to make a good first impression".
Foi com esta frase que eu iniciei a minha relação com a minha direcção de turma há quatro anos atrás. Eu estava ansiosa, colocada naquele ano na secundária de Camões, iria fazer a apresentação de uma escola que eu mal conhecia a um grupo de alunos tão frescos quanto eu (enfim, quase, alguns repetiam o 10º ano, conheciam-na bem e à sua cultura).
Pretendi com aquela abertura captar-lhes a atenção e alertá-los para um efeito que acontece com frequência - a persistência no tempo das primeiras impressões. Um aluno que obtenha bons resultados numa fase inicial contará com mais benevolência do professor em tropeço futuro que aquele que começou mal e que, de repente, tem uma boa avaliação. Insisti com eles para darem tudo por tudo no primeiro período: vinham frescos das férias, iriam causar uma boa impressão nos professores, eles próprios iriam ganhar confiança em si mesmos e, por conseguinte, trabalhar melhor e com mais gosto. Só vantagens. Saiu-me logo o tiro pela culatra quando, no final dessa aula - prossegui com o meu discurso falando em honrar o nome da escola, o dos seus pais, o deles próprios - lhes entreguei o cartão de estudante (recebidos no momento) e constatámos ali que estes não tinham fotos, tinham os nomes truncados, enfim, tinham sido feitos às três pancadas, sem pinga de brio. Eu a falar da cultura da escola - aquela que eu imaginava - e saiem-me uns cartões descuidados, de escola que não se leva a sério. Hoje sorrio da minha ingenuidade mas é um sorriso ainda amargo.
Esta conversa vem a propósito do espectáculo de ontem "The other side" e "Relações". Cheguei a pensar em ir vê-lo no ano passado à casa mãe - Os recreios da Amadora; algo de imprevisto surgiu e não aconteceu. Foi por bem, gostei muito de ontem ter estado no Teatro Camões com alguns alunos na situação de "first impressions". Deles e minhas. Deles, espero que boas. Mais um aparte - um professor que tive contou que a determinada altura da sua vida tinha mantido, na sua escola, um grupo de dança. Era uma escola de 2º ciclo, miúdos novinhos portanto. Ao cabo de uns bons meses de trabalho tinha-os levado a ver uma peça de dança contemporânea; esta foi tão vanguardista - leia-se tão estranha, tão feia, tão agreste - que ele sentiu-se, logo ali, mal por ter os alunos consigo. E com efeito, um dos alunos que mais promissor lhe parecia nunca mais pôs os pés no grupo. Dizia, conformado pelo tempo, este meu professor: ele terá pensado "dançar é fazer estas figuras? É que nem pensar!"
Lembro-me sempre desta história do meu professor Luís Xarez. Lembro-me também, e ontem contava isto à Catarina, à Luísa e ao Miguel, da minha repulsa por uma peça que vi há alguns trinta anos - As Troianas, de Olga Roriz. A experiência foi tão má, tão traumatizante (e céus, quando eu repugno esta ideia de trauma insuperável) que eu e a minha amiga Maria João fizemos um pacto "nunca mais, mas nunca mais mesmo, vamos ver uma peça da Olga Roriz". Honrei, até à data essa promessa, embora não me orgulhe disso. Na realidade, já a poderia (e deveria?) ter quebrado. Todas as pessoas que me disseram ter assistido a "Pedro e Inês", adoraram. Bom, não calhou. Da próxima vez que subir à cena, farei um real esforço de ir ver.
Não me coíbo nada de sair a meio de um filme ou de uma peça que não me esteja a dizer nada. É o preço, faz parte dos custos de assistir ao vivo; em casa desliga-se o aparelho e vamos para a cama mas com metade da piada de estar lá, numa sala escura, com a respiração de outrem ao nosso lado. Por vezes de enfado, a maior parte das vezes emocionada. É tudo mais forte, digamos assim.
De qualquer modo, esta argumentação não impede que pondere cuidadosamente "a primeira vez" dos alunos que convido. Há uma responsabilidade acrescida. Quero despontar-lhes o gosto, não marcá-los negativamente.
Ontem, penso ter sido uma boa aposta. As peças tiveram de tudo: vanguardismo, drama, angústia, leveza, desprendimento. Gostei do ênfase na voz em The other side. Dos cenários também, da angústia tão presente. Do ambiente urbano. Algo na peça - os cenários, a luz, a coreografia, (influenciada, talvez, pela leitura antecipada da sinopse) me fez lembrar West Side Story um filme que mexeu muito comigo em plena adolescência.
"Relações", a segunda peça, sonhadora, colorida, descomprometida. Com os bailarinos pintando na tela, depois em si, depois nos outros. Não era uma evocação do digitinta de infantário mas para lá caminhava. Um gozo, este de escrever em qualquer superfície, inclusive, nós próprios. Sem laivos de sensualidade ou perversão - não, não era " O Livro de Cabeceira" de Peter Greenaway, do qual penso já ter falado, era um inocente desvario, aquele pincelar colorido.
Tivemos, assim, direito a duas peças com recursos menos comuns (para nós, para mim) mas ainda assim com um desenrolar reconhecível e por isso, melhor compreendido.
Creio assim que a ida ao Camões abriu portas e não fechou janelas. Ou melhor, ao contrário, abriu janelas e não fechou portas.
Quanto às primeiras impressões, bom, felizmente, temos sempre as segundas e as terceiras. Tive - e continuo tendo - ocasião de reformular aquele arrepio inicial. A escola é algo mais que os cartões de aluno.