Dão azo a anedotas idiotas, a histórias divertidas, a irritações repetidas e podíamos ficar aqui muito tempo a trocar os adjectivos, a encontrar novos substantivos e por aí fora. Há quem acredite que cada indivíduo vale por si e não representa país algum, outros defendem matrizes comuns, a geografia sobretudo, a originarem características partilhadas, tendências, o que queiramos chamar. Faço parte deste segundo grupo e a propósito disso cá vai mais uma história.
Estive no Nepal há meia dúzia de anos. Só lá estive duas semanas, não posso daí deduzir teoria. Não obstante, observei que os nepaleses são pessoas felizes. Sorriem sempre, sorriem todo o tempo. As crianças não choram nem fazem birras; naqueles quinze dias vi duas a chorar e uma delas em consequência de uma queda de três degraus em pedra. Legítimo. À entrada das aldeias há sempre um baloiço gigante. Apoiado em toros muito altos, as cordas saem lá de cima dando um balanço fantástico. É apenas um baloiço e ao fim da tarde, depois das crianças saírem da escola, aqueles terreiros estavam sempre cheio de miúdos. Dezenas de miúdos em redor do baloiço, uns empurrando com suavidade, outros tagarelando. Não assisti a uma única disputa.
Sorriem sempre, os nepaleses. Dizem a tudo que sim o que pode ser um problema quando perguntamos direcções, não há povos perfeitos.
E os mais informados dir-me-ao: tudo isso é muito bonito mas lá nas montanhas os maoistas raptam e torturam, matam e roubam. Pois, infelizmente a globalização chega a todo o lado. Uma prova que estou no grupo errado e que os estereótipos culturais são uma blague.
Mas desviei-me da história. Num determinado dia, estando em Katmandu quisemos ir a Bhaktapur, cidade medieval, muralhada, património da Unesco. Dista cerca de 17 km de Katmandu, creio. O meu irmão, que estava connosco mas infelizmente lesionado num acidente de caiaque, não podia ir. Aconselhou-nos, a mim e à Liliana, a alugarmos bicicletas. Seria um passeio agradável pelo campo e não há como a bicicleta para nos embebermos nos locais. Fomos alugar duas bicicletas e partimos. Uma viagem quase épica - as bicicletas tinham sério défice de manutenção - lá chegámos às portas. Logo nos caiu em cima um jovem guia, pretendia levar-nos a visitar a cidade. E as bicicletas? perguntámos. Encostem-nas aí à parede dessa casa. Assim? Só isso? Sim, respondeu ele, estamos no Nepal. No Nepal ninguém leva aquilo que não é seu. Vão ver que no final da tarde as bicicletas estarão aí. Ficámos muito desconfiadas, não só teríamos o problema do regresso como ainda de as pagar. O rapaz, tranquilo, insistiu e não tendo alternativa, não tínhamos cadeado, nada, fizemos o que ele disse.
E estavam. Ao sair das portas da cidade (num local equiparável ao Rossio mas com mais gente) ali estavam as nossas duas bicicletas.
Vem esta conversa hoje a propósito do plágio. Para alguns de nós, felizmente poucos de nós, o plágio é uma opção. Para os povos nórdicos, não é. Lembro-me de há uns anos ter havido uns incidentes valentes com estudantes portugueses de Erasmus em universidades finlandesas. O que eles fizeram, pelo que percebi no jornal, foi copiar uns códigos fonte (seja lá o que isso for) na internet e usaram-nos nos seus trabalhos sem indicação da fonte. A consequência foi a expulsão da universidade, vieram recambiados, e porque já tinha havido alguns incidentes do mesmo teor com alunos da mesma universidade de origem, o protocolo foi interrompido. Isto é, os finlandeses disseram "não queremos cá mais alunos dessa universidade", funcionamos com códigos diferentes.
Neste âmbito sou nórdica. Não consigo pactuar com o plágio. Percebo que num teste se deite o olho para a mesa ao lado. A tentação é grande, é muito difícil resistir-lhe. Mas a linha traço-a aí. Na mesa do lado e num impulso do momento, santos são muito poucos. Tudo o que saia daí exige premeditação, racionalidade. Sabemos distinguir o certo do errado. Plagiar é inaceitável.