segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

o fascínio

das cadeiras.

Dizia-me o prof. Ferronha que todos os bailados contemporâneos têm uma cadeira. Representa, diz ele, a pressa da sociedade moderna, a correria de um lado para o outro. Não sei, o estudioso é ele. Mas ao ouvi-lo lembrei-me logo de uma série deles com cadeiras. O mais conhecido será talvez o Café Muller de Pina Bausch (ouvi falar dele há muito pouco tempo, no filme de Pedro Almodovar Habla con ella, depois vi excertos no sítio do costume, nada que equivalha a uma experiência em primeira mão), para vocês é o omnipresente Chicago.

Tem graça (para mim, claro) que desde a primeira edição da área de projecto, todas (exagero, claro) as meninas querem fazer Chicago. Agora terei de confessar que nunca vi o filme, vimos, nesse ano, um excerto - o pedaço mais popular, o das barras - numa das aulas e elas explicaram-me o contexto.

Mais graça terá e agora para vocês também porque ainda se lembram (pelas piores razões, algumas) da peça que abria o primeiro "dança, Camões!" É que essa peça começou por se inspirar nessa cena da prisão, das barras, das cadeiras. Deu naquilo que sabemos e que eu aliás, gosto muito. A propósito de gostos - que sim, discutem-se e com alma - essa terá, pelo que me pareceu, sido a peça mais polémica. Ou se detestou ou se adorou. Houve quem tivesse descortinado nela uma "qualidade estética assinalável", juízo que bem me apaziguou depois de uns ataques mais ferozes. De qualquer forma, irreconhecível. Derivou-se da inspiração para algo de completamente diferente. Nem a música se usou.

Adiante, regressando à cadeiras e ao seu fascínio seja porque representam o paraíso perdido do tempo que sobejava (ainda passei tardes, sentada em cadeiras que se traziam de dentro e se encostavam ao lado de fora do muro, conversando de um lado para o outro da rua quente na vila alentejana de Cuba), seja porque permitem (ou prometem?) um manancial de sensualidade latente, desejosa de desabrochar. Está uma frase comprida, não queria perder a clareza.

O ano passado Chicago esteve na base de duas peças, primeiro uma e depois outra.

Construir um discurso próprio leva o seu tempo. Algo que não temos ainda que tenhamos cadeiras. Muitas cadeiras.



Haverá com certeza outras fontes de inspiração para além de Chicago. E depois, temos as mesas. As mesas têm também um enorme potencial, ora vede a Carla na aula de hoje. Deixo aqui um exemplo, uma foto que retirei faz muito tempo de um jornal; esteve anos na porta do frigorífico e, em última análise, suportou (desencadeou?) esta minha inflexão tardia para o maravilhoso mundo da dança.


Sim, é verdade, há cadeiras aqui também. Mas não está espantosa?

Adenda: gira a aula de hoje. Autonomia, organização, trabalho, alegria. Um contributo também dos meninos da turma da manhã que se prontificaram a colaborar com a tarde, uma aquisição extra - a da Rita, da turma de artes do 11º ano. Preciosas, as tarefas que a Renata tem vindo a assumir. Está a começar a carburar, este nosso projecto.