segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

os papagaios

do Camões.

Esta foto foi tirada numa das manhãs da semana que passou. Dias cinzentos, bem cedo na escola, ainda sem movimento de miúdos, os papagaios viravam-se na cama (saltitando, mudavam de ramo procurando o ombro quentinho de um parceiro imigrante), penas arrepeladas de frio, prolongavam o momento de partir em busca do pão diário.
Foi a primeira vez que os consegui fotografar; várias vezes ouço o seu grasnar alegre, tumultuoso ao sobrevoarem a escola. Já os vi pousados no plátano do pátio sul mas foi no verão, na realidade só os entrevi pois a folhagem densa permitia pouco mais que ouvir as suas discussões constantes. Parece um milagre da natureza, esta adaptação dos papagaios, um pássaro dos trópicos, da floresta virgem, dos ares puros a esta nossa cidade cinzenta (esta semana tem estado bem brumosa, peganhenta de humidade, fria). Trazem-nos a vivacidade dos países quentes, a sua alegria contagia-nos quando pousam por momentos na nossa escola. Pergunto-me onde e o que comem eles? Quantos eram de início, onde será que fazem o ninho? Irão ficar para sempre? Estabelecer aqui uma colónia? Em Lisboa?
(nas Caldas da Rainha, um de cabeça vermelha e rabo verde instalou-se no Parque e por lá ficou no meio das pombas. Era um divertimento vê-lo a persegui-las grasnando furiosamente, falando com elas e elas nada, mudas, consentiam apenas a sua companhia. Durou dois anos, creio. Não sei que foi feito dele, se o dono o recuperou, se abalou para terras mais quentes, se para companhia mais palradora)

Fez-me lembrar a pergunta do meu irmão, este ano, quando cruzávamos pela segunda vez o cabo Espichel nos nossos caiaques. O mar estava alteroso, assustava (a mim, a ele não, claro), levantávamos os olhos para a falésia imponente e víamos as gaivotas vogando, indiferentes, lá em cima.

Um pouco mais abaixo, um esvoaçar mais frenético, menos eficiente, conhecido. Os pombos do Espichel. De facto, lembro-me de ter lido, em tempos, uma reportagem sobre a colónia de pombos do Espichel. O Filipe perguntou, rindo para desanuviar o ambiente "que terá passado na cabeça do primeiro pombo que veio para aqui? ter-se-á fartado de Lisboa? da cidade poluída, barulhenta, atafulhada?" Rimos-nos imenso a imaginá-lo a fazer as malas e abalar para aquelas paredes inóspitas, batidas pelos ventos, desabrigadas das intempéries.

Adaptação.
É um conceito chave da evolução. Adaptar ou morrer.

Penso nisso quando vos vejo a ficarem desconfortáveis após os primeiros embates. Inscreveram-se nesta área de projecto sem pensar muito. Sob influência de um espectáculo que gostaram "eu também quero estar ali para o ano"; porque o/a amigo se inscreveu e eu vou atrás; por exclusão de partes, nenhuma das outras me chama muito; porque esta é prática, deve ser só dançar e divertir um bocado. Logo na primeira aula são desenganados mas dão ainda o benefício da dúvida. Passam algumas semanas e o desconforto instala-se. Pedem transferência mas o Conselho Executivo não concede.

(abro aqui um parêntese, eu tenho pena que, nalguns casos, o não faça. Penso que até Novembro, dentro das capacidades de lotação de cada turma, deveria ser possível. Todos nos enganamos e afinal, se há transferências de escola até ao final do primeiro período, se um aluno chegar aqui agora, também terá de começar tudo de novo. E adaptar-se.)

E os alunos cá ficam, agrilhoados, até ao fim do ano, penando por uma decisão irreflectida de Julho. As vacinas, a higiene, os cuidados de saúde, os antibióticos, alguns progressos da civilização diminuem, dizem, a capacidade de sobrevivência da espécie. Estamos mais defendidos em pequeninos, mais de nós sobrevivem, no geral somos mais fracos, a selecção não foi tão natural.

O mesmo sucede no nosso sistema de ensino. A progressão não é difícil, chegamos ao final do ensino secundário sem ter tido de lutar. E de repente, tomámos uma tonta de uma decisão, vá-se lá saber porquê. E vemos-nos metidos num grupo de colegas que mal conhecemos, a quem temos de tocar, abraçar. E isso nem é o mais difícil. O que custa verdadeiramente é fazer figuras perante eles. Expor-nos. Que tolice, que faço eu aqui? E pesquisar fora das aulas? Toda a vida estudei, li os manuais, estive atento nas aulas, fiz os tpc's, que história é essa agora de procurar a informação? E eu sei lá se a que encontro é "a informação". E praticar em casa? Tirem-me deste filme! Eu tenho um perfil discreto, não quero cá as luzes da ribalta.

Bom, neste momento - e tenho de conceder que o conselho executivo poderá estar com a razão - não há volta a dar-lhe. Teremos de fazer ainda mais umas figuras, a exposição final daqui a uma semana. Depois, no segundo e terceiro período, há lugar a refazer projectos, a seguir outro caminho, a perseguir o seu próprio sonho.

Sinto-me abençoada quando vejo um animal selvagem no seu meio (em Agosto, em Montesinho, foram vários os cervos com quem cruzámos caminhos); adoro ver os nossos papagaios mas há sempre uma pergunta a correr em fundo "esta adaptação será um outro sinal do aquecimento global?" e a arrepiar-me, pois claro.

Mas a vida faz-se um dia de cada vez e, ou nos adaptamos ou perdemos, logo ali, o barco. Este tem chegado ao fim com todos os tripulantes. Como todas as AP's.