Fui recuperar este trabalho que a Ana Sofia trouxe, no ano passado, para a sua turma. Foi trabalhado por eles, tal como as vossas há pouco tempo. A ideia é a de vos dar mais algum vocabulário motor: afastem os móveis da sala e treinem. Têm três frases bem diferentes, todas susceptíveis de ser executadas em espaço reduzido. Ao praticá-las , ganharão desenvoltura e confiança. Complementam a pesquisa que têm feito e depois a criação fluirá.
sábado, 29 de novembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
contributos (3)
As imagens das duas "frases" trazidas com prontidão na semana passada pela Mafalda e a Joana.
A execução geral já não teve o nível alcançado nas respectivas aulas. É natural, muita água passou pelas pontes entretanto. Para alem de todos os colegas terem estado envolvidos nas suas próprias criações (quando o vocabulário é reduzido - agora falo do motor mas poderia falar do verbal, é igual - qualquer nova aprendizagem necessita de consolidação) não houve praticamente treino antes da filmagem. Foi revisão e teste!
Mas cá ficam para memória futura.
Muito boas, ambas. Com o bonus suplementar de serem tão diferentes.
A execução geral já não teve o nível alcançado nas respectivas aulas. É natural, muita água passou pelas pontes entretanto. Para alem de todos os colegas terem estado envolvidos nas suas próprias criações (quando o vocabulário é reduzido - agora falo do motor mas poderia falar do verbal, é igual - qualquer nova aprendizagem necessita de consolidação) não houve praticamente treino antes da filmagem. Foi revisão e teste!
Mas cá ficam para memória futura.
Muito boas, ambas. Com o bonus suplementar de serem tão diferentes.
sábado, 22 de novembro de 2008
introdução
Numa pausa da leitura dos relatórios (já tendo arejado a cabeça e a cadela na praia, a roupa a secar na corda, sopa feita, jornal lido, maravilha o que rende uma tarde sem Manifestação) venho até aqui, meio desesperada, reforçar umas ideias.
Introdução, adj. Acto ou efeito de introduzir. Importação. Preâmbulo, prefácio. Sinfonia de abertura. (Lat. introductio), Cândido de Figueiredo Novo dicionário da língua portuguesa, 5ª ed. Lisboa, Livraria Bertrand
Acto ou efeito de introduzir. Preâmbulo. Sinfonia de abertura, que ideia grandiosa. E adequada.
[aqui há uns anos havia, na blogosfera, um concurso para encontrar a melhor primeira frase de um livro de ficção. Não sei qual o seu peso na compra impulsiva de um livro, há-de haver estudos sobre isso (há estudos para tudo). Falando por mim, é a primeira página que é importante. Quantos livros não comprei eu já por essa paixão intempestiva e é raro sair defraudada]
É um cartão de visita, diz-se. E é. É pela introdução que se capta o interesse do leitor. Neste caso, vocês não precisam de captar nada, terei de ler todos os relatórios mas é um treino para ocasiões futuras. Aprendam o saber vender-se, vai-vos ser preciso uma e outra vez.
Obedece a princípios - começar por um enquadramento geral (a AP no currículo do ensino secundário), depois específico (a AP dança na escola secundária de Camões); esclarecer do interesse e pertinência do relatório (a resposta ao porquê e para quê deve ficar explícita, clara). Finalmente deve informar-se do seu conteúdo, isto é, o desenvolvimento do relatório (corpo do trabalho).
E pronto. Simples.
(são gostos, é claro, mas eu redijo-a sempre no final. Já sei de que se trata o trabalho, já percebi a sua pertinência, o seu valor, tenho melhor percepção de como vender o meu produto)
E regresso a mais alguns.
Introdução, adj. Acto ou efeito de introduzir. Importação. Preâmbulo, prefácio. Sinfonia de abertura. (Lat. introductio), Cândido de Figueiredo Novo dicionário da língua portuguesa, 5ª ed. Lisboa, Livraria Bertrand
Acto ou efeito de introduzir. Preâmbulo. Sinfonia de abertura, que ideia grandiosa. E adequada.
[aqui há uns anos havia, na blogosfera, um concurso para encontrar a melhor primeira frase de um livro de ficção. Não sei qual o seu peso na compra impulsiva de um livro, há-de haver estudos sobre isso (há estudos para tudo). Falando por mim, é a primeira página que é importante. Quantos livros não comprei eu já por essa paixão intempestiva e é raro sair defraudada]
É um cartão de visita, diz-se. E é. É pela introdução que se capta o interesse do leitor. Neste caso, vocês não precisam de captar nada, terei de ler todos os relatórios mas é um treino para ocasiões futuras. Aprendam o saber vender-se, vai-vos ser preciso uma e outra vez.
Obedece a princípios - começar por um enquadramento geral (a AP no currículo do ensino secundário), depois específico (a AP dança na escola secundária de Camões); esclarecer do interesse e pertinência do relatório (a resposta ao porquê e para quê deve ficar explícita, clara). Finalmente deve informar-se do seu conteúdo, isto é, o desenvolvimento do relatório (corpo do trabalho).
E pronto. Simples.
(são gostos, é claro, mas eu redijo-a sempre no final. Já sei de que se trata o trabalho, já percebi a sua pertinência, o seu valor, tenho melhor percepção de como vender o meu produto)
E regresso a mais alguns.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
contrastes
Era o nome de um peça no ano passado. Falava do conflito entre branco e o preto (o bem e o mal?), numa indecisão (luta diária?) (mal) resolvida pelo equilíbrio que finalmente se conseguia estabelecer. Todos estes parênteses a atrapalharem a leitura do texto, a remeterem também para uma situação actual. A nossa situação de professores e a dos alunos, naturalmente. A das escolas, afinal.
Ocorreu-me este título por, mais uma vez, vir da escola em estado de graça. A minha filha mais nova (a única que está em casa quando eu regresso) ri-se quando ao "como é que correu o teu dia?", eu respondo de sorriso largo "mais uma aula espectacular". Olha para mim atentamente e eu conto a aula.
Hoje, tirando os atrasos costumeiros das pessoas do costume (eu estou de olhos fechados mas sei bem quem são) foi uma aula perfeita. O aquecimento, os exercícios de contacto e de entrega, as actividades exploratórias, o treino das diferentes acções. A cereja no bolo - a pequena coreografia trazida pela Joana, a corresponder no pormenor ao pretendido para esta fase do trabalho. As acções que incluiu, o seu encadeamento, as diferentes configurações, os níveis em que se trabalhou. A intensidade expressa pela limpidez dos gestos, pela sua energia, pelo uso do tempo. A suspensão logo seguida da urgência, a determinação do olhar secundada pelo corpo presente. Magnífico!
