quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

construções

"Como constrói o bailarino o seu gesto? Em que é que este se distingue do gesto comum?
No gesto comum, o braço entra em movimento no espaço porque a acção impõe do exterior uma deslocação ao corpo; pelo contrário, no gesto dançado, o movimento, vindo do interior, leva consigo o braço. Movimento ritmado que < < transporta > > o corpo, esse mesmo corpo que é o seu suporte. Von Laban diz que o movimento é dançado quando < < a acção exterior é subordinada ao sentimento interior > >.
Do movimento dançado, von Laban diz ainda que, de uma certa maneira nunca se esgota, uma vez que vai chegar a uma posição do corpo que desencadeia outros gestos e outras posições. A queda, a quebra do movimento que induzirá outros movimentos pertence já ao seu começo. Cada gesto prolonga-se para além de si próprio, numa continuidade tecida pelo ritmo da dança.
Eis o que parece decisivo: o gesto dançado abre no espaço a dimensão do infinito. Seja qual for o lugar onde se encontra o bailarino, o arabesco que descreve transporta o seu braço para o infinito. As paredes do palco não constituem um obstáculo, tudo se passa no espaço do corpo do bailarino. Contrariamente ao actor de teatro cujos gestos e palavras reconstroem o espaço e o mundo, o bailarino esburaca o espaço comum abrindo-o até ao infinito."
in José Gil, Movimento Total - O Corpo e a Dança (pag 14)




Espero que ajude.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

palestras inspiradoras

Saí hoje do auditório em estado de graça, tal a riqueza da palestra relativa ao Prof. Rómulo de Carvalho. Evocou-se o poeta António Gedeão, o professor Rómulo de Carvalho e sobretudo, o humanista em ambos e ainda noutras vertentes de um homem tão versátil, tão completo, tão genial.

Após um confuso e mal desenhado power point (as letras subiam tão depressa pelo slide, escondendo-se atrás das fotos e sobrando tão pouco tempo para a leitura que causavam dor de cabeça) que pretendia apresentar em traços largos o celebrado, passou-se a palavra a Manuel Freire. Este autor que conviveu com o Prof. Rómulo de Carvalho desde que lhe musicou a sua Pedra Filosofal, apresentou-nos o Professor com uma simplicidade que nos desarmou e cativou do princípio ao fim. Com a sua voz rica, expressiva, cheia, contou-nos vários episódios que dotaram de vida e espessura uma personagem livresca. Terminou com uma leitura soberba de um poema de António Gedeão.

Infelizmente, o segundo orador pareceu apostado em sabotar a palestra. Não pelo seu tom de voz (não seria fácil ombrear com Manuel Freire nem isso lhe seria exigido) mas pelo discurso mais adequado a uma aula de faculdade que a uma palestra de divulgação/evocação/celebração. Com um discurso abundante de juízos de valor pessoais (como são todos) e, com dificuldade partilháveis pela assistência, entreteve-se a dissecar um poema. Indiferente aos sinais emanados da plateia, deu, já bem avançado no tempo, o golpe de misericórdia ao dizer que só iria falar mais quinze, vinte minutos. Esta, que rareava a cada minuto que passava, perante tão injusta punição (estávamos-nos a portar bem) viu-se ainda mais reduzida.

O que foi uma pena. A prof. Maria Cândida, última oradora da noite deu um testemunho emocionante daquele que foi o seu orientador de estágio - na altura denominava-se Metodólogo. A Professora, que foi depois professora da nossa escola por quase três décadas, desempenhou também cá outros cargos como o de presidente do conselho directivo (numa época quente). Contou vários episódios do seu estágio que retrataram o Professor Rómulo de Carvalho devolvendo-lhe, pela sua vez na noite, a qualidade humanista e de homem grande. Deu-nos, em simultâneo uma visão da época que então se vivia. Com um sentido de humor e uma simpatia muito apelativas conquistou a assistência e reconciliou-nos com a nossa chegada tardia a casa. No meu caso, que vivo nos subúrbios, fez-me arrepender não me ter esforçado mais para participar nas sessões anteriores. É um sacrifício este, o de chegar tão tarde a casa, mas aqui valeu bem a pena.

Foi uma palestra rara e muito inspiradora para uma professora com referências dispersas. A minha gratidão aos organizadores - o Departamento de Românicas da nossa escola.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

decisão


Para se saltar deste modo temos de saber para onde vamos, nas nossas cabeças não pode haver hesitações. Estamos em contagem decrescente para o dia das decisões; com efeito, estamos a menos de um mês do dia 6 de Março, o dia das "audições". Não no sentido estrito dos candidatos a um papel num elenco, mas de um conjunto de pessoas, numa peça para um espectáculo.

