quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

chuva

E esta chuva que não passa.

O secador da escola deu de finados (já tinha mais de vinte anos, diz a D. Fernanda, "coitadinho a trabalhar todos os dias, já deu o que tinha a dar"), os coletes estão com um cheiro a mofo que não se pode.

Tem sido um bom ano para o negócio dos chapéus de chuva, aqui na área de projecto um grupo de alunos tem dado a sua generosa contribuição. Com tanto manuseio, abre, fecha, joga no ar, falha a recepção, alguns não resistem e perdem peças.

As meninas (e os meninos) esses estão para lavar e durar e não se encolhem com as molhas nem com as dificuldades. Em ambos os grupos, atenção. O que mais aprecio é ir assistindo a este confronto, ao embate, à procura e ao encontro das soluções. Ao superar das dificuldades, ao superar-se a si próprio. Em ambas as turmas, repito, a foto é uma mera ilustração.

um pouco preocupada

com o rumo que algumas peças parecem levar, deambulo em fuga de blogue para blogue.

Deparo-me com isto . Entretanto, duvido que este link fique muito tempo, penso que se o autor do blogue colocar mais algum texto com a etiqueta "inspiração" este postal do Jim Jarmusch passa para segunda posição e depois terceira.

"Nada é original", esse conceito não existe. Em muitas áreas do conhecimento isto é sem dúvida verdade. Todos já lemos, creio, aqueles textos em que a juventude é acusada de não saber nada, de ser dissoluta, de futilidade, dos males deste mundo e do outro. Chegamos ao fim e vemos que foram escritos há dois mil anos, por vezes há mais.

[há uns anos inscrevi-me num curso pós-licenciatura cheia de expectativas de glória. Na lição inaugural, o professor que nos recebeu desfez-nos as ilusões e as peneiras "não pensem que vão descobrir algo de novo. Vocês não estão aqui para isso, tudo o que disserem já foi foi dito há duzentos anos. Se procurarem bem, hão-de ver que já foi dito há quinhentos anos e se forem mesmo persistentes, verificarão que foi dito há mil anos." Acho que ele continuou a regredir no tempo, era muito enfático aquele professor. A ideia passou, não me esqueci desta lição. Uns tempos depois, li num livro de história de arte que esta valorização da originalidade é recente. Um aprendiz de pintor ou de escultor começava por misturar tintas, limpar pincéis, anos depois podia - se fosse prendado - ajudar na pintura dos quadros do mestre, preencher zonas menos exigentes. Podiam passar-se décadas antes de se autonomizar (talvez já esteja a exagerar aqui).]

O conceito de originalidade tem tido assim, valorizações flutuantes. Aprendia-se a pintar imitando, nós podemos aprender a dançar imitando também. Aquele nosso professor disse-nos que estávamos ali para provar da nossa capacidade de investigação, não de descobridores.

Bebamos onde nos aprouver e não nos preocupemos sequer em disfarçá-lo, diz o cineasta. Mas se lermos com atenção deparamos-nos com a questão da autenticidade. A autenticidade é preciosa, no nosso caso será crucial. Se nos limitarmos a repetir aquilo que já foi feito, será com muita dificuldade que ela transparece. A questão como põe o outro realizador, Jean-Luc Godard, não é de onde tiramos as coisas, sim para onde as levamos.

Pois. Mas eu insisto. Tal como os gestores da banca não deviam ter posto os ovos todos no mesmo cesto, não vamos tirar nós as ideias todas do mesmo clip. Diversifiquemos, eduquemos o olhar, o gosto.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

eles dançam,

eles correm, elas orientam-se.



Não tem directamente a ver com o trabalho da área de projecto, alguns dos protagonistas é que são os mesmos e eu adoro organizar estas provas. De modo que cá vai: três das equipas que ontem enfrentaram a intempérie para participar na prova de orientação continham alunos da dança. Uma das equipas, constituída apenas por meninas, não fora uma desatenção final teria mesmo ganho a prova. Com efeito, fizeram um tempo imbatível - 45 minutos - mas acontece que na fase final, cansadas com certeza, cometeram um erro. Numa zona densamente povoada de pontos (é um pouco como nos exames, meninas, há sempre - ou deve haver - uma pergunta mais difícil para destrinçar), picaram o ao lado. As outras duas, não tendo tempos tão curtos o que aliás não seria o mais importante (sendo o primeiro critério picar os doze pontos correctos), cometeram uma e duas faltas. Boas prestações para uma primeira prova e, creio, sem ninguém da equipa nativo da zona.

