Ainda a propósito da exposição de ontem, Weltliteratur, na Gulbenkian.
Numa das salas, lemos um texto em que Pessoa interrogava Teixeira de Pascoaes sobre quem teria mais valor: o escritor de quem toda a gente falava e ninguém lia ou aquele de quem ninguém falava e toda a gente lia. Concluíram ambos que tinha mais valor aquele de quem se falava e ninguém lia.
Esta história é um pouco bizarra. Para alem da questão do valor, o que quereriam eles dizer com valor?, tento imaginar um escritor que toda a gente leia mas do qual ninguém fale. E não consigo ver nenhum. Não se referiam certamente a jornalistas, a publicitários (todos os lemos) também não me parece.
Não conheço muito de Pessoa. Não se dava nos meus tempos de liceu; em casa havia uns livros de poesia, creio aliás que haveria alguns dele mas, espontaneamente, lia mais prosa que poesia. Foi-me apresentado por um colega de turma no último ano do secundário e lembro-me de ficar indignada com a questão dos heterónimos. Ainda me vejo, na esquina onde nos separávamos no regresso a casa (e onde ficávamos, por vezes, horas discutindo este mundo e o outro) a argumentar que isso de ter várias personalidades era muito fácil (influenciada talvez pela leitura de Dr Jekyll and Mr. Hyde), céus que comparação idiota. Pensava então, creio, naquela linearidade adolescente que tínhamos de ser coerentes em todos os campos (não cresci muito desde então, infelizmente). Não o percebia na altura e tenho pena de não ter estudado. Pelos olhos de um professor apaixonado é tudo muito mais interessante. Tivemos uma belíssima professora de Português, por acaso, o Pessoa é que estava ainda de fora dos programas.
Fiquei surpresa, este Verão quando ao receber cá as francesas (as da dança barroca) soube que uma delas era fã do Pessoa. Aliás, a primeira coisa que a Typhaine me pediu, estendendo-me o mapa de Lisboa, foi a indicação da rua da casa de Fernando Pessoa. E foi lá que iniciou a sua visita da cidade.
Vou aproveitando para colmatar a lacuna e a exposição, no dizer de alguns alunos, merece uma segunda visita. Concordo e creio que voltarei.
Recuperando o tema de hoje, a notoriedade, deixo aqui um poema de que gosto muito e que descobri um dia ao folhear um livro de Sebastião Alba. Um daqueles poemas que nos saltam ao colo (há os que descobrem a poesia na adolescência, há os outros que a encontram bem tarde na idade adulta).
Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.
Sebastião Alba, in Uma pedra ao lado da evidência (que título fabuloso, hem?)
Tudo isto hoje, também, por vir inspirada da escola. Uma aula fora de série, hoje preparada e conduzida pela Mafalda da turma F. Não tenho imagens (não levei a câmara) mas colmataremos essa falha no próximo dia.