A propósito de uma das peças, abordei esta semana à mesa do café, o prof. Vasconcelos com uma questão concreta. Foi um fascínio de uma conversa, o prof. foi contando uns episódios atrás de outros, sempre com uma gargalhada fresca de entusiasmo juvenil. Diria mesmo infantil, não no sentido negativo, pelo contrário ecoou como os risos que me habitam das minhas filhas aos seis sete anos.
Depois, ao digerir a conversa, ao registar alguns apontamentos deu-me uma nostalgia pelos conhecimentos que se perdem, se dissipam de geração para geração. É aflitivo perceber que uma ínfima parte do que uma pessoa sabe, se transmite de facto para as outras. A não ser, claro que seja um académico que escreva muito e com arte. Há uns anos veio um artigo na National Geographic Magazine sobre Van Gogh. Discorria sobre a vida dele, a sua luta com a doença, as dificuldades, as pequenas alegrias. Terminava com uma constatação - se o pintor vivesse nos tempos de hoje não se saberia nada da vida dele, ou não se saberia o que se sabe. A razão é que todo (enfim, grande parte) o conhecimento da vida de Van Gogh advém da correspondência que trocou com o seu irmão Theo. Se fosse hoje, utilizariam o email e disso nada fica para os outros.
Voltando ao prof. Vasconcelos: justificava-me eu, avant la lettre,da aldrabice que nos propomos perpetrar em termos da comemoração - dançamos o que queremos e rememoramos pelos textos - quando ele me corta o atabalhoado "olhe, isso é sempre assim. Quando fazemos alguma coisa, aparece sempre alguém a dizer "Falta isto, falta aquilo!" " E o que lá está, já viu o que lá está?"" e gargalhou com o seu ar maroto. Eu ri-me também, "pois".
É o que lá está que interessa, é sobre isso que vamos trabalhar.