As escolhas, a haverem, poderão ser agora. Um pouco ao jeito das podas, cortar o acessório para o ramo principal cresça forte. Bonito, seguro, confiante, irradiando vitalidade.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

quero-te bem,

encosta-te a mim.


Não sei qual o motivo da selecção deste música de Jorge Palma no concerto + poesia de ontem. Se foi incluída porque as cantoras gostavam muito dela ou porque o seu autor foi aluno da nossa escola. No início, a prof. Teresa Saborida contou que o concerto de ontem tinha tido origem no de Natal pois uma das artistas queria muito cantar a de Vinicius de Moraes; no Natal não vinha muito a propósito por isso este de S. Valentim ficou logo agendado. Espero que continuem para a Páscoa, aliás percebi que uma das cantoras do Natal frequenta o Instituto Gregoriano.

Conta o prof. Ricardo Frias que não há muitos anos havia festas épicas no nosso ginásio com música ao vivo, Jorge Palma em pessoa.

Uma historieta com quase três décadas e que não tem nada a ver com isto. Combinámos - um grupo de amigos - ir ao Parque Mayer ver uma Stand Up Comedy do Herman José. Ele estava no seu auge, logo a seguir ao "O tal canal" e outras séries do género, éramos fãs indefectíveis. Não me lembro dos detalhes todos, creio que incluía jantar. Sei que tinha de ser feita uma reserva de mesa e que quem tratou disso foi o meu irmão mais velho. Um grupo pequeno, umas dez pessoas, todos nos vinte e poucos, todos pelintras de orçamento reduzido. Ao entrarmos, ficámos surpreendidos pois tínhamos a melhor mesa da sala, mesmo colada ao palco parecia uma extensão deste. À medida que a sala enchia íamos ficando constrangidos pois os restantes convivas/espectadores eram todos, notoriamente, mais abonados que nós, mais velhos, mais respeitáveis. Foi uma noite divertidíssima, a minha amiga Maria João, desde o programa de rádio "A flor do éter" (que gravava num gravador de cassetes) tinha uma verdadeira idolatria pelo Herman. Eram outros tempos, note-se. Então ele abalava tudo e com imensa graça. Ainda estava ele a encher o peito de ar, já estava ela à gargalhada. A nossa mesa foi um show dentro do show, o que não nos impediu de, quando em quando, nos interrogarmos quando iriam dar pelo engano e propor-nos a mudança de mesa. Sobretudo porque ele Herman, fitava-nos com intensidade ali mesmo em cima de nós. Ainda por cima, com o dinheiro contado como andávamos sempre, ficamos-nos pelo consumo mínimo.

Foi já ao fim da noite, porque a estranheza da situação levava a uns palpites sobre os outros, que alguém se lembrou "olha lá Jorge, não foste tu a fazer a reserva? Aposto que pensaram que era o Jorge Palma com um grupo de amigos que aí vinha." E foi isso com certeza, é que o meu irmão também se chama Jorge Palma.

Entretanto, o poema de "origem"

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu se e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos caminhos
Me encaminham a você.

(...)
Vinicius de Moraes

é quando nós quisermos



Algum pudor aqui há uns tempos atrás (não lhes pedi autorização) mas como estão na página da Becre, bom, cá ficam (na segunda feira peço-lhes). Uma turma do mais simpático (e desorganizado - uma no cravo, outra na ferradura) que nos pode calhar na rifa (sou a prof. deles em EF), alinham em tudo. Vocacionados, sem qualquer dúvida, para o trabalho de projecto, nem hesitaram na resposta ao desafio lançado pela prof. Teresa Saborida, responsável pela BeCre e mentora do evento, aliás dos eventos.
E não, não é engano. É uma embirração geracional pelo dia de amanhã.
Farei concessões. Amanhã.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

novas oportunidades

Alguns alunos da 2ª edição (ano lectivo passado) responderam sim ao desafio de nova participação. No âmbito da comemoração dos 100 anos, trazer de regresso antigos alunos, funcionários e professores, tem sido um moto transversal a todos os temas, sendo que a literatura é a única área que já concretizou alguma iniciativa.

Jovens "teens" acabadinhos de sair dificilmente se enquadram na categoria - ou ideia - de antigos alunos. O facto é que são-no e, seja como for, eu acredito em manter os laços. Nada melhor que a contribuição para um projecto comum que tanto os mobilizou no passado. Recente ou não, interessa pouco, aliás este projecto não atingiu ainda a idade adulta. Qual Peter Pan por vezes interrogo-me se alguma vez o fará ou estaremos condenados (abençoados?) com uma cristalização na adolescência.

