-E mesmo se tivesse não lho dava.
Como uma menina pequena a fazer uma birra, respondi assim à senhora da bilheteira do Teatro Camões. Logo, de pronto, envergonhada, sorri e acrescentei - também não merece se nem sequer é capaz de oferecer dois bilhetes a quem quer que apareça. Uma história com laivos surrealistas, a de hoje. Andei hesitando toda a semana em ir ver o programa de abertura da temporada no Teatro Camões. Uma peça de Rui Horta, outra de um coreógrafo esloveno Edward Clug. Não sabia se teria resistência - todos os dias a entrar na escola às 8.00 e sair às 20.00, sair de minha casa à noite e reentrar à noite, tudo em consequência da maratona de reuniões intercalares. Um dano colateral desagradável este de ter nove turmas, nove reuniões (seis das quais em regime nocturno). Adiante, ontem véspera de sexta feira, achei que sim estava-me a apetecer ir. Era demasiado tarde para desafiar os alunos (tinha hesitado também por ter algum receio de um excessivo vanguardismo das peças, talvez não fosse a estreia ideal para os alunos da ap) mas aqui em casa ainda ia a tempo. Apenas uma respondeu afirmativamente e hoje, à hora de almoço, entre reuniões, fui à fnac comprar dois bilhetes para domingo à tarde (único momento em que a minha filha poderia ir). Uma bicha infindável, quando chegou a minha vez constatei que domingo não havia espectáculo e à tarde, apenas sábado. Seja - dois de 5€ para sábado às 16.00, sff.
Sms a informar do meu engano, resposta dela "não me dá muito jeito". Ok, não faz mal vou tentar trocar os dois de amanhã por um para hoje. Acabo a bendita última reunião (muito cedo, uma turma tranquila para não lhe chamar espectacular) lá vou eu para o Teatro Camões.
- Não, não podemos trocar. Foram comprados na fnac, será lá que tem de trocar.
Lá vou eu para a fnac. Não, não podemos trocar. Foram comprados na baixa-chiado, terá de lá ir. Mas eles também não trocam, o sistema não deixa.
Argumento e contra-argumento, já o tinha feito na bilheteira com idênticos resultados nulos. São as normas. São normas cegas. É o sistema que não deixa. O sistema é gerido por pessoas. Cobrem-me uma taxa, façam-me pagar o papel, mas troquem-me. Eu quero comprar um bilhete de 20 €, quer a fnac quer o Teatro Camões vão ficar a ganhar. Inútil.
A noite estava óptima, a semana tinha sido de arrasar, eu queria ir hoje, não numa tarde de sábado. As tardes de sábado são para o ar livre, não para uma sala de espectáculos. Que se dane, vou comprar um para hoje. Regresso ao Teatro Camões e estendo os dois bilhetes na bilheteira:
- Ofereça-os amanhã a alguém que aí apareça. Quero um para a plateia para hoje, sff.
devolvendo-mos
- Não posso. Não posso ficar com os seus bilhetes, não posso oferecer bilhetes.
- Não pode porquê? Eu não os vou usar, porque é que se hão-de estragar? Amanhã há-de aí aparecer alguém que os queira. Ofereça-os, um presente inesperado.
- Não posso, são as normas.
Céus, que desespero as normas. Estamos todos a ficar atacados de uma estupidez colectiva. As normas cegas, nós obedientes acéfalos.
Entretanto, tinha-lhe estendido 20 € e o cartão fnac (desconto de 20%). Pede-me um euro para facilitar os trocos. Recuso. Olha-me pela primeira vez nos olhos, sorrimos ambas, recebe os meus bilhetes e coloca-os a jeito para amanhã. Espero.