domingo, 14 de dezembro de 2008

fontes

"A 3 de Maio, três pinguins-imperador fizeram a sua aparição num canal, a oeste do navio. Ergueram as suas cabeças através do gelo jovem enquanto dois homens se mantinham junto ao canal. Os homens imitaram o seu chamamento e afastaram-se lentamente do canal, caminhando à maneira dos pinguins. Consecutivamente, as aves deram um magnífico salto de um metro da água para cima do gelo jovem. Daí, deixaram-se deslizar até ao banco de gelo e seguiram os homens para longe do canal. A sua retirada depressa foi cortada por uma fila de homens. "avançámos até eles, falando muito alto e assumindo um aspecto ameaçador. Não obstante o nosso mau comportamento, as três aves voltaram-se para nós, fazendo cerimoniosas vénias. Depois, após uma cuidadosa inspecção, concluíram que somos conhecimentos indesejáveis e afastaram-se através do gelo. Colocámo-nos na sua dianteira e finalmente guiámo-los para perto do navio, onde o frenético ladrar dos cães os assustou de tal modo que fizeram um esforço decidido para romper através da linha de homens. Apanhámo-los. Uma das aves, de atitude mais filosófica, deixou-se levar tranquilamente, segura pela asa. As outras deram luta, mas ficaram todas presas num iglu durante a noite..."
(...)
Mais dois imperadores foram capturados no dia seguinte e, enquanto Wordie levava um deles em direcção ao navio, Wild acompanhava-os com a sua equipa. Os cães, por um momento, incontroláveis, correram freneticamente em direcção à ave e estavam quase sobre ela quando os seus arreios ficaram retidos por um pilar de gelo pelo qual eles tentaram passar pelos dois lados em simultâneo. O resultado foi um agitado emaranhado de cães, tirantes e homens e um trenó capotado, enquanto o pinguim, a três metros de distância, observava, de forma desinteressada e indiferente, a confusão. Nunca antes tinha visto algo semelhante e não fazia ideia que a estranha desordem pudesse ter alguma coisa a ver com ele."

in, Sul de Ernest Shackleton

A tradução é mázita como se vê mas o relato supera bem esse desagravo. Não sabendo quantos estão familiarizados com a aventura (passa por vezes ora no canal história, ora no odisseia e até no canal 2) cá fica uma breve sinopse.

Estando conquistado o Polo Sul em 1911 pelo norueguês Amundesen, Shackleton (inglês) que também estivera na corrida, decide empreender a travessia da Antárctica por terra, passando pelo mesmo Polo Sul. Estávamos na era das grandes expedições, perdida uma, havia sempre novas conquistas a desafiar os inquietos.

Shackleton sai de Inglaterra em Agosto de 1914 no momento em que deflagrava a Grande Guerra"e dirige-se para sul. O navio Endurance apanha um excepcional mau tempo e fica preso no gelo à deriva durante vários meses. A pressão exercida sobre o navio pelas placas de gelo em constante movimento é de tal ordem que este não resiste e acaba por se afundar. Estamos então em 1915 não restando à tripulação outra solução que não a de tentarem sair da Antárctica pelos seus próprios meios. E é isso mesmo que eles conseguem. Depois de incríveis peripécias e vários meses em pedaços flutuantes de gelo, chegam muito enfraquecidos, à deserta ilha de Elefante. Desta parte com seis dos mais aptos tripulantes, um dos três botes salva-vidas do Endurance, o James Cairn. Chegam à ilha habitada mais próxima - a da Geórgia do Sul onde reside, durante todo o ano, uma comunidade baleeira. Esta ajuda-os a organizar uma expedição de salvamento para os 22 homens que tinham ficado na ilha de Elefante. O resgate não é fácil, a ilha estava novamente isolada pelo gelo flutuante e apenas a quarta tentativa será bem sucedida. Quando os homens são salvos, tinham mantimentos para apenas três dias. Estava-se então em Agosto de 1916, dois anos depois da expedição ter partido e da terrível carnificina ter começado na Europa.


daqui

A proeza de Shackleton - ter saído da Antárctica pelos seus próprios meios sem perder qualquer homem da tripulação conta-se hoje entre as maiores histórias de sobrevivência, de sempre, da humanidade. Na altura, devido à conjuntura, foi compreensivelmente ofuscada pelos outros acontecimentos que iriam aliás continuar por mais uns anos. E que deixariam marcas profundas em todos os países afectados.

Veio bastante mais tarde a ser recuperada pelos imensos ensinamentos que nela podem ser encontrados. É hoje estudada, por exemplos, em cursos de gestão. A liderança de Shackleton, a coesão que conseguiu sempre manter na sua equipa, o (quase) irrepreensível planeamento (falharam, por exemplo, os vermicidas para os cães tendo estes padecido muito com as lombrigas), o espírito elevado, o pragmatismo face às terríveis condições atmosféricas, a sua persistência e lealdade para com os seus homens estão bem retratados quer neste relato (escrito por si) quer noutros.

Sul tem o bónus de uma escrita escorreita, despretensiosa e cheia de humor como se pode ver por aqueles breves pedaços lá de cima.
Um livro absorvente, optimista, inspirador e que emprestarei a quem desejar.

Dei por mim, na sexta-feira, a lembrar-me desta história. Participante num evento lírico, algo (quanto a mim) desconectado da realidade "fantasia para dois pianos, será?", pensava eu, derivando logo em seguida "que livros lerão, onde buscarão as suas fontes, será que acreditam mesmo nisto?".

Aqui há uns tempos, num momento de impasse, um grupo de rapazes deslocava-se imitando um bando de pinguins. Estavam muitos realistas e divertidos, evocavam aliás A Marcha dos Pinguins, um outro acontecimento épico repetido todos os anos.

Uma ideia gira, quiçá.