Parece que significa reflexo da lua na água e é uma palavra turca. Segundo percebi, numa busca superficial, teria sido eleita a palavra mais bela do mundo; aparte a tonteira de semelhante votação, é uma palavra bonita.
(abro um parêntese, é que nem de propósito: fomos ver o espectáculo no sábado à noite, partimos logo na madrugada seguinte para a Arrábida onde bivacámos na praia, não com o reflexo da lua na água (nascia tarde e sobre a falésia) mas sim o das estrelas. Lindo)
O espectáculo?
Tinha três peças - sementes de luz, acqua, reflexo de mim. Compridas, trabalhadas, sentidas. Ousadas, também, no sentido em que são experimentalistas. Explico - achei o espectáculo desequilibrado, gostei muito de algumas partes, detestei outras. Sou conservadora, devo dizer, e partes das peças eram talvez demasiado vanguardistas para mim (se é que isto de se adjectivar algo de demasiado vanguardista faz algum sentido).
A primeira peça começa com muita correria, muita correria atravessando várias vezes o palco. Gosto do som dos pés descalços sobre o linóleo, da determinação (e ausência de sentido? como se tudo não o fosse assim) com que o fazem. Bem sei que já o vi várias vezes mas isso não tem mal, estavam muito bem, assim como o encadeamento da primeira parte da peça. Depois, numa segunda parte de Sementes de Luz, resolvem entrar cada uma à vez com um artefacto tecnológico (gambiarras, carros de brincar e diabo a sete) ora ligadas à corrente ora com baterias. Numa breve introdução usaram todas daquelas luzes de natal que contornam - numa importação dos EUA - as janelas e as portas das casas, o que fez um efeito giro. Mas a solo não teve qualquer graça, além do susto permanente - quando é que uma delas fica electrocutada? Forçado, ou foi assim que me pareceu.
A segunda peça - Acqua - detestei. Um estendal "parece um anúncio do Tide" segredou-me a prof. Isabel Miranda ao ouvido e foi muito bem achado - onde elas penduravam roupa que lavavam em alguidares. A aldeia da roupa branca, percebeu-se que se divertiam imenso, o linóleo ficou lavadinho com tanta água que jogavam umas para cima das outras, nós ficámos frias.
A terceira voltou a ter momentos muito interessantes - elas têm belíssima técnica e sobretudo muito sentimento mas infelizmente prolongou-se demasiado e perdeu energia. O final foi fraco, fizeram um sumário (não do género do nosso, elas estiveram sempre todas em todas as peças), uma recapitulação de todo o espectáculo. Do meu ponto de vista foi um erro. Foram buscar todos os objectos utilizados e estes eram completamente desengraçados. Os alguidares de plástico (azul, redondos, de qualquer drogaria da esquina), uns bancos de três pernas feíssimos (vá lá que as cadeiras eram banais), uns aquários assim assim, tudo de um design descuidado.
Não obstante, esta crítica que não pretendo de modo algum que seja destrutiva, gostei de ter ido, gostei de lá estar, isto é, apreciei enquanto durou (não estive de olhos postos no relógio, não quis sair antes de ter terminado).
Os figurinos estavam muito bem - adequados, apelativos, bem integrados. As intérpretes eram expressivas, intensas, coesas. Coreografias cativantes (tirando as tais partes, claro), muita energia, fluidez, determinação.
Perguntei-me se teria gostado pelas razões afectivas - por conhecer a Alexandra, por saber que tudo foi produzido por elas, grupo péantepé (outra busca agora mesmo). Penso que não. Mesmo considerando tudo o que apontei, o balanço que faço é isento.
Foi um belo trabalho.
E depois imagino-as (os também, quem sabe?) a vocês, um dia no futuro, num grupo assim. Roubando horas à faculdade (deveria talvez dizer, acrescentando) e à família (um momento tocante - ainda que extemporâneo - nos Reflexos de mim: uma das dançarinas entra com um bébé de colo e esta faz parte da cena por alguns minutos. Muito sereno, não estranhou, não fez beicinho, colaborou com uma boa disposição surpreendente; seria, com toda a evidência, a filha de uma das intérpretes) para criar momentos de beleza e partilhá-los connosco.
Adenda - A questão dos objectos/adereços deve ser bem pensada. Já no outro dia, no solo do RAP, Como fazer actos com palavras, não tinha gostado dessa opção. O texto era magnífico, não precisaria de nada mais que uma voz e um corpo. Tem graça ver uma barbatana de tubarão percorrendo o palco como quem corta as águas, ou um par de actores fazendo gracinhas, mas na realidade desvia-nos das palavras. O que ali estraga.
Aqui sucede o mesmo. Os corpos seriam suficientes por si. E eram bonitos. Reais. Mais valia não os terem posto a contracenar com objectos tão feios em acções desconchavadas.