Duas aulas seguidas maravilhosas! Fundamentais, as meninas que com prontidão corresponderam à solicitação - ontem a Mafalda, hoje a Joana.
A ambas, o meu agradecimento sentido.
Depois, vem a parte negra e aí eu lembro-me dos contrastes. O conflito entre o branco e o preto, os bons - nós (isto é um filme de cowboys) contra os maus - eles. Professores vs Ministério da Educação (esta luta transcende largamente a Ministra, é todo aquele edifício a pedir desmantelamento). São estes bons momentos que equilibram o barco. A peça finalizava com o estertor de uns e outros, ficando vivo em palco apenas o branco-e-preto. Não descortino quem possa - neste filme - ser essa personagem.
Ocorreu-me este título por, mais uma vez, vir da escola em estado de graça. A minha filha mais nova (a única que está em casa quando eu regresso) ri-se quando ao "como é que correu o teu dia?", eu respondo de sorriso largo "mais uma aula espectacular". Olha para mim atentamente e eu conto a aula.
Hoje, tirando os atrasos costumeiros das pessoas do costume (eu estou de olhos fechados mas sei bem quem são) foi uma aula perfeita. O aquecimento, os exercícios de contacto e de entrega, as actividades exploratórias, o treino das diferentes acções. A cereja no bolo - a pequena coreografia trazida pela Joana, a corresponder no pormenor ao pretendido para esta fase do trabalho. As acções que incluiu, o seu encadeamento, as diferentes configurações, os níveis em que se trabalhou. A intensidade expressa pela limpidez dos gestos, pela sua energia, pelo uso do tempo. A suspensão logo seguida da urgência, a determinação do olhar secundada pelo corpo presente. Magnífico!
Duas aulas seguidas maravilhosas! Fundamentais, as meninas que com prontidão corresponderam à solicitação - ontem a Mafalda, hoje a Joana.
A ambas, o meu agradecimento sentido.
Depois, vem a parte negra e aí eu lembro-me dos contrastes. O conflito entre o branco e o preto, os bons - nós (isto é um filme de cowboys) contra os maus - eles. Professores vs Ministério da Educação (esta luta transcende largamente a Ministra, é todo aquele edifício a pedir desmantelamento). São estes bons momentos que equilibram o barco. A peça finalizava com o estertor de uns e outros, ficando vivo em palco apenas o branco-e-preto. Não descortino quem possa - neste filme - ser essa personagem.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
notoriedade
Ainda a propósito da exposição de ontem, Weltliteratur, na Gulbenkian.
Numa das salas, lemos um texto em que Pessoa interrogava Teixeira de Pascoaes sobre quem teria mais valor: o escritor de quem toda a gente falava e ninguém lia ou aquele de quem ninguém falava e toda a gente lia. Concluíram ambos que tinha mais valor aquele de quem se falava e ninguém lia.
Esta história é um pouco bizarra. Para alem da questão do valor, o que quereriam eles dizer com valor?, tento imaginar um escritor que toda a gente leia mas do qual ninguém fale. E não consigo ver nenhum. Não se referiam certamente a jornalistas, a publicitários (todos os lemos) também não me parece.
Não conheço muito de Pessoa. Não se dava nos meus tempos de liceu; em casa havia uns livros de poesia, creio aliás que haveria alguns dele mas, espontaneamente, lia mais prosa que poesia. Foi-me apresentado por um colega de turma no último ano do secundário e lembro-me de ficar indignada com a questão dos heterónimos. Ainda me vejo, na esquina onde nos separávamos no regresso a casa (e onde ficávamos, por vezes, horas discutindo este mundo e o outro) a argumentar que isso de ter várias personalidades era muito fácil (influenciada talvez pela leitura de Dr Jekyll and Mr. Hyde), céus que comparação idiota. Pensava então, creio, naquela linearidade adolescente que tínhamos de ser coerentes em todos os campos (não cresci muito desde então, infelizmente). Não o percebia na altura e tenho pena de não ter estudado. Pelos olhos de um professor apaixonado é tudo muito mais interessante. Tivemos uma belíssima professora de Português, por acaso, o Pessoa é que estava ainda de fora dos programas.
Fiquei surpresa, este Verão quando ao receber cá as francesas (as da dança barroca) soube que uma delas era fã do Pessoa. Aliás, a primeira coisa que a Typhaine me pediu, estendendo-me o mapa de Lisboa, foi a indicação da rua da casa de Fernando Pessoa. E foi lá que iniciou a sua visita da cidade.
Vou aproveitando para colmatar a lacuna e a exposição, no dizer de alguns alunos, merece uma segunda visita. Concordo e creio que voltarei.
Recuperando o tema de hoje, a notoriedade, deixo aqui um poema de que gosto muito e que descobri um dia ao folhear um livro de Sebastião Alba. Um daqueles poemas que nos saltam ao colo (há os que descobrem a poesia na adolescência, há os outros que a encontram bem tarde na idade adulta).
Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.
Sebastião Alba, in Uma pedra ao lado da evidência (que título fabuloso, hem?)
Tudo isto hoje, também, por vir inspirada da escola. Uma aula fora de série, hoje preparada e conduzida pela Mafalda da turma F. Não tenho imagens (não levei a câmara) mas colmataremos essa falha no próximo dia.
Numa das salas, lemos um texto em que Pessoa interrogava Teixeira de Pascoaes sobre quem teria mais valor: o escritor de quem toda a gente falava e ninguém lia ou aquele de quem ninguém falava e toda a gente lia. Concluíram ambos que tinha mais valor aquele de quem se falava e ninguém lia.
Esta história é um pouco bizarra. Para alem da questão do valor, o que quereriam eles dizer com valor?, tento imaginar um escritor que toda a gente leia mas do qual ninguém fale. E não consigo ver nenhum. Não se referiam certamente a jornalistas, a publicitários (todos os lemos) também não me parece.