Um belo dia de chuva, o que eu gosto destas actividades.



A carta ficou azulada, ontem estava em tons quentes, a criatividade (e a autonomia) deste computador é imbatível. Pedi umas fotos à professora Bárbara, depois colocarei.

Adenda: algumas fotos deste dia (da câmara da prof. Bárbara)


E o grupo das professoras que, não obstante, alguma displicência no equipamento que escolheram envergar (a elegância acima de tudo) obtiveram um honroso (e inesperado, diga-se) 10º lugar (em 48 equipas classificadas).

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

de link

em link, fui dar aqui. Quem diria que o lindy hop está em alta, tão em alta que justifica um festival mono-temático. Bom, tudo justifica um festival, o pretexto pode ser qualquer interesse comum e a vontade de o partilhar. E há-os às dezenas, tão ou mais bizarros que o nosso limitado espectro de conhecimentos nos permite conceber. O site em si merece bem uma visita com tempo. Bem sentados numa cadeira.

No outro dia deparei com um texto que parecia encomendado a propósito de uma conversa que tive na turma da manhã. Vale a pena ler, ele discorre muito melhor que eu e aqui subscrevo quase na totalidade (nem sempre acontece, aliás muitas vezes não acontece de todo).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

o fascínio

das cadeiras.

Dizia-me o prof. Ferronha que todos os bailados contemporâneos têm uma cadeira. Representa, diz ele, a pressa da sociedade moderna, a correria de um lado para o outro. Não sei, o estudioso é ele. Mas ao ouvi-lo lembrei-me logo de uma série deles com cadeiras. O mais conhecido será talvez o Café Muller de Pina Bausch (ouvi falar dele há muito pouco tempo, no filme de Pedro Almodovar Habla con ella, depois vi excertos no sítio do costume, nada que equivalha a uma experiência em primeira mão), para vocês é o omnipresente Chicago.

Tem graça (para mim, claro) que desde a primeira edição da área de projecto, todas (exagero, claro) as meninas querem fazer Chicago. Agora terei de confessar que nunca vi o filme, vimos, nesse ano, um excerto - o pedaço mais popular, o das barras - numa das aulas e elas explicaram-me o contexto.

Mais graça terá e agora para vocês também porque ainda se lembram (pelas piores razões, algumas) da peça que abria o primeiro "dança, Camões!" É que essa peça começou por se inspirar nessa cena da prisão, das barras, das cadeiras. Deu naquilo que sabemos e que eu aliás, gosto muito. A propósito de gostos - que sim, discutem-se e com alma - essa terá, pelo que me pareceu, sido a peça mais polémica. Ou se detestou ou se adorou. Houve quem tivesse descortinado nela uma "qualidade estética assinalável", juízo que bem me apaziguou depois de uns ataques mais ferozes. De qualquer forma, irreconhecível. Derivou-se da inspiração para algo de completamente diferente. Nem a música se usou.

Adiante, regressando à cadeiras e ao seu fascínio seja porque representam o paraíso perdido do tempo que sobejava (ainda passei tardes, sentada em cadeiras que se traziam de dentro e se encostavam ao lado de fora do muro, conversando de um lado para o outro da rua quente na vila alentejana de Cuba), seja porque permitem (ou prometem?) um manancial de sensualidade latente, desejosa de desabrochar. Está uma frase comprida, não queria perder a clareza.

O ano passado Chicago esteve na base de duas peças, primeiro uma e depois outra.

Construir um discurso próprio leva o seu tempo. Algo que não temos ainda que tenhamos cadeiras. Muitas cadeiras.



