quarta-feira, 13 de agosto de 2008

peles

Não vejo muita televisão, telejornais não vejo de todo. Sigo as notícias pelos jornais e, agora, sobretudo pelos blogues. Escapo assim, em parte, ao frenesim dos directos e acima de tudo ao massacre da não notícia. A realidade aparece-me digerida, mal digerida questiono-me por vezes, antes isso que uma indigestão, contraponho de pronto. Adiante.

A questão da contabilidade das medalhas, então, é-me completamente estranha. Irrita-me, enerva-me, a tremenda pressão que jornalistas e "opinadores" colocam sobre os atletas como se nada mais importasse. Todos tivemos (pelo menos os que praticámos um desporto de competição) o sonho de um dia desfilar na cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos. Aquele ambiente de festa, de união, de amizade entre todos os competidores e por acréscimo - entre os povos, a alegria imensa, os adeuses para os avós que nos vêm em casa por entre as lágrimas de orgulho, as nossas lágrimas ali mesmo - um filme que só alguns têm a coragem, a determinação, (as condições também), a persistência de realizar.

Os que lá estão já são os melhores. Que interessa uma medalha? É o objectivo máximo, certo. Mas secundário. O primeiro - a participação - está assegurado. Não estou com isto a defender que os atletas vão confraternizar e passar umas agradáveis férias durante os jogos. Nada disso. Que dêem o seu melhor basta-me. Assistir a uma competição feroz - dentro das regras - em que cada um se bata com todas as suas forças, argúcia, frieza, concentração, é para mim o melhor dos espectáculos. Não sou melhor pessoa nem Portugal um melhor país se na mesquinha conta de mercearia, os portugueses ganharem mais rodelas que os vizinhos.

E depois, ouço na rádio que o judo português desiludiu, falhou eu sei lá. Aumento o volume, Pedro Dias ficou em nono lugar. Nono lugar? Céus, é magnífico! O nono do mundo neste momento? Não é bom?

Chego a casa, faço uma busca "Pedro Dias". Venho aqui parar "Judo português falha medalhas" e (...)

Também o judoca Pedro Dias foi eliminado da competição de -66 kg, perdendo por ippon com o italiano Nicola Casale e terminando assim o seu desempenho em nono lugar.

Pedro Dias manifestou-se «triste» por considerar que «poderia ter ido mais longe». «O balanço não é positivo. Ninguém está mais triste do que eu. Mas deixei a minha pele no tapete. Trabalhei 12 anos para vir aos Jogos Olímpicos e conquistar uma medalha. Estive com um pé nas meias-finais. Perdi com um norte-coreano que tenho noção que sou mais forte do que ele. Talvez tenha gerido mal o combate», lamentou.
(...)

O Pedro foi meu aluno num 12º ano há uns oito anos. Pertenceu àquela turma fabulosa de que já falei - a que produziu um jornalinho e o baile de finalistas. Um rapaz muito simpático, dado, amigo, solidário, bem disposto. Já na altura treinava o judo com afinco, os Jogos sempre no horizonte. "Deu-nos" duas maravilhosas aulas de Judo, pôs toda a turma a gostar da modalidade. Abalou os estereótipos negativos (era uma turma de humanidades, maioritariamente de meninas com escassa experiência anterior de actividades físicas e muita resistência à "brutalidade" dos desportos de combate), abriu os horizontes, partilhou connosco o seu saber e o prazer, um rapaz impecável, um privilégio naquela turma.

Custa-me ler que falhou. Não falhou nada, caramba! Esteve lá e bateu-se. Nas suas próprias palavras deixou lá a pele. Merece os parabéns como todos os outros que deram o seu melhor.

Reescrevo neste local obscuro o título:

Judo português bate-se com alma.