Não conheço muito de Pessoa. Não se dava nos meus tempos de liceu; em casa havia uns livros de poesia, creio aliás que haveria alguns dele mas, espontaneamente, lia mais prosa que poesia. Foi-me apresentado por um colega de turma no último ano do secundário e lembro-me de ficar indignada com a questão dos heterónimos. Ainda me vejo, na esquina onde nos separávamos no regresso a casa (e onde ficávamos, por vezes, horas discutindo este mundo e o outro) a argumentar que isso de ter várias personalidades era muito fácil (influenciada talvez pela leitura de Dr Jekyll and Mr. Hyde), céus que comparação idiota. Pensava então, creio, naquela linearidade adolescente que tínhamos de ser coerentes em todos os campos (não cresci muito desde então, infelizmente). Não o percebia na altura e tenho pena de não ter estudado. Pelos olhos de um professor apaixonado é tudo muito mais interessante. Tivemos uma belíssima professora de Português, por acaso, o Pessoa é que estava ainda de fora dos programas.
Fiquei surpresa, este Verão quando ao receber cá as francesas (as da dança barroca) soube que uma delas era fã do Pessoa. Aliás, a primeira coisa que a Typhaine me pediu, estendendo-me o mapa de Lisboa, foi a indicação da rua da casa de Fernando Pessoa. E foi lá que iniciou a sua visita da cidade.
Vou aproveitando para colmatar a lacuna e a exposição, no dizer de alguns alunos, merece uma segunda visita. Concordo e creio que voltarei.
Recuperando o tema de hoje, a notoriedade, deixo aqui um poema de que gosto muito e que descobri um dia ao folhear um livro de Sebastião Alba. Um daqueles poemas que nos saltam ao colo (há os que descobrem a poesia na adolescência, há os outros que a encontram bem tarde na idade adulta).
Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.
Sebastião Alba, in Uma pedra ao lado da evidência (que título fabuloso, hem?)
Tudo isto hoje, também, por vir inspirada da escola. Uma aula fora de série, hoje preparada e conduzida pela Mafalda da turma F. Não tenho imagens (não levei a câmara) mas colmataremos essa falha no próximo dia.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
corpo e vídeo
O Carlos Vargas (da Becre) enviou-me um link de um evento que irá decorrer no final da próxima semana. Trata-se de uma mostra internacional de vídeo-dança, irá decorrer no S. Luís nos próximos dia 24 e 25 de Novembro às 21.30.
Parece ser muito interessante, o cartaz é bem apelativo.
Por outro lado, (quase) nestes mesmos dias há uma outra proposta com um cartaz igualmente apelativo.

Feminine, na Culturgeste no sábado (21:30) e domingo (16:00).
Talvez devêssemos considerar este último. Bons motivos: Fernando Pessoa é a inspiração do coreógrafo, o local é muito acessível e por último um custo módico - 5 €. A Culturgeste tem uma política de incentivo à juventude até aos 25 anos e pratica sempre estes preços. Atenção, que resulta bem - se considerarem ir, tratem de adquirir os bilhetes com alguma antecedência.
Nem de propósito aparece bem na hora um dos autores estudados no programa do 12º ano (e com tendência a sair no exame). Hoje, na sequência da visita de estudo à Weltliteratur, com a turma C e a sua prof. Paula Lopes (que sorte ter-me convidado!) vinha a conversar com ela no quão interessante seria conseguirmos trabalhar um dos poemas de Pessoa numa das nossas peças. Com efeito, teria (terá) toda a relevância dentro do tema dos 100 anos. Ela gostou da ideia e prestou-se logo à colaboração, um bem raro e a tomar com ambas as mãos.
Parece ser muito interessante, o cartaz é bem apelativo.
Por outro lado, (quase) nestes mesmos dias há uma outra proposta com um cartaz igualmente apelativo.

Feminine, na Culturgeste no sábado (21:30) e domingo (16:00).
Talvez devêssemos considerar este último. Bons motivos: Fernando Pessoa é a inspiração do coreógrafo, o local é muito acessível e por último um custo módico - 5 €. A Culturgeste tem uma política de incentivo à juventude até aos 25 anos e pratica sempre estes preços. Atenção, que resulta bem - se considerarem ir, tratem de adquirir os bilhetes com alguma antecedência.
Nem de propósito aparece bem na hora um dos autores estudados no programa do 12º ano (e com tendência a sair no exame). Hoje, na sequência da visita de estudo à Weltliteratur, com a turma C e a sua prof. Paula Lopes (que sorte ter-me convidado!) vinha a conversar com ela no quão interessante seria conseguirmos trabalhar um dos poemas de Pessoa numa das nossas peças. Com efeito, teria (terá) toda a relevância dentro do tema dos 100 anos. Ela gostou da ideia e prestou-se logo à colaboração, um bem raro e a tomar com ambas as mãos.
sábado, 15 de novembro de 2008
"we don't have a second chance
to make a good first impression".
Foi com esta frase que eu iniciei a minha relação com a minha direcção de turma há quatro anos atrás. Eu estava ansiosa, colocada naquele ano na secundária de Camões, iria fazer a apresentação de uma escola que eu mal conhecia a um grupo de alunos tão frescos quanto eu (enfim, quase, alguns repetiam o 10º ano, conheciam-na bem e à sua cultura).
Pretendi com aquela abertura captar-lhes a atenção e alertá-los para um efeito que acontece com frequência - a persistência no tempo das primeiras impressões. Um aluno que obtenha bons resultados numa fase inicial contará com mais benevolência do professor em tropeço futuro que aquele que começou mal e que, de repente, tem uma boa avaliação. Insisti com eles para darem tudo por tudo no primeiro período: vinham frescos das férias, iriam causar uma boa impressão nos professores, eles próprios iriam ganhar confiança em si mesmos e, por conseguinte, trabalhar melhor e com mais gosto. Só vantagens. Saiu-me logo o tiro pela culatra quando, no final dessa aula - prossegui com o meu discurso falando em honrar o nome da escola, o dos seus pais, o deles próprios - lhes entreguei o cartão de estudante (recebidos no momento) e constatámos ali que estes não tinham fotos, tinham os nomes truncados, enfim, tinham sido feitos às três pancadas, sem pinga de brio. Eu a falar da cultura da escola - aquela que eu imaginava - e saiem-me uns cartões descuidados, de escola que não se leva a sério. Hoje sorrio da minha ingenuidade mas é um sorriso ainda amargo.
