Uma expressão curiosa, esta. Bem deste tempo ou talvez desta (minha) geração. Não me lembro de a ouvir há trinta anos, talvez na altura não houvesse necessidade. Foi o choque petrolífero, foi a Revolução, depois o PREC, estávamos sempre na zona de desconforto. Para vocês é também ainda uma expressão alienígena - a adolescência por definição é uma época de torvelinho, são raros os que a atravessam sem quaisquer crises de auto-confiança ou outras. A sensação de insegurança é bastante perene, não há qualquer necessidade de a agravar. Pelo contrário, procura-se refúgio no grupo de amigos, alguns na família, nos livros, nos computadores.
(outro parêntese - li num blogue há uns bons meses, na zona dos comentários (e infelizmente já nem sei onde andei nesse dia, poderia esclarecer melhor esta situação), a descrição do método usado numa escola com ensino francês - em Portugal - para melhorar a confiança dos miúdos. Ao final do ano lectivo, os professores de cada classe separavam os melhores amigos e enviavam um deles para outra classe. Este processo, que causava espanto e muita ansiedade nos pais, era logo entendido pelos miúdos e aceite sem reservas. No ano seguinte, formavam-se, naturalmente novos grupos de dois, três, quatro amiguinhos. Ainda assim, mantinham-se as amizades do ano anterior pois os recreios eram comuns, bem como passeios, visitas de estudo, festinhas. No final desse ano, nova separação e depois outra coligação. As crianças aprendiam assim a socializar-se com enorme facilidade e iam aumentando o seu núcleo de amigos e conhecidos. Interessante)
No início do ano, na sua palestra, o meu irmão falou-lhes na necessidade que sentiu, em determinada fase da sua vida, em sair da sua zona de conforto. Por isso a sua viagem à volta do mundo, a sua saída em caiaque na Antártida. Para algumas pessoas, viajantes compulsivos, esta necessidade é uma pulsão irrecusável. Lembro-me de, num livro que li de/ou sobre Bruce Chatwin ver esta descrição "fui para a Patagónia", num bilhete deixado sobre a secretária no escritório, um misto de despedida e auto-despedimento. Magnífico.
Encontrei este ficheiro Mp3 de que vos tinha falado. Uma balada bem melancólica. Porém descritiva e a fazer-nos sonhar. Slides, de Richard Harris.
Passámos três dias na zona da Arrábida e Cabo Espichel. Levámos tudo o que precisávamos connosco, dentro dos caiaques, dormimos na praia, pescámos, apanhámos destroços de madeira para fazer lume. Algumas vicissitudes - o fogareiro a gás que levávamos recusou-se a funcionar, felizmente houve lenha seca em quantidade suficiente, muito mar e vento num dos troços a exigir-nos bastante frieza e alguma fé (cheguei a pensar que o meu caiaque tão submerso que estava, se afundava) apenas trouxeram mais graça à expedição.
Não há nada que se compare à incrível liberdade que desfrutamos ao quebrarmos as amarras, ao enfrentarmos o desconhecido com os seus perigos reais e imaginários, ao nos vermos apenas dependentes de nós mesmos e do nosso engenho.
Ah, e dormir sob as estrelas, outra sensação incomparável.
Vou de férias, não por muito tempo mas para já interromperei este blogue. Regressarei quando houver mais que dizer.