Estive hoje (finalmente, pois muito tardou) em conversa com o prof. Ferronha. Em traços muito largos, ainda assim bem precisos, esboçou uma história da dança europeia desde o século XIX. É sempre um deslumbre ouvir quem sabe. Ligou-me uma série de conhecimentos que eu tinha desconexos, desfez-me algumas ideias erradas, entreabriu-me umas tantas janelas.
Reforçou a noção da importância das várias fontes na busca pelo conhecimento. Tenho lido bastante, desde o ano passado, sobre dança no séc. XX. Faltam-me sempre todos os outros conhecimentos, as relações de causalidade que só um professor (ou estudioso) de história pode dar. O prof. Ferronha ainda por cima é um apaixonado da dança e viu muita coisa (leia-se muitos espectáculos) em primeira mão. Está aposentado o que dificulta sobremaneira uma marcação cerrada; ainda assim, as várias ideias que deu hoje serão preciosas para a construção do nosso espectáculo. Todas as colaborações o são, afinal.
A conversa fez-me lembrar este cartoon de João Abel Manta.

Esteve colado numa parede lá de casa durante uns anos a seguir ao 25 de Abril. Retrata com fidelidade e sentido de humor o espírito voluntarista da época. A sede de cultura, ou talvez mais aquilo que se imaginava ser a sede de cultura, na base de uma série de iniciativas de divulgação cultural.
Enquanto aluna do Liceu Nacional D. João de Castro presenciei uma delas. Na área da dança, quem diria...
Não me recordo do ano exacto, creio que estaria no 4º ano (hoje oitavo), 1975 pela certa. A cena passa-se no ginásio velho, do género do nosso mas com um palco a sério e paredes laterais forradas a espaldares. O ginásio estava a abarrotar com todas as turmas da tarde - o chão estava coberto de alunos, nos espaldares penduravam-se várias camadas. A minha curiosidade era imensa, lembro-me de estar toda a performance num equilíbrio precário.
Se houve alguma preparação das turmas para irem ver a dança, há-de ter sido escassa, não guardo qualquer memória. A motivação maior há-de ter sido como, tantas vezes, ainda é: não haver aulas. Tudo, qualquer coisa menos aulas.
(por isso, eu gosto tanto de organizar as actividades de educação física para fora das aulas, assim, tenho a certeza de que só participarão os alunos intrinsecamente motivados)
Continuando, estávamos então num ginásio atafulhado de alunos irrequietos, desconhecedores em absoluto de qualquer outra dança que não uns tutus e umas pontas de um ballet romântico entrevisto num programa de televisão (na altura só havia dois canais,
papávamos tudo) ou de um bailarico folclórico numa ida à terra, num período de desvario total (é do que me lembro, eu também era muito nova) e sem qualquer preparação prévia para o que os esperava.
Um espectáculo de dança contemporânea do mais vanguardista possível. Começando pelos figurinos - os bailarinos e as bailarinas envergavam uns maillots justinhos cor de carne (à distância a que quase todos estávamos pareciam completamente nus, evidentemente sem as pilosidades visíveis), passando pela música (estranhíssima, atonal, diria agora eu, também pode ser a memória a atraiçoar-me) e terminando pelas acções. Eles moviam-se, eles rastejavam, torciam-se, tocavam-se de forma nunca vista. Estávamos totalmente
impreparados para eles.
Senti-me fascinada por um lado, não conseguia tirar os olhos do palco, envergonhada pelo outro por tudo o que se passava na plateia. Os apupos, as graçolas, os comentários inconvenientes transformaram aquilo que se pretendia (presumo) ser um abrir de olhos, um despertar de sensibilidades, num pesadelo que ainda hoje me embaraça.
A diversificação de fontes para este nosso empreendimento será o seu sal, se quisermos agora usar a metáfora gastronómica. O sal enaltece o sabor próprio de cada alimento. Falarem com os pais e os avós, perguntando-lhes por episódios da sua vida, dar-vos-á pela certa, outras perspectivas. Na escola, temos o prof. Vasconcelos, também aposentado mas a ir lá todas as manhãs para trabalhar nos arquivos. Penso que não haverá melhor potencial entrevistado. Também, o prof. Monge (à espera da aposentação) é outro excelente orador e com uma memória fabulosa.