Esta conversa vem a propósito do espectáculo de ontem "The other side" e "Relações". Cheguei a pensar em ir vê-lo no ano passado à casa mãe - Os recreios da Amadora; algo de imprevisto surgiu e não aconteceu. Foi por bem, gostei muito de ontem ter estado no Teatro Camões com alguns alunos na situação de "first impressions". Deles e minhas. Deles, espero que boas. Mais um aparte - um professor que tive contou que a determinada altura da sua vida tinha mantido, na sua escola, um grupo de dança. Era uma escola de 2º ciclo, miúdos novinhos portanto. Ao cabo de uns bons meses de trabalho tinha-os levado a ver uma peça de dança contemporânea; esta foi tão vanguardista - leia-se tão estranha, tão feia, tão agreste - que ele sentiu-se, logo ali, mal por ter os alunos consigo. E com efeito, um dos alunos que mais promissor lhe parecia nunca mais pôs os pés no grupo. Dizia, conformado pelo tempo, este meu professor: ele terá pensado "dançar é fazer estas figuras? É que nem pensar!"
Lembro-me sempre desta história do meu professor Luís Xarez. Lembro-me também, e ontem contava isto à Catarina, à Luísa e ao Miguel, da minha repulsa por uma peça que vi há alguns trinta anos - As Troianas, de Olga Roriz. A experiência foi tão má, tão traumatizante (e céus, quando eu repugno esta ideia de trauma insuperável) que eu e a minha amiga Maria João fizemos um pacto "nunca mais, mas nunca mais mesmo, vamos ver uma peça da Olga Roriz". Honrei, até à data essa promessa, embora não me orgulhe disso. Na realidade, já a poderia (e deveria?) ter quebrado. Todas as pessoas que me disseram ter assistido a "Pedro e Inês", adoraram. Bom, não calhou. Da próxima vez que subir à cena, farei um real esforço de ir ver.
Não me coíbo nada de sair a meio de um filme ou de uma peça que não me esteja a dizer nada. É o preço, faz parte dos custos de assistir ao vivo; em casa desliga-se o aparelho e vamos para a cama mas com metade da piada de estar lá, numa sala escura, com a respiração de outrem ao nosso lado. Por vezes de enfado, a maior parte das vezes emocionada. É tudo mais forte, digamos assim.
De qualquer modo, esta argumentação não impede que pondere cuidadosamente "a primeira vez" dos alunos que convido. Há uma responsabilidade acrescida. Quero despontar-lhes o gosto, não marcá-los negativamente.
Ontem, penso ter sido uma boa aposta. As peças tiveram de tudo: vanguardismo, drama, angústia, leveza, desprendimento. Gostei do ênfase na voz em The other side. Dos cenários também, da angústia tão presente. Do ambiente urbano. Algo na peça - os cenários, a luz, a coreografia, (influenciada, talvez, pela leitura antecipada da sinopse) me fez lembrar West Side Story um filme que mexeu muito comigo em plena adolescência.
"Relações", a segunda peça, sonhadora, colorida, descomprometida. Com os bailarinos pintando na tela, depois em si, depois nos outros. Não era uma evocação do digitinta de infantário mas para lá caminhava. Um gozo, este de escrever em qualquer superfície, inclusive, nós próprios. Sem laivos de sensualidade ou perversão - não, não era " O Livro de Cabeceira" de Peter Greenaway, do qual penso já ter falado, era um inocente desvario, aquele pincelar colorido.
Tivemos, assim, direito a duas peças com recursos menos comuns (para nós, para mim) mas ainda assim com um desenrolar reconhecível e por isso, melhor compreendido.
Creio assim que a ida ao Camões abriu portas e não fechou janelas. Ou melhor, ao contrário, abriu janelas e não fechou portas.
Quanto às primeiras impressões, bom, felizmente, temos sempre as segundas e as terceiras. Tive - e continuo tendo - ocasião de reformular aquele arrepio inicial. A escola é algo mais que os cartões de aluno.
Foi com esta frase que eu iniciei a minha relação com a minha direcção de turma há quatro anos atrás. Eu estava ansiosa, colocada naquele ano na secundária de Camões, iria fazer a apresentação de uma escola que eu mal conhecia a um grupo de alunos tão frescos quanto eu (enfim, quase, alguns repetiam o 10º ano, conheciam-na bem e à sua cultura).
Pretendi com aquela abertura captar-lhes a atenção e alertá-los para um efeito que acontece com frequência - a persistência no tempo das primeiras impressões. Um aluno que obtenha bons resultados numa fase inicial contará com mais benevolência do professor em tropeço futuro que aquele que começou mal e que, de repente, tem uma boa avaliação. Insisti com eles para darem tudo por tudo no primeiro período: vinham frescos das férias, iriam causar uma boa impressão nos professores, eles próprios iriam ganhar confiança em si mesmos e, por conseguinte, trabalhar melhor e com mais gosto. Só vantagens. Saiu-me logo o tiro pela culatra quando, no final dessa aula - prossegui com o meu discurso falando em honrar o nome da escola, o dos seus pais, o deles próprios - lhes entreguei o cartão de estudante (recebidos no momento) e constatámos ali que estes não tinham fotos, tinham os nomes truncados, enfim, tinham sido feitos às três pancadas, sem pinga de brio. Eu a falar da cultura da escola - aquela que eu imaginava - e saiem-me uns cartões descuidados, de escola que não se leva a sério. Hoje sorrio da minha ingenuidade mas é um sorriso ainda amargo.
Esta conversa vem a propósito do espectáculo de ontem "The other side" e "Relações". Cheguei a pensar em ir vê-lo no ano passado à casa mãe - Os recreios da Amadora; algo de imprevisto surgiu e não aconteceu. Foi por bem, gostei muito de ontem ter estado no Teatro Camões com alguns alunos na situação de "first impressions". Deles e minhas. Deles, espero que boas. Mais um aparte - um professor que tive contou que a determinada altura da sua vida tinha mantido, na sua escola, um grupo de dança. Era uma escola de 2º ciclo, miúdos novinhos portanto. Ao cabo de uns bons meses de trabalho tinha-os levado a ver uma peça de dança contemporânea; esta foi tão vanguardista - leia-se tão estranha, tão feia, tão agreste - que ele sentiu-se, logo ali, mal por ter os alunos consigo. E com efeito, um dos alunos que mais promissor lhe parecia nunca mais pôs os pés no grupo. Dizia, conformado pelo tempo, este meu professor: ele terá pensado "dançar é fazer estas figuras? É que nem pensar!"
