Eram duas como já disse. A primeira de Edward Clug, Four Reasons de repente fez-me regressar a "A magia do sonho", àquelas pernas iluminadas por trás. O cenário estava muito giro, ora portas de luz, ora janelas rasgadas, ora telas a meia altura. Os bailarinos entravam e saíam nas nesgas de luz, passavam pelas janelas modernas deixando-nos entrever a parte superior do seu corpo e imaginar o resto. A tela baixava e víamos tudo excepto as caras dos bailarinos. A música ao vivo, sempre uma outra graça. Gostei muito desta peça se bem que lhe faltasse um crescendo, um clímax.
A segunda, Come together com um jogo de luzes fabuloso. Não jogo de luzes, de facto era uma projecção. A matriz, o cenário, era um filme a passar em fundo com faixas de luz. Evocavam o exterior/interior de grandes edifícios, fazendo lembrar as sombras de pilares nas suas linhas direitas. Fui hoje ler a entrevista de Rui Horta ao Ipsilon, o suplemento da sexta feira do Público. Data de há uma semana mas não tinha lido, muitas vezes não gosto de ler antes. Parvoeira, fiz mal, devia ter lido porque uma das reservas que tinha em relação a convidar os alunos seria o putativo vanguardismo em demasia.
"O que a partir de quarta-feira o público pode ver tem sem dúvida a assinatura de Rui Horta - o multimédia, o texto, o movimento, a preocupação social, a arquitectura -, mas pode causar alguma estranheza a quem está habituado à obra do coreógrafo. São demasiadas pessoas em palco (12) e em alguns quadros a estrutura de "Come Together" permite mesmo que os bailarinos se entreguem aos mesmos movimentos, num "uníssono conservador" (diz ele) que serve o tema: Qual é o papel do indivíduo no grupo? Como pode manter-se singular?"
Não o era, penso que teriam gostado, penso que Come together tinha a dose certa de vanguardismo/conservadorismo para nós. A peça era fraccionada por algum discurso directo e até isso, esse desconforto (falo por mim, não há meio de não me eriçar e arrefecer quando me deparo com uma peça assim) seriam úteis. Ocorre-me José Gil "Suponhamos um solo: o bailarino executa uma série de gestos; de súbito põe-se a falar de uma história que nada aparentemente tem a ver com os seus movimentos (...). O olhar do espectador vacila, a sua compreensão dos gestos e das palavras desagrega-se. Depois, a partir de um certo momento, tudo volta a ficar no seu lugar: a coisa "funciona". O que é que funciona? O movimento dos gestos e das palavras que resulta do agenciamento de uns e outras numa dupla cadeia que se enrolasse sobre si, não se conectando as palavras ou as frases uma a uma com os movimentos ou as sequências de movimentos."
Hum... talvez. O meu olhar estará esclerosado ou mal sustido, vacila demasiado tempo, demoro sempre a reentrar na peça. De qualquer modo gostei bastante e, se não saí de lá empolgada "adorei, adorei" (faltava-lhe o tal fluir de sentimento, a alegria, uma euforia, uma angústia que fosse), foi o remate certo para a semana que passou.
[uma semana de nãos, ou precisando, uma sexta feira de nãos e não refiro ao meu granel dos bilhetes. Regressaremos a este assunto.]