domingo, 2 de novembro de 2008

um !ah!

que me perdeu. Exagero, claro, como sempre.

Uma bonita manhã de outono, fria, luminosa, o ideal para ir até à feira de velharias aqui de Oeiras. Pode ser que tenha sorte, um dia há-de acontecer, penso. Na intenção de ampliar a minha biblioteca de dança, tenho andado desde o início do ano numa ronda pelos alfarrabistas. Sem qualquer resultado (no outro dia consegui uma "Histoire de la danse" editada em 1942, comprada já no estado de ausência de discernimento, o desespero de - seja, ao menos até à primeira metade do século XX) para além de passeios agradáveis pela cidade. A questão é que ando à procura de livros em ruptura de stock, isto é, tiveram uma primeira curta edição e nada mais. A biblioteca de Oeiras (e outras em Lisboa) tem-os, é mais o vício da cobiça, querer tê-los aqui em casa à distância de um braço e de uma cadeira.

Depois, o professor Monge conta-nos em reunião de departamento que o Sr. tantos e tantos vai doar-lhe a sua biblioteca, é a terceira pessoa a legar-lhe, talvez por saberem que ele adora história e está agora a dedicar-se à da educação física. Já não tem espaço em casa, anda a tentar encontrar alternativas e eu penso que o mesmo há-de estar a acontecer em todo o lado. Pessoas que envelhecem (ou morrem), mudam para casas mais pequenas, deixam de ter espaço, vendem os seus livros ao quilo. O meu pai frequentava muito os leilões, comprava assim lotes e lotes. Nem todos lhe interessavam, oferecia os outros.

Aqui no bairro as pessoas depositam o que não querem ao lado dos contentores do lixo. Há uns anos, um verdadeiro festim: alguém desfez-se de uma biblioteca inteira; trouxe para casa uma colecção dos romances de Dostoevsky ainda por abrir, daqueles que era preciso passar a lâmina da barba (algo que já deve ser muito difícil de encontrar). Continuam ainda por abrir (a cobiça, a cobiça), eu já os tinha lido na adolescência, ainda não me deu para relê-los.

De modo que, penso - um destes dias, alguém vai-se desfazer da sua colecção de livros da Biblioteca Breve, ou da sua prateleira de livros de dança e eu vou ter sorte, há que persistir. Além disso é giro, gosto de passear entre tabuleiros de livros ao ar livre, folheá-los, ler as dedicatórias, por vezes imaginar quem estaria num extremo e no outro.

Hoje, terminava o meu périplo, estava já no fim da feira, estaco numa banca com uma vintena de livros expostos no chão. Um cartão anunciava 1€, embora fosse óbvio que não se referia a todos os livros, alguns eram bons, grandes, boas encadernações. Demoro o olhar, percorro todos os títulos, olho para o lado, o dono da banca retirava de um caixote um molho de livros. À cabeça, "pensar a dança" de José Sasportes, um livro que já requisitei na biblioteca de Oeiras. E exclamo "Ah!, posso ver?". Asneira, a excitação transpareceu na minha voz. Folhei-o com ar neutro e pergunto uns minutos depois "quanto é?" "Deve estar aí", agarrando no livro e folheando-o, ele. Não estava, isso já tinha eu visto. "10€", responde-me. Hum, folheio-o um pouco mais, hesitando. Eu já o li, se bem que não seja um livro de se ler, não é um romance que se leia e se fique a saber se A fica com B ou se pelo contrário parte em direcção ao horizonte. Por outro lado, sendo interessante e um bom complemento numa biblioteca, não é essencial. Não é este que eu preciso agora que me quero documentar para os 100 anos. Não vou fazer outra compra a quente, há que ser mais racional. Se ele tem dito 5 ou 6, digamos 8, com certeza. Assim, deixei-o ficar. Poderia ter tentado a negociação e talvez o senhor até tivesse apreciado a tentativa, estupidamente considerei que, denunciada pelo interesse do meu "ah!", não teria hipótese.

Vivendo e aprendendo, espero ser mais contida na próxima vez. E mais ousada, também, porque não arriscar?