domingo, 15 de março de 2009

extra



O basquetebol é um jogo muito interessante, entre outras razões por combinar uma extrema capacidade atlética com uma maníaca atenção ao detalhe. Exige motricidade fina e grossa em doses equivalentes.

No outro dia, enquanto numa esquina esperava uma amiga que se atrasou, deparei-me com um antigo colega treinador que não via há duas décadas. Foi um atraso providencial - o dela - pois ele é daquelas poucas pessoas que revemos como se a última conversa tivesse sido ontem. Vai direito ao assunto, seja ele qual for, sem se deter em minudências, em questões secundárias. Nunca fui treinada por ele e tenho imensa pena mas tive a oportunidade de, num ano, ter sido sua adjunta.

Aprendi imenso com o Manuel Campos, não menos importante a apreciar uma cerveja (tinha 21 anos na altura, creio, já tinha idade...). Aliás, é muito engraçado que há um exercício que fazemos na aula não inspirado por ele - faz-se em tudo o que são aulas de teatro, expressão corporal, dança contemporânea - mas em que a sua (dele) execução me modela. Falo daquele exercício em que andamos muito determinados pela sala fora até quase embatermos numa parede, invertendo o sentido no último segundo. O Manuel Campos nunca teve outra forma de andar. Terminado o treino da equipa de Juniores que ambos orientávamos, íamos algumas noites até um restaurante frequentado pelo pessoal do basquetebol. Enquanto ele jantava (eu morava muito perto, fazia-o em casa) analisávamos o treino, reflectíamos sobre o trabalho, preparávamos os jogos. A parte central de Algés é uma quadrícula com as ruas rectas interceptando-se todas iguais. Saíamos da porta do clube em direcção ao carro dele, percorríamos dois quarteirões - eu correndo, ele no seu passo largo e elástico - até ele estacar subitamente "não está aqui, deixei-o naquela rua". Percorríamos novamente acelerados mais dois quarteirões até ele dizer "não, não foi aqui". Podíamos despender nisto meia hora sem que ele jamais perdesse a determinação, a convicção. Sabia sempre onde o carro estava.... ainda que ele afinal não estivesse ali. Nunca transparecia naquele homem qualquer hesitação, pelo contrário irradiava alegria de viver, o prazer de estar ali. Claro, aliava tamanha concentração a total alheamento pelo acessório; estacionado o carro, logo se esquecia dele, a mente em foco no treino que se avizinhava.

Conversámos sobre o que ambos estávamos fazendo, ficou surpreendido por eu ser professora no Camões. Ele foi cá aluno, falou um pouco sobre esses tempos. Despedíamos-nos, ele ia para um almoço de treinadores, regressa atrás com um cd na mão. "olha, estamos a fazer uns vídeos com trabalho de pés. É uma homenagem ao prof. Teotónio Lima, fica com ele". Passa-mo e eu digo "olhe, sabe para o que o vou aproveitar? Para a dança, temos lá um projecto na escola e (...)". Ficou todo entusiasmado "inspirámos-nos nos pés dos bailarinos, até há um passo com um nome desses". Vi depois o vídeo, é o rock step que se usa em várias danças sociais.

Bom, mas tanta conversa hoje a propósito do extra.

"The difference between ordinary and extraordinary is that little extra."

(subscrevo uma mailling list com dicas informáticas; acho que o que aproveito mais, ainda são estas frases com que o bem-humorado moderador termina cada edição. A minha ignorância dificulta-me a compreensão do conteúdo principal)

Regresso ao basquetebol - envolver o nosso defesa com a acção de uma das nossas pernas numa inversão do drible, impedindo-o de recuperar o enquadramento, só é possível se colocarmos o pé no sítio exacto. Um pouco mais ao lado, basta uns centímetros, e ele escapa-se. Talvez isto seja verdade para todas as modalidades, há-de ser. Quase.

Este vídeo, em que aparece o Manuel Campos pujante e alegre como sempre, isola um pequeno pormenor do trabalho de pés. Repetido e repetido até se automatizar e o atleta o executar sem ter de pensar.

Fará a diferença para o extra um pouco mais à frente.