Lembro-me sempre desta história do meu professor Luís Xarez. Lembro-me também, e ontem contava isto à Catarina, à Luísa e ao Miguel, da minha repulsa por uma peça que vi há alguns trinta anos - As Troianas, de Olga Roriz. A experiência foi tão má, tão traumatizante (e céus, quando eu repugno esta ideia de trauma insuperável) que eu e a minha amiga Maria João fizemos um pacto "nunca mais, mas nunca mais mesmo, vamos ver uma peça da Olga Roriz". Honrei, até à data essa promessa, embora não me orgulhe disso. Na realidade, já a poderia (e deveria?) ter quebrado. Todas as pessoas que me disseram ter assistido a "Pedro e Inês", adoraram. Bom, não calhou. Da próxima vez que subir à cena, farei um real esforço de ir ver.
Não me coíbo nada de sair a meio de um filme ou de uma peça que não me esteja a dizer nada. É o preço, faz parte dos custos de assistir ao vivo; em casa desliga-se o aparelho e vamos para a cama mas com metade da piada de estar lá, numa sala escura, com a respiração de outrem ao nosso lado. Por vezes de enfado, a maior parte das vezes emocionada. É tudo mais forte, digamos assim.
De qualquer modo, esta argumentação não impede que pondere cuidadosamente "a primeira vez" dos alunos que convido. Há uma responsabilidade acrescida. Quero despontar-lhes o gosto, não marcá-los negativamente.
Ontem, penso ter sido uma boa aposta. As peças tiveram de tudo: vanguardismo, drama, angústia, leveza, desprendimento. Gostei do ênfase na voz em The other side. Dos cenários também, da angústia tão presente. Do ambiente urbano. Algo na peça - os cenários, a luz, a coreografia, (influenciada, talvez, pela leitura antecipada da sinopse) me fez lembrar West Side Story um filme que mexeu muito comigo em plena adolescência.
"Relações", a segunda peça, sonhadora, colorida, descomprometida. Com os bailarinos pintando na tela, depois em si, depois nos outros. Não era uma evocação do digitinta de infantário mas para lá caminhava. Um gozo, este de escrever em qualquer superfície, inclusive, nós próprios. Sem laivos de sensualidade ou perversão - não, não era " O Livro de Cabeceira" de Peter Greenaway, do qual penso já ter falado, era um inocente desvario, aquele pincelar colorido.
Tivemos, assim, direito a duas peças com recursos menos comuns (para nós, para mim) mas ainda assim com um desenrolar reconhecível e por isso, melhor compreendido.
Creio assim que a ida ao Camões abriu portas e não fechou janelas. Ou melhor, ao contrário, abriu janelas e não fechou portas.
Quanto às primeiras impressões, bom, felizmente, temos sempre as segundas e as terceiras. Tive - e continuo tendo - ocasião de reformular aquele arrepio inicial. A escola é algo mais que os cartões de aluno.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
contributos (2)
Um momento improvável numa banal escola secundária do sistema público português, tão alheado (avesso?) do ensino artístico e da dança em particular.
A aula, proposta, concebida e orientada pela Inês e Catarina que tiveram ambas uma sólida formação de ballet na infância, foi um momento único na minha vida de professora. É certo que toda esta experiência da área de projecto nesta "banal escola secundária do sistema público português" tem sido uma sucessão e somatório (estes termos de eco matemáticos não são contraditórios, espero) de momentos únicos. Quando, num dia especial, penso ter sido alcançado um patamar insuperável, vem outro dia, outra situação, turma diferente a desmentir aquela sensação. Um pouco como os recordes de natação, até quando vão eles cair? Pensávamos que já não será possível e depois vêm uns engenheiros com uma concepção de piscina diferente, outros com um fato xpto e ainda um nadador com instintos de matador a não desistir antes do derrube final.
Aqui na escola tem sido assim também. Não cesso de me comover com a generosidade, a riqueza interior, a abertura dos jovens que vão passando pela sala de espelhos. Refiro-me a todos, aqui. Às meninas que prepararam, aos colegas que receberam.
Muito belo, uma experiência transcendente.
contributos
Um momento da aula de hoje. Um exercício de entrega ao outro e de confiança no outro. Primeiro memorizámos com os dedos a cara do parceiro, depois, propuseram-nos que o identificássemos no seio de um grupo. Nada fácil, não estamos habituados a confiar no sentido do tacto, não o desenvolvemos. A Carla tinha uma técnica muito própria - a de perceber o outro pelas suas sobrancelhas. E resultou, encontrou a sua parceira.
Uma belíssima aula, a que a Joana organizou hoje para nós. Muito bem pensada e preparada. Trouxe-nos sugestões de leituras, cuidou da selecção musical ("que música é esta, Joana? Que disco é este? No final, quero que me emprestes") bem adequada aos exercícios que escolheu.
A adesão da turma foi total e faço minhas as palavras da Carla e estendo-as um pouco "muito obrigado Joana, por esta abordagem ao maravilhoso mundo do teatro".
domingo, 9 de novembro de 2008
buscas
"O século XX é um século de dança. Nunca se dançou tanto, nunca houve um tão grande número de criadores e intérpretes. Nunca a dança se transformou tão intensamente como neste século e nunca tão vastos públicos se sentiram atraídos pela dança. No século XX, a dança veio a assumir um lugar de plena paridade com as demais artes, pela sua capacidade de renovação estética e pelo modo como incide sobre a evolução artística em geral. Nestes quase cem anos que vão decorridos, rompeu-se, na Europa e na América do Norte, com o monopólio do bailado clássico, mas fez-se também chegar a todas as latitudes o conhecimento desta tradição. Alterou-se a maneira de viver a dança, de a fazer e de a receber. Neste fim de século, o processo não pára e a vitalidade da arte da dança está patente em cada uma das suas manifestações. Chamados a realizar o balanço do século, a partir de Lisboa, a questão que surge espontânea é a de saber quando e como se viveu na capital esta efervescência."
in Dançaram em Lisboa 1900 / 1994
Este excerto não é, mas podia ser, a introdução do livro editado pela Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura. Pretendeu a comissão organizadora "preservar a memória de Lisboa enquanto palco privilegiado e "cais de acostagem da Dança", através do registo cronológico das companhias e artistas internacionais que nos vieram visitando ao longo deste século (...)" como ainda colmatar "a quase ausência de obras de Dança no nosso País (...) possam ir ao encontro da curiosidade do público em geral, mas também da necessidade de consulta de obras de referência por parte de quem estuda ou se interessa".