Haverá com certeza outras fontes de inspiração para além de Chicago. E depois, temos as mesas. As mesas têm também um enorme potencial, ora vede a Carla na aula de hoje. Deixo aqui um exemplo, uma foto que retirei faz muito tempo de um jornal; esteve anos na porta do frigorífico e, em última análise, suportou (desencadeou?) esta minha inflexão tardia para o maravilhoso mundo da dança.


Sim, é verdade, há cadeiras aqui também. Mas não está espantosa?

Adenda: gira a aula de hoje. Autonomia, organização, trabalho, alegria. Um contributo também dos meninos da turma da manhã que se prontificaram a colaborar com a tarde, uma aquisição extra - a da Rita, da turma de artes do 11º ano. Preciosas, as tarefas que a Renata tem vindo a assumir. Está a começar a carburar, este nosso projecto.

sábado, 17 de janeiro de 2009

agarrando as oportunidades


Foi tirada já no fim da aula de hoje. Muitos dos participantes já tinham desmobilizado - a minha terceira e última parceira (uma miúda um pouco mais nova que vocês, pareceu-me), por exemplo, teve de ir fazer o almoço para a família - mas a Carla e a Joana aproveitaram cada minuto. Foi até engraçado, a determinado ponto eu estava atrás delas (pela segunda vez sem parceira, não sei porque terá sido, foram saindo sob os mais diversos pretextos) e a professora, sorrindo ao ver que tinham logo apanhado o encadeamento de dois passos difíceis, elogiou-as e perguntou-lhes se já conheciam a dança. Resposta negativa, explicaram que não eram daquele grupo. Mais surpreendida ficou ao saber que eram da escola secundária de Camões.

A escola José Gomes Ferreira faz este tipo de aulas com alguma frequência. Por coincidência, a professora responsável pelo grupo de dança do desporto escolar foi minha colega de curso. Já não nos lembrávamos dos respectivos nomes mas reconhecemos-nos de imediato. No ano passado aliás, naquela tentativa de irmos apresentar o nosso espectáculo fora da escola, só tivemos duas respostas receptivas. A da José Gomes Ferreira (depois não foi possível encontrar uma data) e a do Restelo (tinha o problema do espaço ter demasiadas limitações). A professora Guidinha lembrava-se e disse que tinha ficado cheia de pena de não termos lá ido.

Convidou-nos para encontros este ano. Diz que o seu grupo faz algumas demonstrações fora e gosta que as outras escolas também lá vão. Ficaram convidadas para o nosso espectáculo de este ano.

Bom, a aula de hoje - lindy hop foi muito proveitosa. Os professores Daniela e Hugo eram excelentes e muito simpáticos. Explicaram-nos a história do lindy hop: sucedeu (evoluiu a partir de ) ao charleston, faz parte da família do swing e antecedeu o rock / jive / boogie woogie.

A Daniela convidou-nos para irmos amanhã ver um espectáculo infantil de dança contemporânea que ela integra. Já não será possível mas para a semana repete, quem sabe alguém quererá ir.

Quanto ao lindy hop seria uma mais valia.... e para mais com um género musical para o qual não temos ainda nada - o jazz. As músicas que tocaram hoje eram muito apelativas, faziam lembrar os filmes dos tempos da segunda guerra, as grandes bandas, os saxofones, os vestidos da época, enfim todo um ambiente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

fontes orais

Estive hoje (finalmente, pois muito tardou) em conversa com o prof. Ferronha. Em traços muito largos, ainda assim bem precisos, esboçou uma história da dança europeia desde o século XIX. É sempre um deslumbre ouvir quem sabe. Ligou-me uma série de conhecimentos que eu tinha desconexos, desfez-me algumas ideias erradas, entreabriu-me umas tantas janelas.
Reforçou a noção da importância das várias fontes na busca pelo conhecimento. Tenho lido bastante, desde o ano passado, sobre dança no séc. XX. Faltam-me sempre todos os outros conhecimentos, as relações de causalidade que só um professor (ou estudioso) de história pode dar. O prof. Ferronha ainda por cima é um apaixonado da dança e viu muita coisa (leia-se muitos espectáculos) em primeira mão. Está aposentado o que dificulta sobremaneira uma marcação cerrada; ainda assim, as várias ideias que deu hoje serão preciosas para a construção do nosso espectáculo. Todas as colaborações o são, afinal.

