Esta foto foi tirada numa das manhãs da semana que passou. Dias cinzentos, bem cedo na escola, ainda sem movimento de miúdos, os papagaios viravam-se na cama (saltitando, mudavam de ramo procurando o ombro quentinho de um parceiro imigrante), penas arrepeladas de frio, prolongavam o momento de partir em busca do pão diário.

Foi a primeira vez que os consegui fotografar; várias vezes ouço o seu grasnar alegre, tumultuoso ao sobrevoarem a escola. Já os vi pousados no plátano do pátio sul mas foi no verão, na realidade só os entrevi pois a folhagem densa permitia pouco mais que ouvir as suas discussões constantes. Parece um milagre da natureza, esta adaptação dos papagaios, um pássaro dos trópicos, da floresta virgem, dos ares puros a esta nossa cidade cinzenta (esta semana tem estado bem brumosa, peganhenta de humidade, fria). Trazem-nos a vivacidade dos países quentes, a sua alegria contagia-nos quando pousam por momentos na nossa escola. Pergunto-me onde e o que comem eles? Quantos eram de início, onde será que fazem o ninho? Irão ficar para sempre? Estabelecer aqui uma colónia? Em Lisboa?
(nas Caldas da Rainha, um de cabeça vermelha e rabo verde instalou-se no Parque e por lá ficou no meio das pombas. Era um divertimento vê-lo a persegui-las grasnando furiosamente, falando com elas e elas nada, mudas, consentiam apenas a sua companhia. Durou dois anos, creio. Não sei que foi feito dele, se o dono o recuperou, se abalou para terras mais quentes, se para companhia mais palradora)
Fez-me lembrar a pergunta do meu irmão, este ano, quando cruzávamos pela segunda vez o cabo Espichel nos nossos caiaques. O mar estava alteroso, assustava (a mim, a ele não, claro), levantávamos os olhos para a falésia imponente e víamos as gaivotas vogando, indiferentes, lá em cima.

Um pouco mais abaixo, um esvoaçar mais frenético, menos eficiente, conhecido. Os pombos do Espichel. De facto, lembro-me de ter lido, em tempos, uma reportagem sobre a colónia de pombos do Espichel. O Filipe perguntou, rindo para desanuviar o ambiente "que terá passado na cabeça do primeiro pombo que veio para aqui? ter-se-á fartado de Lisboa? da cidade poluída, barulhenta, atafulhada?" Rimos-nos imenso a imaginá-lo a fazer as malas e abalar para aquelas paredes inóspitas, batidas pelos ventos, desabrigadas das intempéries.
Adaptação.
É um conceito chave da evolução. Adaptar ou morrer.
Penso nisso quando vos vejo a ficarem desconfortáveis após os primeiros embates. Inscreveram-se nesta área de projecto sem pensar muito. Sob influência de um espectáculo que gostaram "eu também quero estar ali para o ano"; porque o/a amigo se inscreveu e eu vou atrás; por exclusão de partes, nenhuma das outras me chama muito; porque esta é prática, deve ser só dançar e divertir um bocado. Logo na primeira aula são desenganados mas dão ainda o benefício da dúvida. Passam algumas semanas e o desconforto instala-se. Pedem transferência mas o Conselho Executivo não concede.
(abro aqui um parêntese, eu tenho pena que, nalguns casos, o não faça. Penso que até Novembro, dentro das capacidades de lotação de cada turma, deveria ser possível. Todos nos enganamos e afinal, se há transferências de escola até ao final do primeiro período, se um aluno chegar aqui agora, também terá de começar tudo de novo. E adaptar-se.)
E os alunos cá ficam, agrilhoados, até ao fim do ano, penando por uma decisão irreflectida de Julho. As vacinas, a higiene, os cuidados de saúde, os antibióticos, alguns progressos da civilização diminuem, dizem, a capacidade de sobrevivência da espécie. Estamos mais defendidos em pequeninos, mais de nós sobrevivem, no geral somos mais fracos, a selecção não foi tão natural.
O mesmo sucede no nosso sistema de ensino. A progressão não é difícil, chegamos ao final do ensino secundário sem ter tido de lutar. E de repente, tomámos uma tonta de uma decisão, vá-se lá saber porquê. E vemos-nos metidos num grupo de colegas que mal conhecemos, a quem temos de tocar, abraçar. E isso nem é o mais difícil. O que custa verdadeiramente é fazer figuras perante eles. Expor-nos. Que tolice, que faço eu aqui? E pesquisar fora das aulas? Toda a vida estudei, li os manuais, estive atento nas aulas, fiz os tpc's, que história é essa agora de procurar a informação? E eu sei lá se a que encontro é "a informação". E praticar em casa? Tirem-me deste filme! Eu tenho um perfil discreto, não quero cá as luzes da ribalta.
Bom, neste momento - e tenho de conceder que o conselho executivo poderá estar com a razão - não há volta a dar-lhe. Teremos de fazer ainda mais umas figuras, a exposição final daqui a uma semana. Depois, no segundo e terceiro período, há lugar a refazer projectos, a seguir outro caminho, a perseguir o seu próprio sonho.
Sinto-me abençoada quando vejo um animal selvagem no seu meio (em Agosto, em Montesinho, foram vários os cervos com quem cruzámos caminhos); adoro ver os nossos papagaios mas há sempre uma pergunta a correr em fundo "esta adaptação será um outro sinal do aquecimento global?" e a arrepiar-me, pois claro.
Mas a vida faz-se um dia de cada vez e, ou nos adaptamos ou perdemos, logo ali, o barco. Este tem chegado ao fim com todos os tripulantes. Como todas as AP's.