Eu. Nós.
Este livro faz, desde ontem, parte do meu património. Tomei o comboio mais cedo de modo a poder, antes de me juntar aos meus colegas, tentar a minha sorte na Rua Anchieta (ali na Lisboa de Pessoa que vocês irão daqui a bem pouco tempo, visitar). Aos Sábados tem um mercadinho do livro usado e algumas raridades (resisti com dificuldade a uma edição francesa de ginástica sueca). Tive muita sorte, um curioso do público em geral desfez-se, no tempo certo (de vir parar às minhas mãos), do seu exemplar deste Dançaram em Lisboa. É um livro que fazia parte da minha lista "a adquirir" pois já o tinha consultado algumas vezes na biblioteca de Oeiras. Um espécime marcado apenas para consulta local, não podia ser trazido para casa, um inconveniente aborrecido. Há outras bibliotecas em Lisboa em que isso não acontece mas requer um investimento de tempo precioso, andar de uma para outra.
A sua consulta tem-se-me imposto desde o final do ano passado por saber que temos - este ano - o desafio dos 100 anos. Trata-se de tomar o gosto à época, ou seja, tentar aperceber-me do clima, do ambiente que então se vivia. O livro tem uma bela organização, elenca todas as apresentações de relevo com os nomes de intérpretes, coreógrafos, música, etc, etc, inclui um perfil da companhia e ainda excertos das críticas que os espectáculos receberam. Fabuloso!, vejam este pedaço referente aos Ballets Russes que vieram a Liboa em Dezembro de 1917:
"Depois de se apresentar em Espanha, a companhia visitava Portugal pela primeira vez. Realizava-se assim a aspiração de "algumas das principais famílias da capital portuguesa", que no ano anterior tinham insistido com os empresários para trazerem a Lisboa os Ballets Russes de Diaghilev. A sua estadia foi, no entanto, atribulada face aos contínuos focos de agitação político-revolucionária que levaram Sidónio Pais à Presidência da República. Assim, a data prevista para a sua estreia foi adiada por um período de quinze dias."
Tudo isto aqui à nossa porta, os focos de agitação e no intermezzo, os Ballets Russes no Coliseu.
Certo ser um desafio auto-imposto, todavia, é colocado também pela comunidade. Esperam de nós algo de bem específico este ano sem terem a real noção da magnitude da tarefa. A história da escola não está feita, o guião terá de ser feito por nós. Para além da pesquisa história, selecção dos episódios, teremos ainda a pesquisa específica - que dança(s)? que música(s)?, que guarda-roupa?, qual o ambiente?. Interessante, sem dúvida. Assustador, idem.
Ter algumas fontes à distância de um braço tranquiliza-me. Foi um dia em grande ontem. Cruzei-me na gare do comboio com colegas da escola antiga, os profs da linha vinham para Lisboa dizer de sua justiça. Meteram-se comigo "ena! que grande mochila, levas aí o farnel?" Ri-me, claro, pensando "quem sabe, vou ter sorte".
Tive. Quer com o livro, quer depois com o resto da tarde.
Uma emoção sentir o uníssono de uma classe tradicionalmente dividida. Pregamos e advogamos o trabalho de grupo, na prática, realizamos-lo pouco e a espaços. [não sucede isso na nossa escola no grupo de educação física, bem pelo contrário, mas falo agora do global]. Esqueci-me do telemóvel em casa, só ao princípio da noite me consegui juntar à Escola Secundária de Camões que subia a Avenida fechando o cortejo. Na procura, encontrei imensos colegas de curso, colegas de escolas antigas, cumprimentei e fui cumprimentada por colegas que não consigo ainda localizar quer no tempo, quer no espaço e a empatia genuína, solidária, alegre.
Chegámos ao Marquês noite cerrada, os últimos dos últimos. Depois das despedidas desci a avenida sem carros, os manifestantes ocupando ainda a faixa central. Irritação (compreensível, nas corridas também sucede) dos condutores nas laterais. Um ambiente onírico, ainda assim. A noite escura, sem vento, um ar de inverno pelo fumo das castanhas que aprisionado por uma massa mais fria não se dispersava com facilidade. A faixa central livre para nós, os peões, os cidadãos. Ao descer na escuridão, um sentimento de paz, de fim de batalha que sabemos não ter vencido (não, nem sequer esta, a opinião pública não nos percebe, os nossos amigos não nos percebem, nem sequer os nossos familiares) mas que nos soube tão bem travar.
Um percurso.
in Dançaram em Lisboa 1900 / 1994
Este excerto não é, mas podia ser, a introdução do livro editado pela Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura. Pretendeu a comissão organizadora "preservar a memória de Lisboa enquanto palco privilegiado e "cais de acostagem da Dança", através do registo cronológico das companhias e artistas internacionais que nos vieram visitando ao longo deste século (...)" como ainda colmatar "a quase ausência de obras de Dança no nosso País (...) possam ir ao encontro da curiosidade do público em geral, mas também da necessidade de consulta de obras de referência por parte de quem estuda ou se interessa".
Eu. Nós.
Este livro faz, desde ontem, parte do meu património. Tomei o comboio mais cedo de modo a poder, antes de me juntar aos meus colegas, tentar a minha sorte na Rua Anchieta (ali na Lisboa de Pessoa que vocês irão daqui a bem pouco tempo, visitar). Aos Sábados tem um mercadinho do livro usado e algumas raridades (resisti com dificuldade a uma edição francesa de ginástica sueca). Tive muita sorte, um curioso do público em geral desfez-se, no tempo certo (de vir parar às minhas mãos), do seu exemplar deste Dançaram em Lisboa. É um livro que fazia parte da minha lista "a adquirir" pois já o tinha consultado algumas vezes na biblioteca de Oeiras. Um espécime marcado apenas para consulta local, não podia ser trazido para casa, um inconveniente aborrecido. Há outras bibliotecas em Lisboa em que isso não acontece mas requer um investimento de tempo precioso, andar de uma para outra.