Este trio - a Sofia, o Vasco (escondido atrás) e o André vieram hoje até à aula para colaborar com um grupo deste ano. Desafio maior este (pelas dificuldades de conciliar horários), o de criar uma peça em conjunto. Correu muito bem e vão em frente.



Não são os únicos, há mais dois grupos de alunos que responderam sim, que se deram a si próprios nova oportunidade de participar num projecto de risco.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

fontes (mais uma vez)


Imagens de um encontro ontem de ginástica acrobática, no Ginásio Clube Português. Esta quadra, a única neste momento a competir em Portugal - é muito difícil manter quadras, o trabalho em si é de uma exigência extrema, depois ninguém se pode lesionar (nos outros grupo também não, claro, mas sendo menos e fazendo coisas menos arriscadas a probabilidade é menor), o volante cresce muito depressa, entretanto um base entrou numa faculdade com horários incompatíveis e por aí fora, somando vários constrangimentos - juntou-se apenas neste ano e já estão a este nível.

Uma coreografia tão engraçada e tão adequada a rapazes. A inspiração óbvia nas danças populares gregas - que são ou eram danças exclusivamente masculinas - e ainda diria eu, sabendo que é um rematado disparate, no jogo do prego que jogávamos na praia. É claro que não é, mas uma das figuras (1:50) assemelha-se muito a uma em que fazíamos o prego rodar no ar para trás e depois golpeando-o, fazíamo-lo rodar de novo para a frente e espetar-se no montinho de areia. Diz-me uma das minhas filhas que é uma figura muito difícil e que lhes foi doloroso (sobretudo ao volante) até a dominarem.
Como curiosidade, refira-se que um dos rapazes, o Diogo, foi aluno da nossa escola há dois atrás, na turma de artes, o 12º f de então.

Ver, ver muito.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

p...o

Até o nome está bem achado. E se me apetece uma gracinha fácil, óbvia e repetida - um parto difícil - é que a primeira e última letras são comuns - por outro, poupo-vos ao resto. Mas não à alfinetada (leia-se pressão). Q.b. Como é possível enjeitarem a criança? (afinal não resisti, perdoem).


a ordem

As fotos estiveram perdidas aqui no computador, a prof. Bárbara que as tirou tinha-me dito que não estavam boas; eu descarreguei-as e nem as vi. Afinal, pelo contrário, algumas bem interessantes e a retrataram com fidelidade as peças. Neste caso, bem visíveis a energia e voluntarismo do grupo.


o caos

Não está perfeita, pede umas podas, acertos, acrescentos e diria ainda que algumas recuperações e repetições. Mas...


a sintonia

...o mais difícil está feito, o sofrimento maior já passou - digo eu que estou de fora, já teve uns meses de pousio e ainda terá mais um. Deposito aqui as fotos como quem vos põe um cachorro tremeliquento no regaço. A ver se pega.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a tomar forma


O arranque tende a ser difícil, aqui foi-o. Mas depois, há um momento de descolagem em que as ideias começam a fluir, as acções vão-se encadeando e a peça começa a parecer-se com algo que se imaginou. Há aquela frase tão engraçada de Picasso " que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando".
No nosso caso somos uns privilegiados, o trabalho é giro. Ver, ver muito, e fazer, fazer muito. Quer uma fase quer a outra, sobretudo a outra, dispõem-nos bem. Hoje a aula foi produtiva nas duas peças trabalhadas e foi além disso, muito divertida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

retornos


Fragmentos da sessão teórica, na parte prática não havia tempo para reportagens.

Fiquei, entretanto a pensar que voltei a cair naquela fraqueza do "lá fora é que é bom". No texto de ontem coloquei os moços nos píncaros como se cá não houvesse gente deste calibre. Há. Há por exemplo toda a equipa Pé de Xumbo que organiza o Festival Andanças para além do seu preenchido (e diversificado) programa anual de eventos educativos e sociais. Há os Tradballs, Uxu Kalhus e tantos outros, que eu desconheço, com imensa qualidade.

A minha geração, de algum modo a geração do foleiro, tudo era foleiro, ninguém namorava - nós andávamos, dizer amor, nem pensar!, a minha geração dizia cortou com tudo o que evocasse o passado, a tradição. No caso da dança tradicional admito que tenha sido um corte em reacção a uma promoção política dessa mesma dança. A tal ideia dos valores da terra, pobrezinhos mas honrados, não há terra como a minha enaltecidos pelo salazarismo.

