domingo, 9 de novembro de 2008

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"O século XX é um século de dança. Nunca se dançou tanto, nunca houve um tão grande número de criadores e intérpretes. Nunca a dança se transformou tão intensamente como neste século e nunca tão vastos públicos se sentiram atraídos pela dança. No século XX, a dança veio a assumir um lugar de plena paridade com as demais artes, pela sua capacidade de renovação estética e pelo modo como incide sobre a evolução artística em geral. Nestes quase cem anos que vão decorridos, rompeu-se, na Europa e na América do Norte, com o monopólio do bailado clássico, mas fez-se também chegar a todas as latitudes o conhecimento desta tradição. Alterou-se a maneira de viver a dança, de a fazer e de a receber. Neste fim de século, o processo não pára e a vitalidade da arte da dança está patente em cada uma das suas manifestações. Chamados a realizar o balanço do século, a partir de Lisboa, a questão que surge espontânea é a de saber quando e como se viveu na capital esta efervescência."
in Dançaram em Lisboa 1900 / 1994

Este excerto não é, mas podia ser, a introdução do livro editado pela Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura. Pretendeu a comissão organizadora "preservar a memória de Lisboa enquanto palco privilegiado e "cais de acostagem da Dança", através do registo cronológico das companhias e artistas internacionais que nos vieram visitando ao longo deste século (...)" como ainda colmatar "a quase ausência de obras de Dança no nosso País (...) possam ir ao encontro da curiosidade do público em geral, mas também da necessidade de consulta de obras de referência por parte de quem estuda ou se interessa".

Eu. Nós.

Este livro faz, desde ontem, parte do meu património. Tomei o comboio mais cedo de modo a poder, antes de me juntar aos meus colegas, tentar a minha sorte na Rua Anchieta (ali na Lisboa de Pessoa que vocês irão daqui a bem pouco tempo, visitar). Aos Sábados tem um mercadinho do livro usado e algumas raridades (resisti com dificuldade a uma edição francesa de ginástica sueca). Tive muita sorte, um curioso do público em geral desfez-se, no tempo certo (de vir parar às minhas mãos), do seu exemplar deste Dançaram em Lisboa. É um livro que fazia parte da minha lista "a adquirir" pois já o tinha consultado algumas vezes na biblioteca de Oeiras. Um espécime marcado apenas para consulta local, não podia ser trazido para casa, um inconveniente aborrecido. Há outras bibliotecas em Lisboa em que isso não acontece mas requer um investimento de tempo precioso, andar de uma para outra.

A sua consulta tem-se-me imposto desde o final do ano passado por saber que temos - este ano - o desafio dos 100 anos. Trata-se de tomar o gosto à época, ou seja, tentar aperceber-me do clima, do ambiente que então se vivia. O livro tem uma bela organização, elenca todas as apresentações de relevo com os nomes de intérpretes, coreógrafos, música, etc, etc, inclui um perfil da companhia e ainda excertos das críticas que os espectáculos receberam. Fabuloso!, vejam este pedaço referente aos Ballets Russes que vieram a Liboa em Dezembro de 1917:

"Depois de se apresentar em Espanha, a companhia visitava Portugal pela primeira vez. Realizava-se assim a aspiração de "algumas das principais famílias da capital portuguesa", que no ano anterior tinham insistido com os empresários para trazerem a Lisboa os Ballets Russes de Diaghilev. A sua estadia foi, no entanto, atribulada face aos contínuos focos de agitação político-revolucionária que levaram Sidónio Pais à Presidência da República. Assim, a data prevista para a sua estreia foi adiada por um período de quinze dias."

Tudo isto aqui à nossa porta, os focos de agitação e no intermezzo, os Ballets Russes no Coliseu.

Certo ser um desafio auto-imposto, todavia, é colocado também pela comunidade. Esperam de nós algo de bem específico este ano sem terem a real noção da magnitude da tarefa. A história da escola não está feita, o guião terá de ser feito por nós. Para além da pesquisa história, selecção dos episódios, teremos ainda a pesquisa específica - que dança(s)? que música(s)?, que guarda-roupa?, qual o ambiente?. Interessante, sem dúvida. Assustador, idem.

Ter algumas fontes à distância de um braço tranquiliza-me. Foi um dia em grande ontem. Cruzei-me na gare do comboio com colegas da escola antiga, os profs da linha vinham para Lisboa dizer de sua justiça. Meteram-se comigo "ena! que grande mochila, levas aí o farnel?" Ri-me, claro, pensando "quem sabe, vou ter sorte".

Tive. Quer com o livro, quer depois com o resto da tarde.

Uma emoção sentir o uníssono de uma classe tradicionalmente dividida. Pregamos e advogamos o trabalho de grupo, na prática, realizamos-lo pouco e a espaços. [não sucede isso na nossa escola no grupo de educação física, bem pelo contrário, mas falo agora do global]. Esqueci-me do telemóvel em casa, só ao princípio da noite me consegui juntar à Escola Secundária de Camões que subia a Avenida fechando o cortejo. Na procura, encontrei imensos colegas de curso, colegas de escolas antigas, cumprimentei e fui cumprimentada por colegas que não consigo ainda localizar quer no tempo, quer no espaço e a empatia genuína, solidária, alegre.

Chegámos ao Marquês noite cerrada, os últimos dos últimos. Depois das despedidas desci a avenida sem carros, os manifestantes ocupando ainda a faixa central. Irritação (compreensível, nas corridas também sucede) dos condutores nas laterais. Um ambiente onírico, ainda assim. A noite escura, sem vento, um ar de inverno pelo fumo das castanhas que aprisionado por uma massa mais fria não se dispersava com facilidade. A faixa central livre para nós, os peões, os cidadãos. Ao descer na escuridão, um sentimento de paz, de fim de batalha que sabemos não ter vencido (não, nem sequer esta, a opinião pública não nos percebe, os nossos amigos não nos percebem, nem sequer os nossos familiares) mas que nos soube tão bem travar.

Um percurso.