Não vejo muita televisão, telejornais não vejo de todo. Sigo as notícias pelos jornais e, agora, sobretudo pelos blogues. Escapo assim, em parte, ao frenesim dos directos e acima de tudo ao massacre da não notícia. A realidade aparece-me digerida, mal digerida questiono-me por vezes, antes isso que uma indigestão, contraponho de pronto. Adiante.
A questão da contabilidade das medalhas, então, é-me completamente estranha. Irrita-me, enerva-me, a tremenda pressão que jornalistas e "opinadores" colocam sobre os atletas como se nada mais importasse. Todos tivemos (pelo menos os que praticámos um desporto de competição) o sonho de um dia desfilar na cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos. Aquele ambiente de festa, de união, de amizade entre todos os competidores e por acréscimo - entre os povos, a alegria imensa, os adeuses para os avós que nos vêm em casa por entre as lágrimas de orgulho, as nossas lágrimas ali mesmo - um filme que só alguns têm a coragem, a determinação, (as condições também), a persistência de realizar.
Os que lá estão já são os melhores. Que interessa uma medalha? É o objectivo máximo, certo. Mas secundário. O primeiro - a participação - está assegurado. Não estou com isto a defender que os atletas vão confraternizar e passar umas agradáveis férias durante os jogos. Nada disso. Que dêem o seu melhor basta-me. Assistir a uma competição feroz - dentro das regras - em que cada um se bata com todas as suas forças, argúcia, frieza, concentração, é para mim o melhor dos espectáculos. Não sou melhor pessoa nem Portugal um melhor país se na mesquinha conta de mercearia, os portugueses ganharem mais rodelas que os vizinhos.
E depois, ouço na rádio que o judo português desiludiu, falhou eu sei lá. Aumento o volume, Pedro Dias ficou em nono lugar. Nono lugar? Céus, é magnífico! O nono do mundo neste momento? Não é bom?
Chego a casa, faço uma busca "Pedro Dias". Venho aqui parar "Judo português falha medalhas" e (...)
Também o judoca Pedro Dias foi eliminado da competição de -66 kg, perdendo por ippon com o italiano Nicola Casale e terminando assim o seu desempenho em nono lugar.
Pedro Dias manifestou-se «triste» por considerar que «poderia ter ido mais longe». «O balanço não é positivo. Ninguém está mais triste do que eu. Mas deixei a minha pele no tapete. Trabalhei 12 anos para vir aos Jogos Olímpicos e conquistar uma medalha. Estive com um pé nas meias-finais. Perdi com um norte-coreano que tenho noção que sou mais forte do que ele. Talvez tenha gerido mal o combate», lamentou. (...)
O Pedro foi meu aluno num 12º ano há uns oito anos. Pertenceu àquela turma fabulosa de que já falei - a que produziu um jornalinho e o baile de finalistas. Um rapaz muito simpático, dado, amigo, solidário, bem disposto. Já na altura treinava o judo com afinco, os Jogos sempre no horizonte. "Deu-nos" duas maravilhosas aulas de Judo, pôs toda a turma a gostar da modalidade. Abalou os estereótipos negativos (era uma turma de humanidades, maioritariamente de meninas com escassa experiência anterior de actividades físicas e muita resistência à "brutalidade" dos desportos de combate), abriu os horizontes, partilhou connosco o seu saber e o prazer, um rapaz impecável, um privilégio naquela turma.
Custa-me ler que falhou. Não falhou nada, caramba! Esteve lá e bateu-se. Nas suas próprias palavras deixou lá a pele. Merece os parabéns como todos os outros que deram o seu melhor.
Reescrevo neste local obscuro o título:
Judo português bate-se com alma.