A sua consulta tem-se-me imposto desde o final do ano passado por saber que temos - este ano - o desafio dos 100 anos. Trata-se de tomar o gosto à época, ou seja, tentar aperceber-me do clima, do ambiente que então se vivia. O livro tem uma bela organização, elenca todas as apresentações de relevo com os nomes de intérpretes, coreógrafos, música, etc, etc, inclui um perfil da companhia e ainda excertos das críticas que os espectáculos receberam. Fabuloso!, vejam este pedaço referente aos Ballets Russes que vieram a Liboa em Dezembro de 1917:
"Depois de se apresentar em Espanha, a companhia visitava Portugal pela primeira vez. Realizava-se assim a aspiração de "algumas das principais famílias da capital portuguesa", que no ano anterior tinham insistido com os empresários para trazerem a Lisboa os Ballets Russes de Diaghilev. A sua estadia foi, no entanto, atribulada face aos contínuos focos de agitação político-revolucionária que levaram Sidónio Pais à Presidência da República. Assim, a data prevista para a sua estreia foi adiada por um período de quinze dias."
Tudo isto aqui à nossa porta, os focos de agitação e no intermezzo, os Ballets Russes no Coliseu.
Certo ser um desafio auto-imposto, todavia, é colocado também pela comunidade. Esperam de nós algo de bem específico este ano sem terem a real noção da magnitude da tarefa. A história da escola não está feita, o guião terá de ser feito por nós. Para além da pesquisa história, selecção dos episódios, teremos ainda a pesquisa específica - que dança(s)? que música(s)?, que guarda-roupa?, qual o ambiente?. Interessante, sem dúvida. Assustador, idem.
Ter algumas fontes à distância de um braço tranquiliza-me. Foi um dia em grande ontem. Cruzei-me na gare do comboio com colegas da escola antiga, os profs da linha vinham para Lisboa dizer de sua justiça. Meteram-se comigo "ena! que grande mochila, levas aí o farnel?" Ri-me, claro, pensando "quem sabe, vou ter sorte".
Tive. Quer com o livro, quer depois com o resto da tarde.
Uma emoção sentir o uníssono de uma classe tradicionalmente dividida. Pregamos e advogamos o trabalho de grupo, na prática, realizamos-lo pouco e a espaços. [não sucede isso na nossa escola no grupo de educação física, bem pelo contrário, mas falo agora do global]. Esqueci-me do telemóvel em casa, só ao princípio da noite me consegui juntar à Escola Secundária de Camões que subia a Avenida fechando o cortejo. Na procura, encontrei imensos colegas de curso, colegas de escolas antigas, cumprimentei e fui cumprimentada por colegas que não consigo ainda localizar quer no tempo, quer no espaço e a empatia genuína, solidária, alegre.
Chegámos ao Marquês noite cerrada, os últimos dos últimos. Depois das despedidas desci a avenida sem carros, os manifestantes ocupando ainda a faixa central. Irritação (compreensível, nas corridas também sucede) dos condutores nas laterais. Um ambiente onírico, ainda assim. A noite escura, sem vento, um ar de inverno pelo fumo das castanhas que aprisionado por uma massa mais fria não se dispersava com facilidade. A faixa central livre para nós, os peões, os cidadãos. Ao descer na escuridão, um sentimento de paz, de fim de batalha que sabemos não ter vencido (não, nem sequer esta, a opinião pública não nos percebe, os nossos amigos não nos percebem, nem sequer os nossos familiares) mas que nos soube tão bem travar.
Um percurso.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
programas
A (nossa) temporada tardou mas parece que vai abrir. Alguns alunos já se organizaram em actividades regulares de extensão curricular - Hip hop com a Full Out, outros convidam-nos para umas sessões pontuais - amanhã no ginásio da Catarina. A minha sugestão cai - ainda e sempre - na dança contemporânea.
Na próxima sexta feira, 14 de Novembro, pelas 21:00 no Teatro Camões. São os Quorum Ballet com "The other side" e "Relações".
O preço dos bilhetes já não é muito convidativo (no ano passado eram a 5€); agora, os jovens têm desconto de 35% sobre o bilhete avulso, o que neste caso dará 9,75 €.
Não sei, pensem no assunto, tentarei entretanto ver se os descontos para escolas nos incluem (pelo site não me parece).
E se alguns alunos do ano passado ainda por aqui andarem e esta ideia lhes sorrir :) digam qualquer coisa. Quiçá com colegas novos de faculdade. Ou outros.
Na próxima sexta feira, 14 de Novembro, pelas 21:00 no Teatro Camões. São os Quorum Ballet com "The other side" e "Relações".
O preço dos bilhetes já não é muito convidativo (no ano passado eram a 5€); agora, os jovens têm desconto de 35% sobre o bilhete avulso, o que neste caso dará 9,75 €.
Não sei, pensem no assunto, tentarei entretanto ver se os descontos para escolas nos incluem (pelo site não me parece).
E se alguns alunos do ano passado ainda por aqui andarem e esta ideia lhes sorrir :) digam qualquer coisa. Quiçá com colegas novos de faculdade. Ou outros.
domingo, 2 de novembro de 2008
um !ah!
que me perdeu. Exagero, claro, como sempre.
Uma bonita manhã de outono, fria, luminosa, o ideal para ir até à feira de velharias aqui de Oeiras. Pode ser que tenha sorte, um dia há-de acontecer, penso. Na intenção de ampliar a minha biblioteca de dança, tenho andado desde o início do ano numa ronda pelos alfarrabistas. Sem qualquer resultado (no outro dia consegui uma "Histoire de la danse" editada em 1942, comprada já no estado de ausência de discernimento, o desespero de - seja, ao menos até à primeira metade do século XX) para além de passeios agradáveis pela cidade. A questão é que ando à procura de livros em ruptura de stock, isto é, tiveram uma primeira curta edição e nada mais. A biblioteca de Oeiras (e outras em Lisboa) tem-os, é mais o vício da cobiça, querer tê-los aqui em casa à distância de um braço e de uma cadeira.
Depois, o professor Monge conta-nos em reunião de departamento que o Sr. tantos e tantos vai doar-lhe a sua biblioteca, é a terceira pessoa a legar-lhe, talvez por saberem que ele adora história e está agora a dedicar-se à da educação física. Já não tem espaço em casa, anda a tentar encontrar alternativas e eu penso que o mesmo há-de estar a acontecer em todo o lado. Pessoas que envelhecem (ou morrem), mudam para casas mais pequenas, deixam de ter espaço, vendem os seus livros ao quilo. O meu pai frequentava muito os leilões, comprava assim lotes e lotes. Nem todos lhe interessavam, oferecia os outros.
