sábado, 20 de dezembro de 2008
a prova do tempo
Era o segundo andamento da peça Correntes, a que abriu o espectáculo dança, Camões! em Fevereiro de 2007. Esta versão, corresponde de facto à última sessão, a que foi realizada em Junho num esquisito espectáculo em conjunto com a Full Out.
Já a vi vezes sem conta (nas várias versões, esta é capaz de ser a melhor em termos de interpretação. A terceira, a de Março, também não estaria mal; acontece que a câmara não conseguiu focar um bom pedaço do início e aquilo que se vê é apenas um borrão) e nunca me canso.
[Digo isto, franzindo a testa, coçando a cabeça em embaraço. Eu vi-a e os intérpretes ainda não. Mea culpa, mea culpa que não há meio de resolver o problema dos formatos. Terei de fazer uma gravação toda seguida, repartida por vários dvd's, já o prometi a um dos protagonistas, do mal o menos.]
Fortemente contrastante, a todos os níveis, com o "primeiro andamento" da peça, colhia os espectadores de surpresa sustendo-lhes a respiração com um sorriso e depois umas gargalhadas bem dispostas. Arrisco-me a dizer que, pela ousadia do desvario, pela sólida convicção e presença dos intérpretes (e criadores) ganhámos ali o público. Eh lá!..., que vem a ser isto? Isto hoje vai ser diferente. E depois, não só o terceiro e quarto andamento, como as peças seguintes tiveram olhos bem abertos, a atenção desperta.
No outro dia, cruzando-me com o Zé à saída do Feminine disse-lhe "não te vou perguntar se gostaste, odeio que me façam isso. Preciso sempre de tempo para digerir". Por uma razão ou por outra. Se foi muito emocionante, se impactou comigo não consigo falar. Se foi assim-assim também não gosto de comentar pois a verdade é que à medida que vou pensando na peça, filme, bailado e me vou recordando dos pormenores, da sequência, de um ou outro momento, vou gostando mais. Também sucede ir ler a sinopse e perceber melhor; não quer dizer que goste sempre mais ao perceber melhor mas pelo menos desenvolvo uma relação intelectual com o que acabei de ver. Outras vezes é o olhar do crítico que me elucida.
A prova do tempo é sempre um indicador de qualidade. Seja numa mochila, na tinta da parede, num par de sapatos. Se uma peça resiste à passagem do tempo, ao visionamento repetido, ao crescimento do espectador é porque tem qualidades intrínsecas. Esta, pode ser ingénua e pueril, basta dizer como disse o Afonso a propósito da AP dança, "é um projecto inaugural" partilhando com este todas as suas fragilidades. Tem também as suas qualidades - é corajosa, determinada, vivida, sentida. E alegre.
Fiz os dvd's dos vossos trabalhos do primeiro período. Ficarão, a partir de segunda feira, na portaria da escola para que os levantem (dois dvd's por turma, um com dança contemporânea o outro com danças sociais, populares e hip hop). Combinem, uma pessoa por turma que depois os fará circular. Assim, poderão, já nas férias, visionarem-se, analisarem as falhas e as virtudes e encontrar o espaço de melhoria.
Com as vossas peças desta semana, a prova do tempo também se aplicou. Neste caso, mais a prova da repetição. Algumas peças iam ganhando com o novo visionamento (como quem relê um livro, apercebe-se sempre de algo novo), outras iam perdendo. Façam também a experiência.