A conversa fez-me lembrar este cartoon de João Abel Manta.



Esteve colado numa parede lá de casa durante uns anos a seguir ao 25 de Abril. Retrata com fidelidade e sentido de humor o espírito voluntarista da época. A sede de cultura, ou talvez mais aquilo que se imaginava ser a sede de cultura, na base de uma série de iniciativas de divulgação cultural.

Enquanto aluna do Liceu Nacional D. João de Castro presenciei uma delas. Na área da dança, quem diria...

Não me recordo do ano exacto, creio que estaria no 4º ano (hoje oitavo), 1975 pela certa. A cena passa-se no ginásio velho, do género do nosso mas com um palco a sério e paredes laterais forradas a espaldares. O ginásio estava a abarrotar com todas as turmas da tarde - o chão estava coberto de alunos, nos espaldares penduravam-se várias camadas. A minha curiosidade era imensa, lembro-me de estar toda a performance num equilíbrio precário.

Se houve alguma preparação das turmas para irem ver a dança, há-de ter sido escassa, não guardo qualquer memória. A motivação maior há-de ter sido como, tantas vezes, ainda é: não haver aulas. Tudo, qualquer coisa menos aulas.

(por isso, eu gosto tanto de organizar as actividades de educação física para fora das aulas, assim, tenho a certeza de que só participarão os alunos intrinsecamente motivados)

Continuando, estávamos então num ginásio atafulhado de alunos irrequietos, desconhecedores em absoluto de qualquer outra dança que não uns tutus e umas pontas de um ballet romântico entrevisto num programa de televisão (na altura só havia dois canais, papávamos tudo) ou de um bailarico folclórico numa ida à terra, num período de desvario total (é do que me lembro, eu também era muito nova) e sem qualquer preparação prévia para o que os esperava.

Um espectáculo de dança contemporânea do mais vanguardista possível. Começando pelos figurinos - os bailarinos e as bailarinas envergavam uns maillots justinhos cor de carne (à distância a que quase todos estávamos pareciam completamente nus, evidentemente sem as pilosidades visíveis), passando pela música (estranhíssima, atonal, diria agora eu, também pode ser a memória a atraiçoar-me) e terminando pelas acções. Eles moviam-se, eles rastejavam, torciam-se, tocavam-se de forma nunca vista. Estávamos totalmente impreparados para eles.

Senti-me fascinada por um lado, não conseguia tirar os olhos do palco, envergonhada pelo outro por tudo o que se passava na plateia. Os apupos, as graçolas, os comentários inconvenientes transformaram aquilo que se pretendia (presumo) ser um abrir de olhos, um despertar de sensibilidades, num pesadelo que ainda hoje me embaraça.

A diversificação de fontes para este nosso empreendimento será o seu sal, se quisermos agora usar a metáfora gastronómica. O sal enaltece o sabor próprio de cada alimento. Falarem com os pais e os avós, perguntando-lhes por episódios da sua vida, dar-vos-á pela certa, outras perspectivas. Na escola, temos o prof. Vasconcelos, também aposentado mas a ir lá todas as manhãs para trabalhar nos arquivos. Penso que não haverá melhor potencial entrevistado. Também, o prof. Monge (à espera da aposentação) é outro excelente orador e com uma memória fabulosa.

domingo, 4 de janeiro de 2009

resoluções


Outra fonte magnífica, o Calvin&Hobbes, de Bill Watterson.

O que me lembra um lapso imperdoável - não indiquei ainda o autor do Guilherme, Richmal Crompton. E já agora alguns dados interessantes: começou por ser publicado em revistas, daí que os personagens sejam repetidas vezes apresentados. Só mais tarde os contos foram recolhidos e publicados em livros. A primeira história foi surgiu em 1919; no total foram publicados 38 livros, sendo que o último surgiu em 1970 após a morte do autor com 80 anos.

Adenda: avisa-me um(a) anónimo(a) que Richmal Crompton era uma mulher. Estive aqui tentando traçar a palavra autor para a substituir por autora (tal como se faz no word), não consegui. Cá fica a correcção.