Aqui no bairro as pessoas depositam o que não querem ao lado dos contentores do lixo. Há uns anos, um verdadeiro festim: alguém desfez-se de uma biblioteca inteira; trouxe para casa uma colecção dos romances de Dostoevsky ainda por abrir, daqueles que era preciso passar a lâmina da barba (algo que já deve ser muito difícil de encontrar). Continuam ainda por abrir (a cobiça, a cobiça), eu já os tinha lido na adolescência, ainda não me deu para relê-los.
De modo que, penso - um destes dias, alguém vai-se desfazer da sua colecção de livros da Biblioteca Breve, ou da sua prateleira de livros de dança e eu vou ter sorte, há que persistir. Além disso é giro, gosto de passear entre tabuleiros de livros ao ar livre, folheá-los, ler as dedicatórias, por vezes imaginar quem estaria num extremo e no outro.
Hoje, terminava o meu périplo, estava já no fim da feira, estaco numa banca com uma vintena de livros expostos no chão. Um cartão anunciava 1€, embora fosse óbvio que não se referia a todos os livros, alguns eram bons, grandes, boas encadernações. Demoro o olhar, percorro todos os títulos, olho para o lado, o dono da banca retirava de um caixote um molho de livros. À cabeça, "pensar a dança" de José Sasportes, um livro que já requisitei na biblioteca de Oeiras. E exclamo "Ah!, posso ver?". Asneira, a excitação transpareceu na minha voz. Folhei-o com ar neutro e pergunto uns minutos depois "quanto é?" "Deve estar aí", agarrando no livro e folheando-o, ele. Não estava, isso já tinha eu visto. "10€", responde-me. Hum, folheio-o um pouco mais, hesitando. Eu já o li, se bem que não seja um livro de se ler, não é um romance que se leia e se fique a saber se A fica com B ou se pelo contrário parte em direcção ao horizonte. Por outro lado, sendo interessante e um bom complemento numa biblioteca, não é essencial. Não é este que eu preciso agora que me quero documentar para os 100 anos. Não vou fazer outra compra a quente, há que ser mais racional. Se ele tem dito 5 ou 6, digamos 8, com certeza. Assim, deixei-o ficar. Poderia ter tentado a negociação e talvez o senhor até tivesse apreciado a tentativa, estupidamente considerei que, denunciada pelo interesse do meu "ah!", não teria hipótese.
Vivendo e aprendendo, espero ser mais contida na próxima vez. E mais ousada, também, porque não arriscar?
Uma bonita manhã de outono, fria, luminosa, o ideal para ir até à feira de velharias aqui de Oeiras. Pode ser que tenha sorte, um dia há-de acontecer, penso. Na intenção de ampliar a minha biblioteca de dança, tenho andado desde o início do ano numa ronda pelos alfarrabistas. Sem qualquer resultado (no outro dia consegui uma "Histoire de la danse" editada em 1942, comprada já no estado de ausência de discernimento, o desespero de - seja, ao menos até à primeira metade do século XX) para além de passeios agradáveis pela cidade. A questão é que ando à procura de livros em ruptura de stock, isto é, tiveram uma primeira curta edição e nada mais. A biblioteca de Oeiras (e outras em Lisboa) tem-os, é mais o vício da cobiça, querer tê-los aqui em casa à distância de um braço e de uma cadeira.
Depois, o professor Monge conta-nos em reunião de departamento que o Sr. tantos e tantos vai doar-lhe a sua biblioteca, é a terceira pessoa a legar-lhe, talvez por saberem que ele adora história e está agora a dedicar-se à da educação física. Já não tem espaço em casa, anda a tentar encontrar alternativas e eu penso que o mesmo há-de estar a acontecer em todo o lado. Pessoas que envelhecem (ou morrem), mudam para casas mais pequenas, deixam de ter espaço, vendem os seus livros ao quilo. O meu pai frequentava muito os leilões, comprava assim lotes e lotes. Nem todos lhe interessavam, oferecia os outros.
Aqui no bairro as pessoas depositam o que não querem ao lado dos contentores do lixo. Há uns anos, um verdadeiro festim: alguém desfez-se de uma biblioteca inteira; trouxe para casa uma colecção dos romances de Dostoevsky ainda por abrir, daqueles que era preciso passar a lâmina da barba (algo que já deve ser muito difícil de encontrar). Continuam ainda por abrir (a cobiça, a cobiça), eu já os tinha lido na adolescência, ainda não me deu para relê-los.
De modo que, penso - um destes dias, alguém vai-se desfazer da sua colecção de livros da Biblioteca Breve, ou da sua prateleira de livros de dança e eu vou ter sorte, há que persistir. Além disso é giro, gosto de passear entre tabuleiros de livros ao ar livre, folheá-los, ler as dedicatórias, por vezes imaginar quem estaria num extremo e no outro.
Hoje, terminava o meu périplo, estava já no fim da feira, estaco numa banca com uma vintena de livros expostos no chão. Um cartão anunciava 1€, embora fosse óbvio que não se referia a todos os livros, alguns eram bons, grandes, boas encadernações. Demoro o olhar, percorro todos os títulos, olho para o lado, o dono da banca retirava de um caixote um molho de livros. À cabeça, "pensar a dança" de José Sasportes, um livro que já requisitei na biblioteca de Oeiras. E exclamo "Ah!, posso ver?". Asneira, a excitação transpareceu na minha voz. Folhei-o com ar neutro e pergunto uns minutos depois "quanto é?" "Deve estar aí", agarrando no livro e folheando-o, ele. Não estava, isso já tinha eu visto. "10€", responde-me. Hum, folheio-o um pouco mais, hesitando. Eu já o li, se bem que não seja um livro de se ler, não é um romance que se leia e se fique a saber se A fica com B ou se pelo contrário parte em direcção ao horizonte. Por outro lado, sendo interessante e um bom complemento numa biblioteca, não é essencial. Não é este que eu preciso agora que me quero documentar para os 100 anos. Não vou fazer outra compra a quente, há que ser mais racional. Se ele tem dito 5 ou 6, digamos 8, com certeza. Assim, deixei-o ficar. Poderia ter tentado a negociação e talvez o senhor até tivesse apreciado a tentativa, estupidamente considerei que, denunciada pelo interesse do meu "ah!", não teria hipótese.
Vivendo e aprendendo, espero ser mais contida na próxima vez. E mais ousada, também, porque não arriscar?
Assinar:
Postagens (Atom)