Blume...) e as artes plásticas (Bruce Nauman...)
O burlesco utiliza técnicas de "toca e foge"; é a arte de transformar a incompetência em competência. Permite distinguir os heróis burlescos dos heróis contestatários. Surge tanto do excesso de palavras como da sua ausência. O burlesco do corpo apoia-se no esforço gratuito, na repetição e no acidente. O que é legível no burlesco está oculto na dança, uma vez que esta, na sua essência, não tem nada, ou quase nada, de cómico.
(...)
"
É difícil resistir a uma apresentação tão cativante. Começa por nos inquietar com o futuro (eu sofro bastante com o meu conservadorismo nesta área), depois acena-nos com tamanha galeria de anti-heróis, finalmente uma reflexão tão verdadeira, "a dança, na sua essência não tem nada, ou quase nada de cómico". (nós tentamos dar-lhe essa qualidade mas fazemos-lo sempre pela teatralização, não pela dança em si). Lá fui.
Um flop, como seria de esperar (é fácil dizer isso agora). Teve alguns momentos engraçados, o tal burlesco nalguns casos mas aqui pela via do fácil, da imitação. La Ribot andou "horas" de tábua ao ombro em percurso errático pelo palco, voltas e meias voltas sucessivas, derrubando, em cada uma delas, Mathilde que se tentava erguer. A tábua era macia, um material sintético amigo da bailarina. O final foi engraçado pelas palavras. Elas discursavam à vez, enfim, diziam uma frase começando sempre "une femme " com uma acção diferente. Um dueto de mulheres falando sobre outras mulheres. Estava muito bem, fez rir e fez pensar.
Mas dança? Pareceu mais uma brincadeira entre elas. Percebeu-se que se divertiram imenso a montar a peça; enquanto assistia na sala escura, interrogava-me - no típico recurso mesquinho - mas porque é que eu hei-de pagar a terapia destas mulheres?
Bom, o público adorou, aplaudiu entusiasticamente de pé, tudo. Eu saí de fininho.
Ontem de manhã fiz uma alvorada. De vez em quando faço uns biscates para o meu irmão, é raro infelizmente, tem havido pouco trabalho. Ontem, tinha um bike tour, um passeio de bicicleta por Lisboa. Nos moldes que tenho feito, é destinado a estrangeiros em estadia curtas. Conduz-se o grupo pelos passeios largos ou ruas calmas e fazem-se paragens em que se conta a história da cidade. Gosto de o fazer, encontram-se sempre pessoas diferentes e muito interessantes (só pessoas interessantes se aventuram a andar de bicicleta em Lisboa). Quando ontem me dirigia para o local de partida (este trabalho envolve alguma logística, leva bicicletas na carrinha para o início, traz carrinha para a chegada, regressa de bicicleta para a partida) interrogava-me "mas porque é que eu me meto nisto? São sete da manhã, um domingo perdido, será que vai correr bem?" Esta questão do "correr bem" é que me deixa mais ansiosa, é uma perfomance nossa, temos de deixar o turista com a sensação de ter tido uma experiência única. E depois há ali uma dose de conversa / andar de bicicleta que não é muito fácil de gerir. Por vezes fico com a sensação de estar a dar "uma seca", o que eles querem é andar, outras vezes é o contrário. Ontem, tinha sido informada de ser uma família de belgas. Hum, será que vai ser em francês ou em inglês?
Foi em português. Não eram belgas mas sim alemães e viverem em Portugal há cerca de trinta anos. Os pais falavam com ligeiro sotaque, a miúda poderia ser portuguesa. Estou liquidada, pensei na segunda paragem quando a senhora me disse "é a primeira guia que conta isso assim", isto hoje vai ser um desastre. Conhecem Lisboa melhor que eu, como qualquer turista de longa duração que se preze já exploraram todos os cantos, já foram a todas as visitas guiadas, conhecem a nossa história de trás para a frente.
Sorrindo, respondi, "bom, é a graça da história, depende muito dos olhos de quem a conta". Acabou por ser uma visita interessantíssima, talvez a melhor que já conduzi. Eles eram conhecedores e curiosos, queriam saber sempre mais. Quando preparámos este Bike Tour fizemos imensa pesquisa, comprei bastantes livros sobre a cidade (aliás, continuo fazendo-o, o magnetismo de Lisboa, há sempre algo que queremos aprofundar um pouco mais) e construímos uns textos que, progressivamente fomos reduzindo. As pessoas querem história mas querem sobretudo ver. O que acontece é que não utilizando, esquece-se. Felizmente no sábado tinha feito um outro e estava com os conhecimentos mais frescos. Mas estava danada por não ter ido recuperar os textos originais (isto é tão esporádico para mim que de cada vez tenho de me preparar em casa, estudar a lição, vá), teriam sido muito úteis ontem.
Ainda assim eles gostaram muito. Tanto que me deram uma gorjeta no final. Nunca tinha tido uma gorjeta, achei o máximo, fiquei felicíssima. Tive o meu público, ontem.
Adenda no dia seguinte - a ansiedade, lembrava-me hoje eu, em pleno conselho pedagógico quando se discutiam as áreas de projecto em geral, vem do meu saber livresco neste assunto. "A natureza excessivamente formal, livresca e enciclopedista" é um dos constrangimentos, segundo se lembram do nosso sistema de ensino que as AP's pretendem remediar. Fomos auto-didactas na nossa pesquisa e apesar da confiança na maioria das fontes, vem-me sempre aquele estudo publicado na revista Nature à cabeça: o que comparou o número de erros da Wikipedia e da Enciclopédia Britânica (esta teve mais). O facto de o conhecimento vir de um livro não é garante da sua fidelidade.