Bom, é sabido que o tempo anda em círculos e como na família Buendia tudo se repete, cá estamos nós a recuperar as nossas raízes.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

pandeiretas

Passei o dia de sábado numa oficina de pandeiretas no Centro Galego de Lisboa.

Tocar pandeireta tem muito que se lhe diga, ao contrário do que parece, pelo menos do que eu pensava. De manhã houve uma sessão teórica / prática e a tarde foi toda dedicada à lição 1 de pandeireta com algumas incursões no canto, na escuta auditiva e até na escrita galega.



As sessões foram conduzidas por estes simpáticos rapazes que à noite deram um concerto (não assisti, terei de perguntar à prof. Isabel Miranda como foi; deve ter sido bem divertido, eles foram fazendo umas amostras durante o dia).

Fiquei impressionada pelo profissionalismo. Todos eles eram muito jovens, não pareciam ter mais de 25 anos. Falaram sobre as pesquisas etnográficas que tinham conduzido na Galiza, mostraram-nos vídeos desses trabalhos de campo, falaram sobre os bailes e as suas variações de zona para zona, foram ilustrando na prática quer com canções quer com as próprias coreografias. Aliás, ao final do dia, os dois grupos de formandos (iniciados e intermédios) demonstraram as suas habilidades tocando e cantando duas canções. Eles próprios dançaram-nas com umas moças que, percebi, fazem parte do grupo de Danças Galegas da Casa da Juventude da Galiza. E a graça que tinham a dançar.

Deram-nas uma aula de canto, fizemos exercícios de descontracção, de aquecimento, de postura corporal, foi muito interessante, eles eram todos muito bons, sabiam imenso. Ando acalentando há tantos anos a vontade de aprender música - quiçá num grupo coral - fiquei ainda com mais vontade. Um dos professores era particularmente picuinhas, como comentou a prof. Isabel Miranda. O método seguido, depois de aprender a segurar a pandeireta e os golpes mais básicos (abanar como um leque, rodar sobre o eixo vertical, bater na palma da outra mão), era o de ouvir a canção, escrevê-la, cantá-la e depois tocar e cantar em simultâneo. Enquanto não a cantávamos com um mínimo de harmonia ele não nos deixava seguir em frente. Na parte de tocar, foi quase embaraçante pois nem eu nem a prof. Isabel conseguíamos executar a técnica correcta. Ele sempre em cima a corrigir-nos, nós bem percebíamos a questão - agora executar... ele já enervado connosco e nós sem conseguirmos. Vamos comprar uma pandeireta para treinar em casa (veremos depois o problema da vizinhança).

Entendi também, finalmente em primeira mão, o imenso gozo do tocar em conjunto. Era uma barulhada, sem dúvida (imagine-se vinte pandeiretas nas mãos de iniciados), mas todos perseguíamos uma melodia. E uma sintonia. A energia que ali se congregava era muito catártica, sentíamos uma euforia tremenda no final da batucada. Deve ser isso que sucede, também, com aquele grupo de tambores Toca à rufar (e há outros). Algo de muito primordial, o ressoar, a vibração interna.

Um dia inspirador não só pela actividade em si, sobretudo pelo profissionalismo demonstrado por pessoas tão jovens. Muito seguros de si, sabiam do que falavam, conduziram com serenidade, alegria, competência. Prolongaram a sessão uma boa hora depois do previsto para terminar e praticamente ninguém arredou pé.

Há uns dez anos, uns alunos meus foram em visita de estudo a Santiago de Compostela. No regresso contaram as peripécias, lembro-me de um episódio que os tinha impressionado. Numa das noites foram a uma discoteca; dançaram como cá, as músicas do momento, a globalização afinal. Porém, a determinada hora, puseram música tradicional e todos os jovens espanhóis as dançaram. Ficaram de fora os excursionistas, de queixo caído perante aquele espectáculo - miúdos de 17, 18 anos a dançarem "rancho" na discoteca.

É claro que o facto dos galegos serem muito nacionalistas, nem sei se aqui não deveria dizer regionalistas pois refiro-me ao orgulho da região, os leva a enaltecer e a preservar os seus valores, as suas raízes, a sua cultura. A língua (penso) em primeiro lugar, a música e a dança logo atrás.

Razões à parte, o facto de se manterem em ligação com o passado, dá-lhes com certeza uma base mais sólida para lidarem com o futuro.

O António no outro dia observou e bem que incidindo o nosso espectáculo nos últimos cem anos, "como deixar de parte o folclore?". Pois. Teremos de dar uma solução a isto.
(estes miúdos de sábado, pela sua postura e maneira de ser fizeram-me lembrar o Afonso)