quarta-feira, 16 de julho de 2008

voz

"Maria Mueller tinha a mais bela dicção que alguma vez ouvi. Era um alto, quente e vibrante, como um perfeito instrumento de sopro ou a Vox Humana de um dos grandes órgãos barrocos. Ela mantinha-a em completo controlo e expressava cada emoção, cada cambiante de sentimento, cada personagem com a mais subtil mudança na entoação, no ritmo ou na cadência. Mas também podia manter entoação, ritmo e cadência enquanto passava de pianissimo a forte e vice-versa. Era uma das últimas grandes declamadoras de poesia em palco; ela sabia ainda como "dizer" o verso em vez de recitá-lo, além de ter o controlo da respiração e da dicção que faziam os versos soar como a voz e as palavras humanas. Não era uma "actriz famosa"; efectivamente, nem sequer era uma "actriz", mas sim uma diseuse. No palco quase não se mexia e fazia poucos gestos, e só discretos e convencionais. Erguia-se e falava. Porém, quando surgia no palco e começava a falar, lembrava o Levantar do Vento na Descida do Espírito Santo no Primeiro Pentecostes. Era possível sentir um estremecimento sacudir a audiência. E daí em diante só havia ouvidos para ela."
in Memórias de um Economista, Peter Drucker.

Ainda em mãos, este livro. Lia este pedaço e ouvia a Anabela. Une diseuse, aussi.