Passei o dia de sábado numa oficina de pandeiretas no
Centro Galego de Lisboa. Tocar pandeireta tem muito que se lhe diga, ao contrário do que parece, pelo menos do que eu pensava. De manhã houve uma sessão teórica / prática e a tarde foi toda dedicada à lição 1 de pandeireta com algumas incursões no canto, na escuta auditiva e até na escrita galega.

As sessões foram conduzidas por estes simpáticos rapazes que à noite deram um concerto (não assisti, terei de perguntar à prof. Isabel Miranda como foi; deve ter sido bem divertido, eles foram fazendo umas amostras durante o dia).
Fiquei impressionada pelo profissionalismo. Todos eles eram muito jovens, não pareciam ter mais de 25 anos. Falaram sobre as pesquisas etnográficas que tinham conduzido na Galiza, mostraram-nos vídeos desses trabalhos de campo, falaram sobre os bailes e as suas variações de zona para zona, foram ilustrando na prática quer com canções quer com as próprias coreografias. Aliás, ao final do dia, os dois grupos de formandos (iniciados e intermédios) demonstraram as suas habilidades tocando e cantando duas canções. Eles próprios dançaram-nas com umas moças que, percebi, fazem parte do grupo de Danças Galegas da Casa da Juventude da Galiza. E a graça que tinham a dançar.
Deram-nas uma aula de canto, fizemos exercícios de descontracção, de aquecimento, de postura corporal, foi muito interessante, eles eram todos muito bons, sabiam imenso. Ando acalentando há tantos anos a vontade de aprender música - quiçá num grupo coral - fiquei ainda com mais vontade. Um dos professores era particularmente picuinhas, como comentou a prof. Isabel Miranda. O método seguido, depois de aprender a segurar a pandeireta e os golpes mais básicos (abanar como um leque, rodar sobre o eixo vertical, bater na palma da outra mão), era o de ouvir a canção, escrevê-la, cantá-la e depois tocar e cantar em simultâneo. Enquanto não a cantávamos com um mínimo de harmonia ele não nos deixava seguir em frente. Na parte de tocar, foi quase embaraçante pois nem eu nem a prof. Isabel conseguíamos executar a técnica correcta. Ele sempre em cima a corrigir-nos, nós bem percebíamos a questão - agora executar... ele já enervado connosco e nós sem conseguirmos. Vamos comprar uma pandeireta para treinar em casa (veremos depois o problema da vizinhança).
Entendi também, finalmente em primeira mão, o imenso gozo do tocar em conjunto. Era uma barulhada, sem dúvida (imagine-se vinte pandeiretas nas mãos de iniciados), mas todos perseguíamos uma melodia. E uma sintonia. A energia que ali se congregava era muito catártica, sentíamos uma euforia tremenda no final da batucada. Deve ser isso que sucede, também, com aquele grupo de tambores Toca à rufar (e há outros). Algo de muito primordial, o ressoar, a vibração interna.
Um dia inspirador não só pela actividade em si, sobretudo pelo profissionalismo demonstrado por pessoas tão jovens. Muito seguros de si, sabiam do que falavam, conduziram com serenidade, alegria, competência. Prolongaram a sessão uma boa hora depois do previsto para terminar e praticamente ninguém arredou pé.
Há uns dez anos, uns alunos meus foram em visita de estudo a Santiago de Compostela. No regresso contaram as peripécias, lembro-me de um episódio que os tinha impressionado. Numa das noites foram a uma discoteca; dançaram como cá, as músicas do momento, a globalização afinal. Porém, a determinada hora, puseram música tradicional e todos os jovens espanhóis as dançaram. Ficaram de fora os excursionistas, de queixo caído perante aquele espectáculo - miúdos de 17, 18 anos a dançarem "rancho" na discoteca.
É claro que o facto dos galegos serem muito nacionalistas, nem sei se aqui não deveria dizer regionalistas pois refiro-me ao orgulho da região, os leva a enaltecer e a preservar os seus valores, as suas raízes, a sua cultura. A língua (penso) em primeiro lugar, a música e a dança logo atrás.
Razões à parte, o facto de se manterem em ligação com o passado, dá-lhes com certeza uma base mais sólida para lidarem com o futuro.
O António no outro dia observou e bem que incidindo o nosso espectáculo nos últimos cem anos, "como deixar de parte o folclore?". Pois. Teremos de dar uma solução a isto.
(estes miúdos de sábado, pela sua postura e maneira de ser fizeram-me lembrar o Afonso)